

Dragões, borboletas e brasis
NICOLAU SEVCENKO
O BRASIL DOS VIAJANTES
Ana Maria de Moraes Belluzzo Metalivros, três volumes (156, 168, 192 págs.) Distribuição: bibliotecas, museus, instituições culturais Informações: tel 011 262.0355
Expedição Langsdorff - Acervo e Fontes Históricas
Boris Komissarov Tradução: Marcos Pinto Braga Editora da Unesp, 126 págs. R$ 16,00
O Olhar Europeu - O Negro na Iconografia Brasileira do século 19
Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro. Edusp, 235 págs. R$ 39,95
Saudades do Brasil
Claude Lévi-Strauss Tradução: Paulo Neves Cia. das Letras, 227 págs. R$ 62,00
Tudo começou no Jardim do Unicórnio. É um mito antiquíssimo, cujo sentido básico se concentra na figura misteriosa do Unicórnio que, como todos sabem, não é uma criatura real, mas existe. Muito poucos já viram o Unicórnio, porém, a questão é exatamente essa, só os que viram é que contam ou serão contados. Ele vive no jardim da perfeita paz, em meio ao qual há uma árvore, de cujos pomos emanam a vida e a sabedoria e de que ele é o guardião. Bem no centro brota a fonte da eternidade, dando origem a quatro rios, de onde fluem a abundância, a harmonia, a felicidade e a saúde, garantida por um clima sempre ameno e uma natureza para sempre verdejante. Lhe soa familiar tudo isso?
Deve soar, muito embora esse mito arcaico seja de procedência iraniana. O fato é que ele deu origem a diferentes versões, algumas das quais estão fixadas nas raízes de nossa cultura, dita Ocidental. Na versão hebraica há o Jardim do Éden e a serpente. Na versão greco-romana há o Jardim das Hespérides e o dragão Ladon. No mito iraniano original, o fruto desejado da árvore sagrada é a romã. Nas versões mediterrâneas hebraica e greco-romana, a fruta cobiçada é a maçã. Porém, tanto o mito iraniano quanto a versão hebraica, sugerem que o Jardim da bem-aventurança estaria localizado em algum ponto remoto do Oriente. Já o Horto da proibição, para os gregos e os romanos, ficava em algum ponto inalcançável para além de Gibraltar, no rumo do Ocidente, referido como as Ilhas Afortunadas".
Um fato interessante a respeito dos mitos é que, com o tempo e os contatos entre as culturas, eles tendem a se contaminar. Durante a Idade Média, essa tradição cultural herdada da Antiguidade seria fertilizada pelos complexos ciclos de mitos celtas. É sabido como toda a lírica ocidental se funda até hoje no ciclo de lendas sobre o amor obsessivo que uniu tragicamente Tristão e Isolda ou como o protótipo do romance de aventuras foi fixado pelos mitos relativos à demanda do Graal pelos Cavaleiros da Távola Redonda. Menos conhecido porém é o ciclo das viagens místicas de São Brandão, na senda de Avalon, cujo nome aliás significa macieira, que o levaram a sucessivas visitas a um arquipélago perdido em meio ao Atlântico. Numa dessas ilhas ele encontra o Jardim das Delícias. O nome dessa ilha, segundo a lenda, é Hy Bressail ou, mais simplesmente, O'Brazil, o que em língua celta significa Ilha Afortunada".
Cristóvão Colombo, assim como inúmeros outros navegadores e conquistadores, estava impregnado desse imaginário mítico. Sua convicção cega de que encontraria os tesouros miríficos do Oriente descritos por Marco Polo, se viajasse em direção ao Ocidente, derivava mais dessa combinação de substâncias míticas que de qualquer cosmografia empírica. Daí suas descrições do Novo Mundo numa linguagem exaltada, cheia de alusões à tradição das lendas medievais. Mas o Renascimento, em cujo contexto se deram as navegações, comportava igualmente uma tensão no sentido contrário. As exigências postas pela centralização política e pela expansão capitalista demandavam esforços no sentido de uma percepção direta e rigorosa dos territórios, a fim de garantir a sua mais metódica exploração, fosse no sentido militar, comercial ou científico, o que afinal dava na mesma.
Pode-se conjeturar que a arte da paisagem nasceu na zona de fronteira entre essas duas forças opostas. É possível vislumbrar o Jardim se metamorfoseando na Ilha, que por sua vez se transforma nessa construção científico-estética que é a paisagem. Essa dupla substância se manifesta evidente nos pioneiros, como por exemplo a nostalgia visionária com que Bruegel representa o mundo rural flamengo flagelado pela superexploração ou as perspectivas delirantes com que Altdorfer une céu e terra num mesmo vórtice onde se debatem ordem e caos. O advento da paisagem introduz como seu corolário o ícone topológico, que corporifica os desígnios latentes da natureza animada pela imaginação e pelo desejo. Mineral, vegetal, animal ou humano, no melhor dos casos uma íntima interação entre os quatro, qualquer que seja seu feitio ou condição, esse ícone ao mesmo tempo ratifica o rigor da observação direta, científica", do artista e proporciona a dimensão evasiva da imagem, sua remissão ao imaginário mítico, seu valor exótico.
A publicação de O Brasil dos Viajantes" complementa um trabalho em todos os sentidos admirável da professora Ana Maria de Moraes Belluzzo, de pesquisa, localização, contatos e organização de um vasto e raro acervo de imagens acumulado pelos diversos artistas itinerantes que percorreram o Brasil, retratando aspectos do território e suas gentes. A exposição desse material apresentada no Masp e a publicação do respectivo catálogo, representam um marco na nossa produção cultural e o mais efetivo resgate da memória visual sobre o Brasil. Os três volumes que compõem o catálogo são de um impacto deslumbrante, tanto pela variedade e refinamento do material visual, quanto pela avaliação abrangente que proporciona sobre a percepção e projeção imaginária européia em relação a esse país longínquo e sempre estranho.
A articulação da obra segue um plano bem engendrado, composto em três grandes blocos. A primeira parte, denominada Imaginário do Novo Mundo", revela o choque para a consciência européia provocado pela inesperada descoberta de um vasto continente, até então nunca suspeitado e avesso a deixar-se enquadrar em quaisquer das tradições cosmográficas e antropológicas disponíveis. O Novo Mundo tanto encanta e atrai, pela natureza abundante, sensual e amena, quanto aterroriza e instila a ira pelas ameaças da selva virgem e do clima tropical, pela suposta ausência de leis e normas morais, pelo paganismo escandaloso e a ignomínia canibal. O que havia sido encontrado afinal, o Jardim do Paraíso, ou as portas do inferno? Na dúvida, como a volta pelo Atlântico demorava muito, o jeito era relaxar e pintar e, para evitar maiores riscos, dar uma pincelada para Deus e a outra para o Capeta.
Em meio às mais extravagantes fabulações visuais em torno da selva e do índio, se destacam a sobriedade e a competência analítica dos holandeses da corte de Nassau ou o rigor descritivo com que os huguenotes franceses como Thevet e Jean de Léry lançaram as bases do olhar etnológico. Nessa linha, o caso de Albert Eckhout desponta como excepcional. Seus ícones topológicos eram indígenas, negros ou mestiços nascidos no Brasil, quando não naturezas mortas com frutas locais. Ele os representa com um apurado senso naturalista de exatidão, enquadrados porém em composições saturadas de signos vegetais, animais ou ambientais de tropicalidade. Como resultado, o objeto temático do retrato adquire uma excepcional centralidade e elevação sob a exuberância de referências que exaltam sua singularidade tropical, atribuindo à composição um halo sublime que a retira do contexto histórico opressivo da conquista colonial, transformando-a num índice intemporal de pureza primitiva. Operações mítico-estéticas como essas suscitaram a construção da imagem do bom selvagem", em franco sucesso desde então, das Tapeçarias das Índias às superproduções de Hollywood.
O segundo bloco de obras, reunido sob o tema Um lugar no Universo", concentra os trabalhos resultantes das tecnologias de representação visual destinadas à conquista militar, expansão, pesquisa científica e exploração de novos recursos. Mapas, ilustrações de naturalistas, desenhos de exploradores, registros de história natural e antropologia física, todo um vasto repertório de imagens desenvolvido como suporte de uma atividade cada vez mais intensa de esquadrinhamento e apropriação.
Em paralelo, no terceiro bloco A construção da paisagem", com a vinda da corte portuguesa para o Brasil em meio às turbulências da Revolução Francesa, o próprio D. João 6º, fascinado com sua nova sede imperial, promove a invasão do país por inúmeros artistas e sábios sequiosos de contemplar a intimidade da bela virgem, encabeçados pela Missão Francesa, seus aliados austríacos e seus tutores ingleses. Coincidindo com os albores do Romantismo, esses fugitivos da Europa revolucionária e industrial projetariam na natureza brasileira seu idílio de um mundo paralisado na história, solidamente enquadrado na natureza esfuziante, paternal, instintual, festivo. Um mundo fora do tempo, para sempre igual a si mesmo, sacralizado no seu invólucro excêntrico, ilha afortunada no mar revolto da história.
Nem todos os estrangeiros que chegavam com a corte porém procuravam refúgio dos horrores da guerra européia. Alguns queriam, de uma forma ou de outra, trazer a guerra para cá. Foi o caso dessa fantástica personagem, o Barão Georg Heinrich von Langsdorff, alemão de Wõllstein, misto de médico, naturalista, explorador, diplomata e espião, como era de hábito na época. Pondo-se a serviço do Tzar Alexandre 1º em 1803, participou da primeira viagem russa de circunavegação, travando então seu conhecimento inicial com o Brasil. Voltaria em 1813, já nomeado Cônsul-geral do Império Russo junto à corte do Rio de Janeiro. Seus objetivos principais eram dois. Primeiro, prover o governo do czar das informações necessárias para o projeto russo de obter uma base militar no Atlântico Sul; o segundo, muito mais ousado, era compor uma teoria unificada sobre a interação e transformação das espécies vivas.
Com esse objetivo científico em vista, Langsdorff montou uma espécie de estação experimental nos arredores do Rio, a Fazenda Mandioca, logo tornada o bastião dos sábios da corte. Organizou em seguida uma enorme expedição, com uma renomada elite de cientistas internacionais, destinada a atravessar o sertão central do Brasil até a Amazônia, levantando e catalogando espécies. Foi uma tragédia. Muitos morreram e Langsdorff, vitimado pela malária, perdeu totalmente a memória. A coleção de espécies e desenhos contudo foi feita e mandada para a Rússia. O professor Boris Komissarov, da Universidade de São Petersburgo, nos apresenta uma meticulosa análise dos documentos que registram essa épica expedição para a fonte oculta da vida. Não deixa de ser paradoxal, nesse caso, e sintomático, que a tentativa de mergulhar na natureza com o objetivo de promover a atualização científica, tenha culminado em morte, loucura e esquecimento.
Os outros dois livros comentados aqui mantêm uma oblíqua correspondência entre si. A obra dos professores Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro reúne imagens que artistas e visitantes estrangeiros legaram dos negros escravos. O livro do professor Claude Lévi-Strauss apresenta uma seleção das fotos feitas na sua primeira visita ao Brasil, em 1935, sobretudo de grupos indígenas. Em ambos os trabalhos, o tema é basicamente o mesmo: opressão, violência e desintegração sócio-cultural. Se é possível, de modo figurado, falar em paisagem humana, esses dois livros proporcionam um viés através do qual se pode avaliar o estilo peculiar de relação que a condição colonial estabeleceu, entre o conquistador e a natureza, nesta e em outras partes do mundo. Há mais vicissitudes no nebuloso vão entre civilização e colonialismo, do que pode presumir o mais mirabolante paisagismo barroco ou romântico. E no entanto, não há como a documentação iconográfica, imagens enfim, para revelar as sutilezas cruas com que a tirania aflige as criaturas e que as palavras e os discursos foram justamente feitos para calar.
O ato inaugural da expansão colonial moderna foi a conquista das Ilhas Canárias pelos espanhóis. Não poderia haver anúncio mais completo e revelador da catástrofe que estava por vir. Para ocupar as ilhas, os invasores exterminaram até o último de seus habitantes, os canarinos, povo original em todos os aspectos e sobre cuja existência não restam os mais remotos indícios. Depois, havia o problema da exuberante vegetação local. Era descrita como paradisíaca, mas não se podia ainda, naquele tempo, vender essa impressão. Os espanhóis decidiram plantar cana ali. Ato contínuo, queimaram toda a vegetação, também completamente original, num único e gigantesco incêndio. Diante do deserto calcinado, passaram a importar escravos negros para plantar os canaviais. E as ilhas desafortunadas readquiriram então uma população e uma paisagem. Sugar-cane fields forever", como Caetano crismou o paraíso colonial.
A crítica das relações espúrias entabuladas entre os colonizadores, as populações nativas e as terras ocupadas, foi instilada no Brasil por uma linhagem nobre de intelectuais, encabeçada por Euclides da Cunha, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda. Através de seus estudos se pode vislumbrar a percepção da paisagem pelo viés do colonizador. Assentados os pés na terra firme, após ter acompanhado a partida da frota para o mar alto, ele dá meia-volta e se depara com a massa verde inexpugnável à sua frente, sabendo que agora não há mais retorno. A partir daquele momento, o verde se torna a cor da ameaça. É dele que vêm os índios hostis, feras, insetos, doenças. É ele que impede a vista de localizar riquezas fáceis de explorar. É ele que ocupa o lugar destinado aos canaviais. É ele que oculta e protege a população cujo destino é servir. O alívio vem com o sinal vermelho: fogo nas matas, para abrir o horizonte até onde o olho alcance, e quando se chegar lá, fogo outra vez.
Paisagem, portanto, foi por muito tempo um conceito estreitamente ligado a uma perspectiva européia. Do ponto de vista do colonizador o que havia eram matas, feras e gente brava, devendo pois ser des-bravadas. Sua relação com o mundo natural era agressiva, brutal, sádica, não contemplativa. O louvor à majestade da selva tropical é um mito literário do Romantismo. Quando os modernistas reviveram o indianismo e lançaram a Antropofagia, as últimas florestas do estado de São Paulo ardiam e os últimos índios eram exterminados pelos mesmos patronos que financiavam os poetas e pintores. E, como diz o provérbio chinês, pela consideração que um homem tiver por uma borboleta, se pode saber o apreço que ele tem pelos seus iguais.
Virou moda e, como se sabe, muitos europeus no século 19 faziam coleções de borboletas exóticas, matando-as com fenol e espetando-as na devida posição num mostruário ricamente emoldurado. Era um modo de gostar das borboletas. Outros vinham ao Brasil e desenhavam, pintavam ou fotografavam negros. Daí que, o que se vê retratado na notável coleção de imagens, reunida pelos esforços dos professores Kossoy e Tucci Carneiro, não é a instituição da escravidão, mórbida e crucial dentre todas no processo colonizador, mas a exterioridade do negro escravizado, três vezes estranha ao olhar europeu: por estar fora de seu contexto étnico, por estar fora de seu contexto cultural e por estar fora da condição humana. Nesse sentido também as imagens são um pouco como as ilustrações de Gustave Doré para o poema de Dante, permitem matar a curiosidade sobre como é o inferno, sem ter que sentir o fogo na própria carne. Dizia-se que não há pecado ao sul do Equador, lá então toda barbárie será perdoada e nada do que se viu será cobrado no Juízo. Um mundo onde definitivamente a imagem se libertou da ética e se pôs a voar como uma borboleta rara.
O belo livro do professor Lévi-Strauss é de um gabarito completamente diferente. Ele não apresenta espécies nem ícones topológicos. Não é uma coleção de imagens para comprazer o olhar curioso ou compor uma catalogação. São fotos íntimas, que ele tirou para si mesmo, de pessoas, não categorias, com quem ele conviveu, que ele de algum modo conheceu e com quem trocou manifestações de reconhecimento e afeto. Ele próprio lamenta que essas imagens já não lhe possam resgatar suficientemente as gentes, as circunstâncias e emoções concretas vividas em conjunto. Daí o título do livro. Aliás, há mais no título do que só isso. Essas saudades são do Brasil que ele conheceu, por certo, mas também de um Brasil que ninguém conhece, que desapareceu para sempre sem quase deixar rastros e que as fotos do professor Lévi-Strauss evocam com o desamparo de imagens incapazes de surtir eco.
Duas imagens em especial, entre tantas sensíveis, me tocaram fundo. Em Pirapora do Bom Jesus, numa festa religiosa, ele flagra uma linda menina negra vestida de anjo, com túnica branca, um diadema com uma estrela na testa e longas asas emplumadas, vagueando distraída pela feira anexa. O detalhe interessante que certamente não lhe escapou: todos ao redor olham para o fotógrafo, não para o modelo. Acostumados a conviver com anjos, é o etnólogo francês que lhes causa espanto. Outra, na capa, o jovem nambiquara, sorrindo das atenções do fotógrafo, na sóbria elegância da pena que lhe atravessa o septo nasal, brincos de madrepérola e o labrete de vareta de bambu que lhe sobe acima da cabeça, como um chifre longo e fino. Tal como um sublime unicórnio em seu jardim.