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Murilo Marcondes de Moura - 14 - Maio de 1996
Elogio cindido dos vencedores
Foto do(a) autor(a) Murilo Marcondes de Moura

Elogio cindido dos vencedores

 

MURILO M. DE MOURA

esta edição das "Obras Poéticas de Basílio da Gama" tem valor inestimável. Não apenas porque a última disponível era de 1920, mas também pelo esmero de seu organizador, Ivan Teixeira, estudioso da obra do poeta há muitos anos.
O livro compõe-se de três partes: na abertura, um longo ensaio sobre "O Uraguay", com referências esparsas ao restante da obra e um estudo de menores dimensões sobre "Quitubia"; em seguida, os poemas de Basílio da Gama, precedidos de uma "Bibliografia Ilustrada do Uraguay"; fechando o volume, uma breve seleção da fortuna crítica do poeta.
Pretendo discutir mais detidamente as duas primeiras partes, mas vale mencionar que a fortuna crítica é muito útil e bem-pensada, disposta cronologicamente e mesclando textos de valor sobretudo documental (como o de Lourenço Kaulen, de 1786) com outros mais densos (como o de Antonio Candido). Muito reveladora da perspectiva do crítico e organizador foi a inclusão do texto pouco conhecido de Povina Cavalcanti, que efetuou uma leitura "sincrônica" do "Uraguay", num momento (1928) em que o prestígio do cinema e do experimentalismo visual era enorme. Merece destaque o trabalho (de 1994) da estudiosa portuguesa Vânia Pinheiro Chagas, que pôde abalar algumas visões consagradas sobre "O Uraguay", ao associá-lo menos ao pombalismo (Pombal era contrário ao Tratado de Madri, o qual, como se sabe, estava na raiz da Guerra Guaranítica, assunto imediato do poema) e mais a um projeto ainda difuso, já dos colonos brasileiros, de ampliação e ocupação territorial; o poema seria assim, essencialmente, um canto discreto e ambivalente em louvor às Bandeiras.
Passando à segunda parte, creio que Basílio da Gama continuará a ser celebrado como o autor de um único poema, "O Uraguay". Caso semelhante ao do espanhol Jorge Manrique com as "Coplas por la Muerte de su Padre". Mas "O Uraguay", como as "Coplas", é um poema persistente. A ele sistematicamente se retorna: ele pode ser um lugar privilegiado para estudar o encontro de culturas, necessariamente violento, inerente à colonização (Ivan Teixeira sugere uma "tópica do sangue" em nossa literatura do período); pode ser exemplar também da luta encarniçada travada na época entre razão iluminista e visão teocêntrica; mostra-se receptivo mas também polêmico no que toca à discussão sempre móvel sobre a "fundação" da literatura brasileira; é, sobretudo, um poema com qualidades estéticas raras em nossa produção colonial.
Os leitores do poeta desde logo souberam admirar "a frase pura e sem afetação", "os versos naturais sem ser prosaicos, sublimes sem ser guindados", como afirmava Garrett, juízo que seria retomado por Machado de Assis: "poesia suave, natural, tocante por vezes, elevada, mas elevada sem ser bombástica". Essa seria a primeira virtude da poesia de Basílio e inteiramente concorde com o decoro de seu tempo, que via na naturalidade da expressão um ponto de honra, mesmo que tal naturalidade supusesse, como se sabe, uma enorme convenção.
Dentro das prescrições estéticas ainda bastante rigorosas da época, o poeta mostra grande desenvoltura. Em sua obra maior, "O Uraguay", observa-se um jogo complexo entre os universais estéticos com os quais devia operar e a fina apreensão do particular. A adoção do verso branco, por exemplo, estava longe de representar originalidade (ainda que Basílio da Gama tenha sido dos primeiros, na época, a fazê-lo em língua portuguesa), pois era congenial ao relativo prosaísmo do século, mas daquela técnica o poeta foi capaz de extrair uma poesia ágil e dúctil, capaz de circular pela variedade dos tópicos que a sua matéria exigia: as cenas de batalha, a descrição da natureza, a crítica mordaz aos jesuítas, a observação dos índios etc.
Aspecto polêmico do "Uraguay" (publicado em 1769) é o seu vínculo com um evento histórico muito preciso. Trata-se da intervenção militar conjunta de Portugal e da Espanha nos Sete Povos das Missões, comunidade de índios guaranis sob a égide dos jesuítas. O objetivo de tal intervenção era o de efetivar um acordo entre aqueles dois países, o qual ficou conhecido como Tratado de Madri. Seus termos eram simples: em troca daquela região a ser invadida e tomada, Portugal devia ceder a Colônia do Sacramento; quanto aos cerca de trinta mil índios que viviam nas missões, que se retirassem. Deste evento o poeta concebeu uma epopéia cujo herói devia ser o comandante português, Gomes Freire de Andrada. Mas essa ação militar foi ostensivamente inglória e a única Batalha propriamente dita (ocorrida em 16/02/1766) durou cerca de uma hora, e, para as duas mortes e poucos feridos das forças européias, houve mais de mil e duzentos índios mortos.
É difícil, portanto, não entrar no terreno das paixões diante de um poema que se dispusera a exaltar uma guerra tão desigual e que parecia, ainda, um prolongamento dos massacres do início da colonização. A isso vêm se somar as discussões acirradas sobre a ingratidão do poeta para com os jesuítas - vilões caricatos do poema - e seu virtual oportunismo.
Sem poder entrar em detalhes, cabe dizer que a tensão entre poesia e circunstância é central para a compreensão do "Uraguay", e a configuração deste em praticamente dois eixos -o do poema propriamente dito e o das abundantes notas- é já um indicativo. Nesse sentido, cabe lembrar a observação insuspeita e instrutiva do padre Lourenço Kaulen, que se posicionou como arquiinimigo do poeta: quis aqui por ócio refutar o que diz este poeta, não tanto nos versos, em que todos sabem é lícito fingir, quanto nas prosas ou anotações que lhes pôs". De fato, no poema os dados históricos são tratados com liberdade, a guerra cai para segundo plano e com ela o herói português. É vão especular se o poeta "traiu" suas próprias intenções, mas seja como epopéia, seja mesmo como obra encomiástica "O Uraguay" desaponta e ganha outros relevos, em que o lírico e o romanesco dão as cartas. Antonio Candido, que fez a colocação mais equilibrada sobre o assunto, fala aqui da preponderância do "concreto poético" sobre o "concreto histórico".
O restante da obra de Basílio da Gama não mantém o mesmo brilho do "Uraguay", salvo alguns sonetos além de versos esparsos. O poeta parece ter dissipado quase todo seu talento logo no primeiro acerto, quando contava apenas 28 anos.
É preciso elogiar o trabalho cuidadoso e erudito de Ivan Teixeira no estabelecimento do texto para esta edição. Partindo da idéia de que Basílio da Gama pôde editar suas obras em condições muito favoráveis, o organizador considera todas as primeiras edições em vida como a lição definitiva dos textos. Pena que Teixeira tenha decidido manter o "corpus" estabelecido por José Veríssimo, na esteira de Joaquim Norberto, há quase 80 anos. Por que considerar essa antiga edição como uma espécie de arquétipo? De acordo com as informações do próprio crítico, 12 poemas inéditos foram confirmado, enquanto que pelo menos um dos editados anteriormente foi estabelecida a falsa autoria. As explicações para não ter efetuado os "expurgos e acréscimos necessários" são evasivas.
Cabe discutir por fim, de modo infelizmente sintético, as idéias de Ivan Teixeira em seu longo estudo sobre "O Uraguay". É constituído por três grandes segmentos independentes unificados pelo título geral "Epopéia e Modernidade", onde se propõe a discutir a atualidade, estética e ideológica, do poema.
Teixeira parte de uma definição ampla -o poema é encarado como uma "metonímia da colonização portuguesa no Brasil", em que o índio viu-se oprimido e destruído, ora pela catequese, ora pelas armas. "O Uraguay revive toda a formação do Brasil pela miniaturização de uma parte, isto é, apreende a estrutura política do colonialismo pela efabulação de um dos seus episódios". Essa síntese muito genérica, mas defensável e bem-achada, é na verdade estratégica para Ivan Teixeira encarecer a economia de meios do poema, "sua brevidade e concisão", para então, num salto mais livre e arriscado, tentar provar que "O Uraguay" é um dos grandes momentos da poesia brasileira de "invenção", e que, entre outros méritos, foi o primeiro a pesquisar seriamente no Brasil as relações entre forma e ideologia.
Um dos momentos mais extremados dessa proposta é o de relacionar "O Uraguay" com as "Memórias Sentimentais de João Miramar" de Oswald, ou os "versos soltos" dos decassílabos brancos com as "palavras em liberdade" do futurismo, ou ainda a organização "descontínua" do poema com técnicas cubistas. Observe-se, nesse último aspecto, que uma das críticas mais comuns ao poema -a sua estrutura épica precária- passa a ser aqui virtude experimental.
Essa adesão incondicional ao objeto estudado e também a aposta intransigente em uma chave restritiva de leitura ("brevidade e concisão") prejudicam bastante o alcance crítico do ensaio. A perspectiva é muito apaixonada e estrepitosa, quando o equilíbrio seria mais do que possível.
Há ainda sugestões complexas, que só poderiam surgir de quem estudou e pensou muito, e que certamente ressoarão nos estudos futuros sobre Basílio da Gama. Além da já citada "tópica de sangue" em nossa literatura colonial, outra idéia fecunda é a de que há uma "astúcia camaleônica" no "Uraguay". O elogio cindido aos vencedores acaba por "incorporar substancialmente a condição humana da sociedade que será massacrada"; idéia fecunda porque marca com precisão o nexo dialético entre poesia e ideologia, de que "O Uraguay" é um exemplo dos mais curiosos.

Murilo Marcondes de Moura é professor de teoria literária na UFMG e autor de "Murilo Mendes: a Poesia como Totalidade" (Edusp/Giordano). 

Murilo Marcondes de Moura é professor de literatura brasileira na USP
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