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Lorenzo Mammi - 51 - Junho de 1999
Dois olhares profanos
Foto do(a) autor(a) Lorenzo Mammi

Dois olhares profanos

 


São editados no Brasil livros de história da arte da Pelican que marcaram os anos 60

LORENZO MAMMÌ

Na década de 60, a Pelican History of Art foi um marco na editoria de livros de arte. Atendia a um novo tipo de público e contribuía para criá-lo. A arte estava se tornando (ou voltava a ser) um fenômeno de massa, depois da época gloriosa, mas muito seletiva, do formalismo e das vanguardas. John Kennedy patrocinava com alarde a vinda da "Mona Lisa" para os EUA. Andy Warhol e Robert Rauschenberg gozavam do estatuto de verdadeiras estrelas, aproveitando a brecha aberta por Jackson Pollock, primeiro artista americano a se tornar, ainda que postumamente, um objeto de culto. É a época do livro ilustrado, do slide, do cartão postal, que põe à disposição do público grande quantidade de imagens de arte, graças a um bombardeio parecido com o da publicidade.

Livros austeros
Nesse quadro, os livros da Pelican não se ofereciam como objetos particularmente sedutores: ao contrário, eram bastante austeros, com suas capas severas, cor de tijolo, e os textos ilustrados por grandes pranchas em branco e preto. Mas eram consequência do mesmo processo, na medida em que se propunham organizar e tornar compreensível essa enorme massa de informações que de repente se tornara disponível. Não era literatura de divulgação, nem propriamente científica, mas uma espécie de termo médio: textos sólidos, completos, baseados na confiança tipicamente anglo-saxônica na empiria do fato demonstrável. Algo como um chão firme, sobre o qual se apoiar para aprofundamentos ulteriores. Trinta anos depois, a Yale University reedita a série, com texto ampliado e novas ilustrações, e a Cosac & Naify a publica no Brasil. Sinal que os princípios básicos da coleção são válidos ainda hoje e que, ainda hoje, esses livros "funcionam".
O ponto forte da coleção é a capacidade de estabelecer relações convincentes entre grandes personalidades e figuras menores e de traçar, por essa via, o perfil dos estilos enquanto patrimônio visual coletivo. São vários os caminhos pelos quais uma cultura artística pode ser entendida. No volume sobre a pintura holandesa, não é anedótico informar que Jan Steen era dono de uma cervejaria; que Van Goyen comerciava bulbos de tulipa; que Hobbema quase abandonou a pintura, quando nomeado provador de vinho da aduana de Amsterdã; e assim por diante.
Da mesma forma, no volume sobre a arte francesa no século 18, não são inúteis as informações sobre os percursos tortuosos dos artistas, entre concursos na Academia, encomendas do Estado, salões, bolsas de estudos. É por essas vias que é possível entender, no primeiro caso, o olhar totalmente desprovido de sacralidade pelo qual os holandeses do Século de Ouro encaravam sua própria arte, uma atividade como qualquer outra; e, no segundo caso, é possível reconhecer a vocação pública da arte francesa do século 18, que é um exercício oratório altamente elaborado, mesmo quando se pretende coloquial.

Franceses e holandeses
Com efeito, se abordadas do ponto de vista do sistema de produção, os artistas holandeses dos séculos 17 e 18 parecem se colocar no pólo oposto ao dos franceses do mesmo período. No entanto, lendo os volumes da Pelican cuidados por Seymour Slive e Michael Levey, descobre-se uma rede densa de ligações, como se, num determinado momento da história, tivesse havido uma passagem de tocha entre uma cultura e outra. O caráter burguês e profano da arte, que na Holanda brotava naturalmente de um sistema de guildas artesãs, na França se torna objetivo político, buscado teoricamente pelos filósofos iluministas e realizado na prática pelos primeiros salões, pelas primeiras críticas nas gazetas, pelos primeiros projetos de museu público.
Talvez o momento exato dessa transição possa ser situado em 1713, quando a Paz de Utrecht encerrou a Guerra de Sucessão Espanhola. A partir desse momento, a Holanda ficaria confinada a um papel secundário na política e na economia européia, enquanto França e Inglaterra assumiriam definitivamente as rédeas do continente. E, na França e na Inglaterra, justamente, começa a se cristalizar uma arte burguesa com características modernas, a partir de exemplos holandeses e flamengos e em oposição aos estilos, clássico ou barroco, dos italianos. Não é, naturalmente, um processo linear, nem unívoco: na formação do neoclassicismo revolucionário francês, Roma pesou mais do que Amsterdã. Mas estamos, nesse caso, no ponto terminal de um processo, que começa, bem no início do século, com a moda francesa e inglesa do rubenismo e do rembrandtismo, contra o classicismo "grand siècle" inspirado em Poussin. O neoclassicismo, nesse sentido, não foi uma volta a Poussin, mas a negação de uma negação, que é sempre síntese.
No século 18, Watteau e Chardin foram os que melhor entenderam a pintura holandesa, assim como Reynolds e Gainsbourough, na Inglaterra, foram os que melhor entenderam os flamengos. No entanto, a grande densidade da pintura holandesa do século 17 -a de Rembrandt, Hals, Ruisdael, Vermeer- não é reproduzida senão raramente. Watteau e Chardin (ou até Fragonard) traduzem, de fato, essa grande tradição, mas também a colocam num outro plano. Seymour Slive mostra como a maioria dos quadros holandeses que nos parecem meramente descritivos tinham, na verdade, um segundo significado: as naturezas mortas eram "vanitas", reflexão sobre o perecimento dos prazeres terrenos; as cenas de taverna eram, em muitos casos, variações sobre o tema do filho pródigo; e as tempestades eram metáforas sobre a precariedade da vida. O público da época reconhecia facilmente o subtexto da imagem, mas seria muito ingênuo supor que se limitasse ao significado simbólico, e não atribuísse valor à visão sensualmente prazerosa de frutas tão saborosas, beberrões tão divertidos, ondas tão espetaculares.

Significado ético
Nessa tensão entre o valor atribuído à evidência sensual e a consciência de um imperativo moral que se sobrepõe aos sentidos, a pintura holandesa construiu sua grandeza. Mesmo quando a leitura metafórica é difícil ou impossível (Slive lembra, com muito bom senso, que às vezes um charuto é apenas um charuto), o significado ético está à vista. As árvores e os moinhos de Ruisdael possuem vontade própria: são heróis, não adereços da paisagem; erguem-se, não são postos. Na famosa "Vista de Haarlem", do mesmo pintor, a catedral compacta confere um sentido à paisagem achatada e ao mesmo tempo desafia o céu enorme, que ocupa dois terços da tela. Nunca, talvez, foi tão bem ilustrada a idéia de Heidegger segundo a qual um templo é uma construção que funda um mundo e ao mesmo tempo o reconduz a sua matriz primitiva, à Terra.


Pintura Holandesa - 1600-1800
Seymour Slive Tradução: Miguel Lana e Octacílio Nunes 379 págs., R$ 84,00 

Pintura e Escultura na França - 1700-1789
Michael Levey Tradução: Cid Knipel Moreira 318 págs., R$ 92,00



Quanto a Rembrandt, nem precisaria de análise iconográfica: a luta entre o bem e o mal já é evidente no claro-escuro, no esforço das coisas em se manter à luz e escapar da sombra. A luz, para Rembrandt, não é algo que despenca impiedoso sobre os corpos e os desvela, segundo escolhas que só a Providência entende, como em Caravaggio -é uma conquista individual, precária e incerta, que demanda tensão e atenção contínuas. Na Holanda do Século de Ouro, todas as atividades possuem um conteúdo ético, todas contribuem para o caminho do homem rumo à salvação. A pintura não é diferente das outras, a não ser nisso: nela, o conteúdo ético se torna auto-evidente, reflexivo. O lugar em que essa reflexão se revela com maior intensidade é o auto-retrato. Rembrandt pintou seu rosto inúmeras vezes: uma vez, quando jovem, nas vestes do filho pródigo; uma outra, já velho, como Zêuxis, o pintor que literalmente morreu de rir ao pintar uma velha. Entre esses dois pólos, a sequência dos auto-retratos de Rembrandt formam uma das autobiografias mais lancinantes que já tenham sido escritas.

Sexo verbalizado
Transferida para o ambiente francês, a questão, de ética, se torna moral: o que está em jogo já não é a Graça, mas os costumes; não o Bem e o Mal, mas o comportamento social. A ordem que organiza os quartos de Vermeer é uma ordem cósmica, e a luz que banha suas figuras é a luz da Razão; a ordem dos quartos de Chardin é uma ordem doméstica, e sua luz é a luz da Civilização -ninguém como Chardin, aliás, soube dar à palavra "civilização" um significado tão íntimo e convincente. As grandes árvores de Watteau não são heróis, mas caracteres. As personagens que povoam seus quadros, diferentemente das figuras holandesas, não sentem a sensualidade como risco. Estão bem acomodadas em seus corpos elegantes, ainda que uma certa melancolia testemunhe uma interioridade complexa. Não obedecem a um imperativo moral, mas aceitam um conselho: "Sigam suas naturezas".
À medida que avança no século, a arte francesa perde toda escuridão. O corpo se torna discurso; tudo, até o sexo, é verbalizado. A consequência mais evidente é um ar de excitação erótica difusa: qual outra época representaria uma rainha com o decote aberto e a "lingerie" à vista, como fez Lecomte com Maria Antonieta? E em qual outro país poderia se colocar, como fez Mignot, uma bacante adormecida sobre um colchão moderno, retirando assim de sua nudez toda defesa mitológica e clássica?
A "pruderie" erótica e a transparência do desejo chegam ao limite na pintura uniformemente luminosa, até nas sombras, de Boucher e Fragonard. As peles são tão diáfanas que impossibilitam qualquer expressão; os bosques, tão acolhedores que nos repelem. Ninguém gostaria de viver em tão permanente alegria; falta uma sombra borrada à Watteau, para se apartar um momento da festa. O caminho está aberto para a escuridão profunda de Jacques-Louis David: escuridão dramática, por certo, mas ela também discursiva, oratória, totalmente civilizada.

 


Lorenzo Mammì é crítico de arte e professor na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Lorenzo Mammi é professor do departamento de filosofia da USP.
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