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Heloisa Pontes - 24 - Março de 1997
Domingo na cidade
Foto do(a) autor(a) Heloisa Pontes

Domingo na cidade

 

HELOÍSA PONTES

símbolo de São Paulo, a avenida Paulista sintetiza a vertigem da cidade moderna, fragmentada, impessoal, a um só tempo assustadora e fascinante. Não por acaso "Na Metrópole" traz, em sua capa, uma bela foto dessa avenida, tirada do alto de um de seus edifícios monumentais, por Maria Beatriz Coelho. O olhar da fotógrafa capta uma cena corriqueira: o fluxo ininterrupto de pedestres, automóveis e ônibus. A verticalidade dos edifícios é sobreposta à horizontalidade do movimento. E convida o leitor a olhar a cidade com novas lentes, menos condicionadas pela rotina do cotidiano. De início, graças ao tratamento "desglamourizado" da foto, em branco e preto acinzentado, capaz de compassar o ritmo frenético da metrópole; em seguida, graças à leitura dos nove ensaios que integram a coletânea.
Fruto das pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Antropologia Urbana da USP, os ensaios cobrem uma ampla variedade de objetos: os programas de paulistanos de classe média, as torcidas organizadas de futebol, os circuitos de cinema e seus públicos, os neodândis de finais dos anos 80, as redes de sociabilidade dos migrantes nordestinos, o candomblé e suas festas exuberantes. A multiplicidade de assuntos não é aleatória. Articula-se em torno dos temas da sociabilidade, das práticas culturais e do lazer no contexto urbano, metropolitano.
No ensaio introdutório, Magnani procura contextualizar as pesquisas que elegem a cidade como campo de investigação, inserindo-as na história da antropologia em geral, e brasileira em particular. Se essa disciplina se define pela maneira de analisar o "outro", é porque podemos, no dizer de Merleau-Ponty, "aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros, e como se fosse nosso o que é estrangeiro".
Trata-se de usar o distanciamento como recurso metodológico para conseguir, na expressão de Roberto da Matta, "transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico". Tal é o partido analítico tomado pelos autores no decorrer de suas pesquisas. Detendo-se nos espaços inusitados de sociabilidade e lazer produzidos por diversos grupos sociais, oferecem uma visão renovada da cidade de São Paulo e de sua diversidade cultural.
Lilian Torres nos conduz ao bairro do Bexiga e à esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação. Locais de trabalho durante o dia, transformam-se, à noite, em pontos privilegiados de lazer. Longe de serem homogêneos, esses espaços funcionam como suporte para as múltiplas significações culturais que seus ocupantes (imigrantes, intelectuais, estudantes, artistas em geral, profissionais liberais etc.) vêm produzindo ao longo do tempo.
Enquanto Lilian procura mostrar que a diversidade cultural, interna ao meio urbano, possui uma ordem fundada na heterogeneidade de padrões, Heloisa Buarque de Almeida abre a "janela para o mundo". No caso, a dos circuitos cinematográficos de São Paulo. Após traçar a história do desenvolvimento do mercado de cinema na cidade, analisa seus distintos públicos, suas representações sobre as salas exibidoras, seus comportamentos ritualizados, antes, durante e depois das projeções dos filmes.
Marinês Calil apresenta uma etnografia da Nation Disco Club, interessante casa noturna de São Paulo, nos idos anos 80. Se a proximidade da autora com seu objeto de pesquisa impede uma análise mais circunstanciada do material etnográfico recolhido, em compensação permite entender, pelo avesso, como se produziu aqui uma juventude "neodândi". Seguindo os cânones do "bom gosto" das metrópoles mundiais, usando códigos para iniciados, partilhando citações literárias, musicais e da moda, os "clubbers" se viam, sobretudo, como formadores de opinião em matéria de comportamento.
Deixando de lado os bairros de classe média ou de elite, Rosani Rigamonte se volta para um outro pedaço de São Paulo, o dos migrantes nordestinos. Se a "tribo" é outra, outros também são seus locais de sociabilidade e lazer: a animação das danças nos forrós, a praça Sílvio Romero no bairro do Tatuapé, o Centro de Tradições Nordestinas no bairro do Limão.
A São Paulo dos múltiplos grupos sociais com seus respectivos "pedaços" e "manchas" de lazer é também a cidade das torcidas de futebol. Paixão nacional que, na etnografia de Luiz Henrique de Toledo, se apresenta sob a forma de verdadeiros exércitos de torcedores. A análise dos comportamentos ritualizados das torcidas organizadas em dias de jogos, dos espetáculos de celebração e confronto promovidos nos estádios, da apropriação privada dos espaços públicos antes e depois das partidas -tais são alguns dos pontos altos do ensaio.
Enquanto o lazer e a violência aparecem como dimensões constitutivas do universo do futebol, a festa é inseparável da experiência religiosa. Se não de todas, ao menos do candomblé, como demonstra Rita de Cássia Amaral. Fazendo etnografia densa e análise fina, a autora revela a centralidade da festa na visão de mundo dessa religião e na produção de um estilo de vida próprio de seus praticantes. Wagner Gonçalves da Silva, por sua vez, mostra que a multiplicação dos terreiros paulistas imprimiu novos significados ao espaço urbano. Ao conquistar a cidade, o candomblé se apoderou das representações feitas sobre ela e sacralizou suas esquinas, ruas, cemitérios e encruzilhadas.
Nessa altura, o leitor deve estar se perguntando: por que esses objetos, e não outros, que também se encontram na cidade -como os movimentos sociais, por exemplo, produtores de espaços próprios de lazer e de redes intrincadas de sociabilidade? Qual a lógica subjacente à diversidade cultural experimentada na metrópole? Essas e várias outras perguntas são respondidas por Maria Lúcia Montes em seu excelente posfácio. Refletindo sobre a dinâmica cultural típica das grandes metrópoles, a autora destrincha as lógicas -do "pedaço" e da vida social ampliada- que organizam o espaço urbano. Tece ainda a trama analítica necessária para que a antropologia ouse visadas mais amplas: construir uma antropologia da cidade. 

Heloisa Pontes é professora de antropologia da Unicamp.
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