

ESTANTE
Depois de Marx
Pensamento Vivido - Autobiografia em Diálogo Georg Lukács Tradução: Cristina Alberta Franco UFV/Ad Hominem (Tel. 0/xx/11/256-0156) 190 págs., R$ 20,00 |
Existe uma contradição, ou ao menos um descompasso, entre a obra e a vida política de G. Lukács, assunto de infindáveis controvérsias entre historiadores. Essa questão, embora nunca explicitada, perpassa "Pensamento Vivido" -um esboço extremamente sintético, complementado por uma entrevista que o toma por roteiro, concedida a István Eörsi e Erzsébet Vezér em seus últimos meses de vida. Nessa autobiografia, Lukács coloca no centro do palco não o intelectual (como se faz usualmente, justificando as "autocríticas" em nome do interesse maior da redação da obra), mas o político que se dedica à filosofia (comentada numa chave lógica e nunca histórica) apenas durante os períodos de ostracismo. Enquanto político, no entanto, mostra-se excessivamente preocupado em sobreviver -e não só fisicamente- em cenários quase sempre adversos.
Sobre a Reprodução Louis Althusser Tradução: Guilherme João de Freitas Teixeira Vozes (Tel. 0/xx/24/237-5112) 294 págs., R$ 25,00 |
A publicação póstuma da íntegra desse manuscrito -do qual Althusser extraiu os fragmentos que compõem "Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado" (em apêndice nessa edição)- esclarece bem o estatuto dos acréscimos que faz à teoria marxista do Estado, em particular suas conexões com a filosofia e a "ciência" da história. Mas também deixa visível seus pressupostos e objetivos políticos. A indagação acerca dos fatores que possibilitam a reprodução das relações de produção, e da exploração que lhe é inerente, não se prende apenas ao exame das condições que presidem à integração do proletariado e à estabilização do capitalismo. Na vertente aberta por Gramsci, Althusser aposta em um novo espaço para a luta de classes, numa direção que, apesar de crítica, mostra-se solidária aos eventos da época: Maio de 68, revolução cultural chinesa e Primavera de Praga.
As Origens da Pós-Modernidade Perry Anderson Tradução: Marcus Penchel Jorge Zahar Editor (Tel. 0/xx/21/240-0226) 166 págs., R$ 17,00 |
Há uma cisão quase esquizofrênica nesse livro. De um lado, Anderson acompanha, histórica e geograficamente, os percalços da idéia de pós-modernismo -de Venturi, Lyotard e Habermas a Callinicos e Harvey. Um preâmbulo para sua exposição do significado estético, político e social da arte e da sociedade contemporânea. Adota como premissa interpretativa a prevalência da economia política (a base, numa terminologia antiquada). Mas, por outro lado, concebe o livro como uma apresentação da obra de Jameson. Fiel ao gênero, superdimensiona essa obra, cujo momento principal, como se sabe, procurava desvendar a nova fase do capitalismo a partir do exame de sua cultura, dita por ele pós-moderna. Jameson também desprezou a divisão, que Anderson reintroduz, entre adversários e partidários da ubiquidade do espetáculo (e da indústria cultural).
Em Defesa da História - Marxismo e Pós-Modernismo Ellen M. Wood e John B. Foster (orgs.) Tradução: Ruy Jungmann Jorge Zahar Editor (Tel. 0/xx/21/240-0226) 216 págs., R$ 26,00 |
Essa coletânea, originalmente número especial da revista americana "Monthly Review" (a cuja tradição estão vinculados, entre outros, os nomes de Paul Sweezy, Harry Magdoff e Harry Braverman), propõe-se a fornecer uma alternativa à agenda e ao pensamento dito pós-moderno. Se o marxismo tem muito a dizer acerca de temas ou áreas como linguagem, história, estudos culturais, feminismo, multiculturalismo, colonialismo e ecologia, não se pode afirmar que a crítica da ideologia pós-moderna promova revelações importantes sobre o capitalismo contemporâneo. Tais revelações -apesar da lucidez da maior parte dos artigos, sobretudo os de Ellen Wood, David McNally e Aijaz Ahmad- concentram-se no ensaio de Fredric Jameson que, na contramão do seu trabalho anterior, recorre à dinâmica da economia (e às teses de Arrighi, Mandel, Polanyi e Wallerstein).
O Marxismo na América Latina Michael Löwy (org.) Tradução: Cláudia Schilling e Luís Carlos Borges Fundação Perseu Abramo (Tel. 0/xx/11/571-4299) 540 págs., R$ 35,00 |
Depois da Revolução Cubana (1959), o marxismo disseminou-se pela América Latina tornando-se hegemônico nos quadros do radicalismo político e teórico. Embora tenha renovado o panorama político e intelectual, a discussão nesse período (tanto política quanto teórica) foi moldada sobretudo pelo debate acerca do modelo de revolução mais adequado ao continente. A antologia organizada por Michael Löwy, congregando textos curtos e extratos de documentos políticos de 1909 à atualidade, adotou esse debate de forma consciente e deliberada como fio e recorte, transplantando indevidamente uma discussão própria dos anos 60 e 70 para todo o arco coberto pelo livro. Destaca-se assim, em contraposição à parte mais conhecida da obra de Löwy, pautada pela isenção e rigor acadêmico, sua faceta de militante político.
RICARDO MUSSE