


Uma das qualidades dos romances de Daniel Galera é a equilibrada mistura entre introspecção e ação. Neles o enredo tem papel efetivo de elemento estruturador do todo. Por outro lado, seus protagonistas (e não só eles) sempre vivem uma espécie de autocentramento descontente ou, dizendo de outra maneira, são figuras que tendem a se isolar, mas não estão confortáveis com isso e refletem sobre o problema. Por isso mesmo, não encarnam algum tipo de individualismo radical e abrem espaço para o questionamento do estatuto de sua solidão, do que deriva uma ação no mundo que, por usa vez, alimenta o enredo. É dessa maneira que as duas pontas – ação e introspecção, enredo e reflexão – dependem uma da outra, completam-se e se equilibram.
Esse equilíbrio é servido por recursos estilísticos específicos. Vejamos dois deles. Um é a notação realista, precisa e detalhada, que atravessa todos os quatro romances do autor. O leitor é informado de virtualmente tudo: a música que se ouve, o nome das ruas da cidade percorridas e dos lugares frequentados e até mesmo a marca dos produtos usados pelos personagens. Referências minudentes ao universo da cultura de massas que atravessa a vida contemporânea elevam-se mesmo a elementos centrais da ação.
O outro está num plano ainda mais miúdo, do manejo das palavras – uma linguagem cuidadosamente elaborada dentro da língua viva de nossos dias. É difícil pensar num escritor capaz de explorar os limites da língua escrita como Galera, que chega a tornar orgânicos certos usos incomuns nela, embora comuns na fala, como o pronome reto em posição de objeto, e surgindo até mesmo na voz narrativa em terceira pessoa sem soar arbitrário, como em “Dá seu passeio na praia com a cachorra e assiste ela entrar na água sozinha”.
Esses recursos são mais uma vez mobilizados em seu último romance, Barba ensopada de sangue, cuja trama se desenvolve entre um prólogo curto e um tenso diálogo final. Essa armação geral sugere uma espécie de fatalismo. Afinal, no prólogo, o que vemos é um sobrinho do protagonista que começa a envolvê-lo numa aura de mistério – exatamente o estopim da história que vamos ler. Já no diálogo final, o que desponta é a crença desse mesmo protagonista no destino como algo inevitável a dirigir nossas vidas.
Na contramão
Essa impressão se confirma porque no livro todo se fazem presentes forças não racionais, sejam elas indiretamente sugeridas pela evocação constante da natureza, mar e mato a sugerir uma influência que se mantém ativa independentemente do grau de “civilização” dos personagens, sejam elas ações inexplicáveis. Afinal, o protagonista prevê de fato o fim de um amor do passado, chegando a registrar tudo por escrito e com antecedência. E a mãe de uma outra de suas namoradas tem sonhos com ele, todos cheios de previsões – e ele, na última vez que o vemos conversar com ela, descreve, antes de ouvir, o desfecho do sonho. Parece que não apenas tudo está escrito, como é legível.
Mas esse é apenas um movimento do enredo. Na contramão há outro, que se revela na inusitada crença, expressa no diálogo final, de que a existência de um destino que nos ultrapassa paradoxalmente não nos livra das responsabilidades pelo que escolhemos fazer ou não fazer. Ou numa das pequenas tramas paralelas que envolve uma espécie de maldição do tesouro da qual Jasmim, uma namorada do protagonista, escapa, frustrando a expectativa de uma solução que paira acima das contingências. O dado sobrenatural ou místico que parecia estabelecido fica assim contrabalançado.
Nesse outro fluxo da mesma narrativa, estamos próximos do que ocorre em Cordilheira, romance anterior de Galera, que explora as relações entre o que se imagina e o que se vive. Lá tínhamos um grupo de escritores cujos livros eram uma espécie de roteiro da vida ideal que desejavam ter, numa ânsia de substituição da vida pela literatura. Aqui o que vemos é um mito pessoal que se forma a partir de uma experiência coletiva, já que se trata da história de um rapaz de 34 anos que sai de Porto Alegre e vai viver em Garopaba, onde procura encontrar os fios de uma outra história, a de seu avô, morto em circunstâncias misteriosas naquela mesma cidade de que só tivera notícia na véspera do suicídio do pai. A partir de uns poucos dados, ele cria uma história e a necessidade de verificar sua veracidade – e voltamos assim ao sobrinho que abre o romance.
Esses dois movimentos não se excluem, antes compõem uma história sem certezas. Com isso estamos num ponto muito além do que Cordilheira atingira, porque mais aberto. E isso é muito estimulante num tempo em que a vida é vista como algo insuficiente a ponto de parecer possível abrir mão do contato direto e elaborar, no escuro do quarto, uma trama mais interessante para si à revelia desse inferno que são os outros.
Exatamente porque a literatura de Daniel Galera se propõe grandes desafios e constrói aquele difícil equilíbrio, é preciso atentar para certos detalhes. Neste A barba ensopada de sangue há, aqui e ali, o uso de frases que parecem querer ser poéticas e destoam do conjunto, como a que abre o capítulo 4: “as noites frias torturam o verão com uma morte lenta”. Há também uma série de imprecisões: um castiçal que se converte em cálice sete páginas adiante; a morte do avô, que o pai diz apenas uma vez ter acontecido em 1969, mas que o protagonista, desde a primeira referência a data em 1967. Sem mencionar pequenos elementos da rede que dá corpo à notação realista mencionada acima, que fica rompida quando nos lembramos de que o facebook não era amplamente utilizado no ano em que passa a trama, 2008 (quando o orkut reinava absoluto no Brasil); ou o fato de que os personagens vão assistir a dois filmes em Florianópolis que só seriam lançados em 2009. Não se trata de cobrar exatidão documental, que esses detalhes são desimportantes em si. Mas, num autor que faz da minúcia arma expressiva, eles interferem naquele difícil equilíbrio e denunciam hesitações num autor que já conquistou muita coisa.
