

Diário de don Ruy
Caderno de campo ficou inédito 50 anos
Dias em Trujilo - Um Antropólogo Brasileiro em Honduras
Ruy Coelho
Perspectiva/Sociedade Científica de Estudos de Arte
(Tel.0/xx/11/3885-8388)
270 págs., R$ 28,00
LILIA MORITZ SCHWARCZ
Diários de campo sempre deram o que falar. Para além da anotação cotidiana e metódica, do ato de lembrar o dia que passa rápido e de forma repetida, esses objetos de uso pessoal acabaram, por vezes, ganhando divulgação, quando não causaram polêmica.
Emblemática nesse sentido é a publicação póstuma, e sem autorização prévia, do diário de Malinowski: "Um Diário no Sentido Estrito do Termo" (ed. Record). O estrago é conhecido e quase trincou a imagem desse etnógrafo, romântico em sua prática de "observador participante". Nas páginas de seu caderno, Malinowski surgia ranzinza, queixando-se da falta de privacidade, da pouca higiene e dos maus hábitos de "seus nativos".
É famoso, também, o relato de Claude Lévi-Strauss, em "Tristes Trópicos" (Cia. das Letras). É certo que nesse caso não se percebe de maneira imediata a sucessão dos meses ou o registro das atividades de quem vai e fica no campo. Mesmo assim, no testemunho sensível do etnólogo francês, restam as marcas da viagem que, nas palavras do autor, "se inscrevem no espaço, no tempo e na hierarquia social".
Não é o caso de acumular exemplos, mesmo porque seriam inúmeros. Vale mais destacar a velha prática de anotar nos diários -quase convertidos em fetiche- a experiência da viagem, que translada para locais e trajetos diferentes. E é exatamente nesses dois sentidos que "Dias em Trujilo", o diário de campo deixado por Ruy Coelho, se revela exemplar; sobretudo agora que, ganhando o formato de livro, lembra mais a publicação de um clássico do que de um texto até então inédito.
Diferente de seus colegas de geração, que nos anos 40 se empenhavam em realizar grandes ensaios sobre o próprio país, Ruy Coelho, após ter terminado sua formação na USP, acaba seguindo um padrão de carreira distinto. Parte para os EUA, em 1945, e, sob orientação de Melville Herskovits, seleciona Honduras para realizar sua pesquisa sobre os caraíbas negros.
Dessa viagem, o diário -originalmente escrito em inglês- é testemunho fiel e retrata o cotidiano de Ruy Coelho -o don Ruy- entre outubro de 1947 e julho de 1948. A leitura é cativante e convida a ficar, como quem entra em casa alheia ou rouba a experiência de um sujeito mais distraído. Afinal, essas páginas não foram escritas para serem publicadas. Ao contrário, respondem a uma demanda acadêmica da Northwestern University, que exigia um relatório diário sobre o andamento da etnografia; texto esse que seria a base para a tese de doutorado, publicada no Brasil em 1964.
Mas engana-se aquele que pensa que Ruy Coelho cumpre a tarefa de forma burocrática e que seu caderno de campo é somente uma anotação breve para a realização de uma tarefa futura. Na verdade, o registro representa uma busca de encontrar e fazer sentido; uma tentativa de procurar familiaridade e evitar o exótico, diante de uma cultura distante.
A pesquisa foi basicamente realizada em Trujilo, local onde Ruy Coelho monta sua casa e encontra seus informantes diletos: o esperto Sebastian, a cordial cozinheira Maria, o feiticeiro Siti, ou a coquete Lídia, que faz uma série de manobras diante do jovem pesquisador, que na época contava com 26 anos.
Os informantes
Os problemas -que são a grife dos pós-modernos atuais- aparecem já nesse momento, quando o etnógrafo discute sua relação com os informantes: "O trabalho antropológico surge como ondas; às vezes ele te engole e às vezes há um longo e árido intervalo". E ainda: "Estou percebendo uma crescente resistência de todos os informantes ... Eles falam com entusiasmo sobre os "guibida" ... Mas se ressentem de perguntas pessoais ... ainda que eu tenha o cuidado de colocar essas questões com um tom indiferente, no meio de assuntos banais".
Quem leva quem, quem dirige quem, aí está um tipo de situação que perturba o antropólogo quando, por exemplo, entre envaidecido e ludibriado, percebe as estratégias de Lídia, que o consulta sobre temas sexuais: "Questões que não se fazem a um irmão, um padre, ou um juiz do tribunal de penitência". Mas o incômodo não é levado em frente, já que é mais fácil, para o professor, resolver a questão com uma explicação lógica: "Estabelecem-se relações amistosas entre homens e mulheres, especialmente quando são jovens".
Deixemos como está, mesmo porque Lídia acaba sendo descrita como "uma namoradeira, uma "heart breaker" (quebra-corações) ou uma segunda madame Pompadour".
São, porém, as investigações teóricas sobre cultura e personalidade que parecem chamar atenção. Longe de uma noção congelada e ontológica, o antropólogo procura pela complexidade que unifica qualquer cultura: "Quero saber sobre a variação nos costumes, como pessoas diferentes têm concepções diferentes, o grau de variabilidade, a existência ou não de uma estrutura de conhecimento". Nas adivinhações; nas representações sobre os gêmeos -sinal de sorte e de perigo-; no culto aos mortos, "quando se seguia tudo rindo e brincando"; nas relações entre homens e mulheres, que tornam problemático o conceito de "ilegitimidade"; na maneira integrada como o sobrenatural é entendido; na concepção breve de tempo -que não sobrevive à lembrança de uma geração-, não são poucos os momentos em que don Ruy se permite desabafar ou reconhece seu "apego aos valores da própria cultura". No entanto, é justamente por meio dessas "ambivalências sociais", nas palavras ressignificadas, nos termos atualizados, que a cultura surge como um todo, relida tal qual um padrão.
Nem sempre é a curiosidade científica que dá o tom à narrativa. Todo antropólogo tem seu dia de frustração e em vários momentos o mestre demonstra cansaço diante das caminhadas de 20 quilômetros ou mais, com botas encharcadas (e que nem por isso impedem as mordidas de caranguejo); as gripes que vão e vêm, o medo da malária; a tenacidade da chuva tropical; o difícil cálculo de preços em lempira, a moeda local, e o abatimento que recai sobre quem se sente enganado ou, simplesmente, admite não entender e não fazer parte do grupo. Nesses momentos, o texto revela uma imensa humanidade e permite acompanhar de perto e viajar ao lado.
O diário termina com o retorno. Ruy Coelho passa seus últimos dias empacotando e ressentindo-se de um certo esgotamento: "Talvez seja a fadiga acumulada ou uma reação a toda viagem de campo". Talvez seja mais. Como diz o antropólogo, identificado com a cultura que estudou, essa pode ter sido "a crônica dos últimos dias de Trujilo", de uma cultura que se refaz e desfaz. Ou ainda a descoberta de que a teoria não explica tudo.
Estudar o fenômeno da aculturação e das sínteses culturais em um povo afastado podia fazer sentido no ambiente intelectual norte-americano, que sempre entendeu a prática antropológica como um exercício espacialmente distanciado. No Brasil, porém, os estudos comparativos não estavam em voga e tal fato quem sabe explique o esquecimento que pairou sobre esse documento, mantido graças à uma frágil cópia em papel carbono.
Sorte nossa que nos tempos de hoje o próprio diário tenha se transformado em texto e pretexto... Com ele é possível adentrar a lógica da cultura, "ter uma compreensão das suas normas ideais", ou notar, como diz um informante, que "as coisas que se vêem são de tal natureza que não se pode falar sobre elas". Melhor ficar com o conselho inicial de Ruy Coelho: "Não há desculpa para não se explorar profundamente uma cultura". Isso tudo, tendo certeza de que a viagem rumo ao outro implica sempre em um retorno a si mesmo.
Lilia Moritz Schwarcz é professora de antropologia na USP e autora, entre outros livros, de "As Barbas do Imperador - Dom Pedro 2º, um Monarca nos Trópicos" (Cia. das Letras).