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Augusto Massi - 41 - Agosto de 1998
Dois historiadores românticos
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Dois historiadores românticos

AUGUSTO MASSI

O crescente interesse por reedições de obras raras ou inéditas talvez aponte para um amadurecimento da pesquisa universitária e para a revalorização das fontes históricas. Dentro desse quadro, a poesia brasileira tem sido objeto de uma série de iniciativas que merecem ser citadas.
Durante as últimas décadas as discussões em torno do barroco ou do modernismo enriqueceram, mas também monopolizaram o debate literário. Recentemente outros períodos começaram a ser reavaliados, caso, por exemplo, do arcadismo, que passa atualmente por um bom momento, seja pelas edições críticas -"A Poesia dos Inconfidentes" (Nova Aguilar), organização de Domício Proença, "Obras Poéticas de Basílio da Gama" (Edusp), organizado por Ivan Teixeira, "Cartas Chilenas" (Cia. das Letras), por Joacy Furtado-, seja pelos ensaios -"Arcádia: Tradição e Ruptura" (Edusp), de Jorge Ruedas, ou "Letras de Minas e Outros Ensaios" (Edusp), de Hélio Lopes.
O mesmo processo parece estar ocorrendo, em menor escala, com o romantismo e o simbolismo. Graças ao trabalho crítico e editorial do poeta Alexei Bueno, responsável por inúmeras edições e antologias, a Editora Nova Aguilar republicou, entre outras, as obras de Castro Alves, Gonçalves Dias e Cruz e Souza. Isso sem falar nos dois estudos publicados pela Edusp, "Riso Entre Pares: Poesia e Humor Românticos", de Vagner Camilo, e "O Belo e o Disforme: Álvares de Azevedo e a Ironia Romântica", de Cilaine Alves.
Apesar de toda essa movimentação editorial, no âmbito da historiografia, a poesia brasileira ainda se ressente de uma história e de publicações especializadas. Diante da ausência quase absoluta deste tipo de produção, é fundamental chamar a atenção para dois lançamentos que timidamente buscam preencher esta lacuna.


AS OBRAS

Bosquejo da História da Poesia Brasileira
Joaquim Norberto
Edição, apresentação e notas: José Américo Miranda
Universidade Federal de Minas Gerais (Tel. 031/499-4650)
80 págs., R$ 12,00

A Poesia no Brasil
Juan Valera
Tradução e introdução: Maria de la Concepción Piñero Valverde
La Factoria de Ediciones
102 págs.
Onde encontrar: Departamento de Letras Modernas da USP (Tel. 011/8184296)



O primeiro deles é a oportuna reedição do "Bosquejo Histórico da Poesia Brasileira", de Joaquim Norberto, publicado originalmente em 1840. Trata-se da primeira tentativa de periodização da nossa história literária. Se a importância do autor enquanto crítico é relativa -segundo Antonio Candido-, do ponto de vista historiográfico, é figura exemplar: "Sem grande talento, de cultura mediana e gosto limitado, era todavia aberto de espírito, consciencioso, dotado de boa intuição histórica e certo faro, além de espantosa capacidade de trabalho (...). Pode-se afirmar, serenamente, que ninguém mais do que ele mereceu tanto na construção da nossa história literária" ("Formação da Literatura Brasileira"). Entre outras coisas, reuniu pela primeira vez as obras de Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga, além de reeditar, com longas introduções e comentários, as poesias de Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa.
A criteriosa reedição preparada pelo poeta e professor José Américo Miranda só fica nos devendo (talvez numa segunda edição) a inclusão de textos afins -por exemplo, a introdução redigida para a antologia "Mosaico Poético" e a "Introdução Histórica Sobre a Literatura Brasileira". Além de ampliar o alcance do trabalho, forneceria mais elementos para uma avaliação adequada das idéias de Joaquim Norberto.
O segundo lançamento é uma edição bilíngue do ensaio "A Poesia do Brasil", escrito pelo romancista e crítico espanhol Juan Valera (1824-1905). Na introdução da professora María de la Concepción Piñero Valverde ficamos sabendo da atividade diplomática do escritor, entre 1851 e 1853, no Rio de Janeiro. Ao contrário de Joaquim Norbeto, que nos fala de dentro, traído pelo olhar cúmplice e ativo de quem militou a favor da "reforma da poesia brasileira" levada a cabo pelos românticos, Juan Valera oferece uma visão mais distanciada e destituída de arrebatamentos nacionalistas, mas, nem por isso, menos aguda e simpática à autonomia da literatura brasileira.
Apesar da diferença de estilo e dos 15 anos que os separam, os dois textos evidenciam a reviravolta introduzida pelos argumentos românticos, quando natureza e raça passam a ser questões decisivas para a formação de uma literatura nacional. Pesa sobre ambos a influência de "Scènes de la Nature Sous les Tropiques et de Leur Influence Sur la Poésie" (1824) e do "Resumé de l'Histoire Littéraire du Brésil" (1826), de Ferdinand Denis. Se isoladamente estes ensaios já constituíam peças de importância, lidos em conjunto, ganham maior interesse.

 


Augusto Massi é professor de literatura brasileira na USP.

Augusto Massi é poeta e professor de literatura brasileira na USP.
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