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Viviana Bosi - 46 - Janeiro de 1999
Desafios da intimidade
Foto do(a) autor(a) Viviana Bosi

Desafios da intimidade

VIVIANA BOSI CONCAGH

"No verso: atenção, estás falando para mim, sou eu que estou
aqui, deste lado, como um marinheiro na ponta escura do cais.
É para você que escrevo, hipócrita.
Para você -sou eu que te seguro os ombros e grito verdades
nos ouvidos, no último momento."
"Fogo do Final", Ana Cristina Cesar

Quem é "você"? Uma paixão desesperada ou o "hypocrite lecteur"? Os trabalhos a respeito da obra de Ana Cristina Cesar destacam a pseudo-intimidade do estilo, o tom simultaneamente próximo e hermético. A porta entreaberta da confidência provoca no leitor uma sensação ambígua, se de um lado ele se sente cúmplice da correspondência, de outro, desconfia estar lendo um diário secreto dirigido a um interlocutor misterioso. Conversa entre amigos ou literatura? "A intimidade era teatro"?
Há frases que se articulam em nós como palimpsestos, trazendo à tona camadas de escrita e rasura: outras histórias, sentidos relacionados. Grande parte dos poemas de Ana Cristina Cesar operam como incompletudes fecundas que se abrem e derivam para diálogos: fragmentos sem explicação que instam o destinatário a refazer nas entrelinhas as passagens elípticas e vendadas. Permanece algo de rascunho: uma escrita que vai além do ponto, seduzindo e fracassando -com alguns momentos de foco intenso. Ruído e cacofonia rodeiam a densidade súbita. Ler sua poesia é conviver com o desconforto da imperfeição: expor-se canhestramente ao procurar uma forma esquiva.
Nesses tempos em que, tantas vezes, o jovem poeta deseja a aura do "lirismo bem-comportado", ainda que pretenda certas ousadias no conteúdo -contanto que a coroa de artista não caia na lama- e fique bem claro que seu verso tem a dicção canônica de quem conhece a tradição mais sofisticada, faz-se necessária a lufada de desequilíbrio própria do experimento. Reconhecemos o precário, a imaturidade adolescente, o inacabado de seu estilo. Nem iríamos mascarar, em nome do patos emblemático da "bela morte" e das atraentes fofocas amorosas que permeiam a sua poesia, o excesso de bricolage e, por vezes, uma certa pose de si mesma. Há "vacilos de vocação", textos mais ou menos felizes, que fazem parte de um movimento de "desejo e ironia" desconcertante: o desnível entre impulso e técnica, carta e literatura, afina e desafina o texto.
Mas, melhor o lado desajeitado de quem prefere falhar ao exprimir o vislumbre da fresta: "Coisa ínfima, quero ficar perto de ti".
O seu grau de auto-exposição vai além da confissão terapêutica epidérmica, atingindo uma nudez essencial, despojada ao grau da despersonalização, diversa do egozinho coloquial-copacabânico dos anos 70. Esses saltos figurados em alguns versos de coragem poética incomum nos transportam para além das certezas sobre o que é "boa poesia" -quedas fatais.
A "forma sem norma", de um lado, aparenta certa "displicência estudada" provocante e, de outro, alinha-se à paixão exigente pela melhor literatura, com quem dialoga sem nenhum ranço de pedantismo: "Existe uma medida entre o descuido e a premeditação -trata-se do cuidado ("floating attention')". A pretensa negligência tem traços da simplicidade de um verdadeiro compromisso, que não precisa de convenções e mesmo as corrói por dentro.
Republicam-se agora os livros há tempos esgotados de Ana Cristina Cesar: "A Teus Pés"' (1982) -que reúne "Cenas de Abril" (1979), "Correspondência Completa" (1979) e "Luvas de Pelica" (1980)- e "Inéditos e Dispersos" (1985), organizado postumamente por Armando Freitas Filho. Depois desses relançamentos, seria útil a organização de uma antologia, em que fossem ressaltados os poemas de maior força, pois, como já assinalamos, muitos são esboços assimétricos de uma voz que ensaiava seus instrumentos de expressão.
Em "Cenas de Abril" há pelo menos três poemas excepcionais, em que a autora vence os "pânicos felinos" e aventura-se em mares maiores. Um deles, "Primeira Lição", começa imitando um manual de retórica a definir os tipos de poesia de modo didático: "Os gêneros de poesia são: lírico, satírico/ didático, épico, ligeiro". E continua por aí, até o final, quando então interrompe a seca conceituação para introduzir o dilema da forma, que não deveria ser exterior à necessidade expressiva do poeta: "Olho muito tempo o corpo de um poema/ até perder de vista o que não seja corpo/ e sentir separado dentre os dentes/ um filete de sangue/ nas gengivas".
"Correspondência Completa" (título irônico, visto que as cartas mais elidem e aludem do que explicitam) e "Luvas de Pelica" retomam os motivos da viagem, da ausência, da dificuldade de fazer as mensagens chegarem. O andamento dos textos é rápido ao ponto da vertigem. Fala-se demais, histericamente. Cartões-postais são trocados, alguns em branco, outros com notações cifradas. As pistas não esclarecem sobre os fatos e sim sobre momentos da existência desdobrados: a teia dos acontecimentos mínimos poetizada. As reiterações do diário e da carta relacionam-se à perda e distância também nas relações semânticas inerentes ao poema e se manifestam na falta de nexos claros entre nome e coisa.


AS OBRAS
A Teus Pés Ana Cristina Cesar Ática/Instituto Moreira Salles (011/278-9322) 152 págs., R$ 24,90 Inéditos e Dispersos Ana Cristina Cesar Ática/Instituto Moreira Salles (011/278-9322) 240 págs., R$ 24,90 



Ao ampliar o território da atenção, Ana Cristina permite que a dúvida se instale, constituindo um campo magnético de impasse e desafio. A dificuldade da forma e a oscilação entre o irônico e o emotivo mimetizam a tentativa de aproximar-se de um conteúdo reticente e revelam uma insatisfação não-preenchível: o sentido é desdobrado em metonímias que não se perfazem. Inclui-se no lirismo o "bric-à-brac" da subjetividade urbana em seu entrecortado de situações emaranhadas. Ela recusa a "palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim". Há algo de precário, excitado, deliberadamente superficial -como muitas instalações e performances que tentam reencontrar a relação direta do artista com o espectador: solitário, ele se desnuda, estetizando a intimidade.
Se, em alguns de seus companheiros de geração, o aspecto antiliterário era um programa avesso ao dogma dos versos modelares, preferindo-se o despojamento da "baixa mímese" como parâmetro, ela sofre a "angústia da banalização", temendo perder a poesia ("entro numa de respeitar a arte, que se usa para transcender... no meu trabalho não quero apenas dar bandeiras, mesmo se pontuada por coreografias esfuziantes").
Em "Inéditos e Dispersos", reencontramos a mesma urgência de expressão mesclada à dúvida: "Os poemas são para nós uma ferida// cachoeira/ de repente alguém diz a palavra cachoeira/ e ela se medusa// insolúvel/ intimidade/ piche insolúvel/ negro". Ou: "Não, a poesia não pode esperar./ O brigue toca as terras geladas do extremo sul. Escapo no automóvel aos guinchos./ Hoje -você sabe disso? Sabe de hoje? Sabe que quando/ digo hoje, falo precisamente deste extremo ríspido,/ deste ponto que parece último possível?" (...). "Não querida, não é preciso correr assim do que/ vivemos. O espaço arde. O perigo de viver.// Não, esta palavra./ O encarcerado só sabe que não vai morrer,/ pinta as paredes da cela./ Deixa rastros possíveis, naquele curto espaço".
A juventude de Ana Cristina, por ocasião de sua morte, é sintomática à interrupção da vida de outros membros destacados de sua geração, como Cacaso, Leminski e Torquato. Todos eles amadureceram na direção de uma poesia que incorporou e avançou em relação à vanguarda concreta e ao realismo engajado dos anos 60, procurando uma via que, a um tempo, continuava a tradição modernista "lato sensu" e, por outro, experimentava outros feitios de linguagem.
Neles reencontramos a linhagem poética do modernismo, pois dialogam com Bandeira, Drummond, Jorge de Lima e outros. Com certeza, a geração posterior, que vem escrevendo agora, deve, em parte, a eles, o bem e o mal-estar do viajante que se desequilibra na inquietação das descobertas.


Viviana Bosi Concagh é professora de teoria literária na USP.

Viviana Bosi professora do departamento de teoria literária e literatura comparada da USP
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