

Dura e áspera
Os Sete Loucos & Os Lança-Chamas
Roberto Arlt
Tradução: Maria Paula Gurgel Pinheiro
Iluminuras (Tel. 0/xx/11/3068-9433)
412 pág., R$ 39,00
Em comemoração ao centenário de nascimento do escritor, a nova tradução dos romances de Arlt permite o acesso do leitor brasileiro a uma das obras de referência da literatura argentina. Numa prosa dura e áspera, termos científicos se misturam com coloquialismos portenhos, discussões metafísicas se superpõem a relatos oníricos. Narra-se a história de Erdosain e seu envolvimento com a sociedade secreta dirigida pelo Astrólogo, cujo objetivo maior é realizar uma "revolução" a ser financiada e sustentada por uma cadeia de prostíbulos. Dela participam o Rufião Melancólico, o Major e o Buscador de Ouro, personagens alegóricos da periferia capitalista. O lastro da trama narrativa é o crime e o delito, situação-limite a que são submetidos os personagens na eterna luta entre o bem e o mal, que o autor explora como um discurso cultural e político. Nesse sentido, a associação criminosa do Astrólogo, ao simular as estruturas do Estado, constituiria uma forma peculiar de representação latino-americana no momento da crise norte-americana de 1929. Para além da contingência histórica que a engendrou, a originalidade do texto de Arlt reside, ainda hoje, na capacidade rara de articular com sucesso cultura e Estado, literatura e poder.
A Festa do Bode
Mario Vargas Llosa
Tradução: Wladir Dupont
Mandarim (Tel. 0/xx/11/3649-4600)
450 pág., R$ 37,00
O romance contém os ingredientes típicos do "best-seller", com forte tempero caribenho: sexo, assassinatos, torturadores e políticos corruptos. Em sintonia com a receita, a festa do título alude a uma comemoração popular em que bodes são mortos e comidos em meio a danças -sacrifício que o livro converte na celebração do fim de uma "longa e tenebrosa tirania". O relato desenvolve-se em torno dos preparativos do atentado contra Rafael Trujillo, que governou a República Dominicana de 1930 a 1961. O atentado é rememorado em contraponto com a visita a Santo Domingo de Urânia, filha de um ex-ministro caído em desgraça por obra do truculento ditador, que volta ao país para acertar contas com seu passado. Vargas Llosa continua o habilidoso narrador de sempre, capaz de prender a atenção do leitor com a rapidez e precisão dos diálogos, o andamento do enredo à moda da narrativa policial, além da pesquisa histórica rigorosa que lhe permite revelar detalhes escabrosos da era Trujillo. Falta-lhe, porém, ultrapassar a barreira do mero entretenimento, para que seu livro possa se inserir na linha de tradição do romance hispano-americano que vai de "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Astúrias, a "Eu, o Supremo", de Augusto Roa Bastos, ou "A Morte de Artemio Cruz", de Carlos Fuentes.
Trilogia Suja de Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Tradução: José Rubens Siqueira
Companhia das Letras (Tel. 0/xx/11/ 3846-0801)
358 pág., R$ 32,00
É o mais criativo e corajoso testemunho da crise cubana dos anos 90, com uma dicção escatológica só encontrada na melhor literatura "beat". Sem maniqueísmos ou redução panfletária, o livro narra as peripécias do protagonista, Pedro Juan, em meio aos destroços de uma cidade povoada de personagens que sobrevivem da prostituição, de pequenos expedientes e delitos. Composta de fragmentos e cenas rápidas o suficiente para delinear, com traços fortes, o perfil desses sobreviventes, a narrativa -extremamente contemporânea na sua dinâmica- busca retratar Havana de forma diferente daquela dos discursos oficiais ou da propaganda turística. Uma estranha e inquietante humanidade mostra-se aí mediante a exposição exacerbada da sexualidade, na qual o corpo atua como espaço de resistência e liberdade. Para o autor, nascido e criado na utopia da Revolução Cubana, cumpre-se assim a função liberadora do texto, uma vez que "a arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero", o que o seu livro tem de sobra. No capítulo final, um velho boxeador, transformado em vendedor de livros, sabe que para continuar vivendo "não se pode baixar a guarda". É figura emblemática da situação enfrentada pelo escritor e seus personagens.
Antes do fim
Ernesto Sabato
Tradução: Sérgio Molina
Companhia das Letras (Tel. 0/xx/11/ 3846-0801)
165 pág., R$ 22,00
No relato autobiográfico do autor de "Sobre Heróis e Tumbas" e "Abadon, o Exterminador", uma citação de Camus sintetiza a trajetória rememorada: "Não se pode ficar do lado de quem faz a história, mas a serviço de quem a padece". Dessa perspectiva, Sabato revê momentos decisivos de sua vida: a infância difícil em Rojas, o abandono da promissora carreira internacional de físico em favor da literatura, o convívio com artistas e escritores, o empenho político que resultou, entre tantas ações, na elaboração do relatório sobre os desaparecidos na Argentina, "Nunca Más". Escrito após a morte da mulher e do filho, o tom das memórias é pessimista e sombrio, intercalando o balanço de fatos passados com a reflexão sobre acontecimentos recentes, nos quais busca identificar o que chama de "monstro de três cabeças" dos tempos modernos: "o racionalismo, o materialismo e o individualismo". Os momentos mais bem realizados do livro, no entanto, são aqueles em que o autor deixa por instantes de investir contra as injustiças sociais e se entrega à lembrança emocionada de acontecimentos mais íntimos de sua vida pessoal.
WANDER MELO MIRANDA