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Luiz Munari - 27 - Junho de 1997
Do impressionismo ao surrealismo
Foto do(a) autor(a) Luiz Munari

Do impressionismo ao surrealismo

 

LUIZ MUNARI

este livro faz um relato histórico e crítico das artes plásticas, que vai do impressionismo ao surrealismo, em uma avaliação bem-fundada nas várias interpretações de teóricos consagrados. É um texto polêmico e, por isso mesmo, instigante, que poderá gerar controvérsias. No entanto, para opinar/discordar, o leitor deverá estar bem familiarizado com a arte do período, pois a exposição é cerrada e cuidadosa, navegando com desenvoltura nas turbulências do início do século.
Logo de início, Menezes admoesta para as armadilhas que o leitor encontrará ao longo do trabalho: "O século 20 constitui um grande desafio para a compreensão daquilo que se designa arte" e, desta forma, a sucessão de diferentes escolas no período torna-se um "fato que costuma desorientar o observador incauto".
Seu objetivo é: "identificar os elementos, que fazem dessa modernidade nas artes plásticas algo completamente diferente de tudo que existiu até agora" e, para isso, estabelece dois modos de abordagem, que denomina de análise externa e interna dos fenômenos artísticos. Na primeira, parte das obras, vendo-as em conjunto, inseridas em suas escolas. Noutra, vê as obras como imagens, como produtos artísticos individuais, portadores de sentido.
Ciente do texto que vai urdir, adverte em trama com Foucault: "A relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita (...), são irredutíveis uma a outra". Norma que permeia o texto, mas não impede a navegação.
Na primeira parte, "Século 19: Espaço e Representação", empreende uma narração do impressionismo, partindo do pressuposto de que o grupo se unia em torno dos problemas de luz e cor, embora o caminho de cada um fosse bastante diferenciado. Ao estabelecer as peculiaridades dos pintores do período, afirma que, em Monet, o tempo surge como "um elemento significante da conformação espacial", enquanto que, em Cézanne, detecta que há uma busca da percepção visual e não da composição da tela.
Segundo Menezes, a produção de Cézanne dos anos 70 e 80 mostra seu "esforço em transformar tudo em cilindros, esferas e cones", concluindo haver um compromisso do pintor somente com a percepção. Neste ponto concorda com Berger, e afirma que a "abordagem de Cézanne era mais psicológica, pois tentava prolongar o (...) momento (...) no qual a percepção ainda não está conformada pelas regras organizadoras da representação".
Quanto à contribuição dos impressionistas, não deixa de exaltar Monet, pois, entre todos, é o que escolhe como o pintor cujas telas "são as que mais questões vão colocar para a pintura que irá surgir no início do século 20". E complementa: "Sua pintura é a expressão última do realismo da ilusão e, ao mesmo tempo, sua negação mais completa".
A segunda parte, "A Era dos Manifestos", é dedicada à discussão e análise de conteúdo destes escritos, desde o futurismo até o surrealismo, contemplando cerca de uma vintena de textos, que o levam a concluir: "Se a tradição renascentista se transformou (...) ao longo de quatro séculos (...), a nova arte parece ter percorrido um caminho muito mais longo (...) em pouco mais de 20 anos". Ao longo do exame dos manifestos, Menezes não deixa de destacar as posições teóricas e até políticas de seus autores, porém procura ressaltar o aspecto artístico destas trincheiras tão diferenciadas.
Posteriormente, analisa esses escritos frente às obras produzidas, assinalando limites e perspectivas e avaliando a importância de cada um. Em Boccioni, por exemplo, percebe que a "nova escultura também não pode mais restringir-se no espaço, apolineamente, e não deve mais ser semelhante a nada a não ser a si mesma", o que explicita o uso de novos materiais e motivos que passarão a determinar a realidade artística.
Em Apollinaire, Menezes vê a formulação de um cubismo mais cerebral que sensual, no qual a natureza é organizada pela arte, e os artistas incumbidos de renová-la constantemente. Nos abstracionistas, como Malevich e Kandinsky, estabelece que a arte é antes de tudo um sentimento, enquanto que, em Mondrian, prevalecem "as leis que organizam as relações plásticas puras", buscando a abstração de formas e cores. Segundo o autor, o pintor holandês tenta a desmaterialização e, assim, chama sua arte de pura.
Na última parte, "Imagens", Menezes demonstra a existência da distância entre o que se escreve e o que se pinta e, logo de início, ironiza o termo "fauve" atribuído a Matisse: "Fauvismo de fato nunca existiu", argumenta; e do exame de sua obra conclui: "o espaço moderno nada mais tem a ver com o espaço da realidade exterior".
Afasta ainda qualquer similaridade entre Matisse e os artistas expressionistas de "Die Brücke", não vendo também entre estes últimos e o grupo "Der Blaue Reiter" "nenhum ponto de contato visual, a não ser, de novo, a generalidade na utilização de cores fortes". Para o autor, os "expressionistas, por sua vez, são um 'grupo' de pouca consistência visual" e, ao enveredar pelo campo de conceitos, afirma que o cubismo é outra "escola" a ser apreciada com cautela, pois a diferença existente entre a produção de Braque e Picasso e a do restante dos cubistas não permite estabelecer qualquer rigor doutrinário.
Em meio a revisões de conceitos e escolas, Menezes valoriza o ato teatral de Duchamp, que, de acordo com ele, põe tudo em questão, tornando-se o advento das transformações sofridas pela representação plástica a partir da perda de parâmetros e da busca de novas regras: "Não se têm mais regras de nenhuma espécie porque tudo passa a ser aceito, tudo passa a ser possível".
Em sua conclusão, resume suas investigações ao inferir que as transformações ocorridas no início do século 20 foram mais radicais em termos de construção e destruição do que os séculos anteriores imediatos: "Fez-se em 20 anos muito mais do que em quatro séculos", e atribui maior peso ao ato de Duchamp, de enviar a uma exposição a obra a "Fonte" (vaso sanitário), o que teria catarticamente marcado um novo capítulo, ou seja, "a entrada em uma nova época, a nossa modernidade visual".
Desta forma, a obra e seus meios de produção não estariam mais em jogo, dando lugar ao próprio ato -uma intromissão do tempo no domínio do espaço, que subverteu os valores. A arte espacial, portanto, é colocada em questão: "Se a arte é um ato, nada mais pode definir o que é arte", o que, por consequência, está em discordância com a tese de Francastel: a instauração de um novo espaço.
De acordo com Menezes, novos espaços são propostos, mas todos são dissolvidos pelo múltiplo: "o que se instaura é justamente o múltiplo", capaz ainda de pôr em xeque a questão da relação entre arte e mercadoria. Neste novo momento, conclui o autor: "a arte volta a lutar contra valores ultrapassados", não obstante a intromissão de atos; pois "sua briga é no espaço, no campo do pensamento visual". 

Luiz Munari é professor de história da arte na FAU-USP.
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