

Cientista descreve sua vida e obra
Darwin no espelho
ANNA CAROLINA REGNER
Na despretensiosa autobiografia que Charles Darwin (1809-1882) escreve para sua família em 1876, estão os traços da mente e do caráter do autor que serão reconhecidos na obra. Darwin atribui seu sucesso na ciência a um conjunto de "qualidades e estados mentais complexos", incluindo o amor à ciência, dedicado esforço na observação e compilação de fatos e uma dose "razoável" de criatividade e bom senso, surpreendendo-se que, com habilidades mentais tão moderadas, tenha exercido alguma influência (!). Cedo revelou uma "inata" paixão por coleções e uma vigorosa imaginação, manifesta tanto nas suas "classificações" (o "dar nomes" o deliciava), como na fantasia poética despertada por certas imagens (as metáforas serão centrais a seu pensamento). Lamenta apenas ter perdido, com o tempo, o prazer pela poesia, pintura e música.
Nunca apreendeu um texto ou expôs claramente suas idéias numa primeira tentativa e foi sempre incapaz para aprender línguas. Às dificuldades impostas por sua precária saúde, contrapôs uma rigorosa disciplina de trabalho. Organizava seu material em pastas para diferentes assuntos, dava aos livros lidos um índice pessoal e economizava tempo de redação pelo rápido e rabiscado registro de suas idéias, depois deliberadamente corrigido. Para seus livros maiores, primeiro dispunha o assunto num esboço de duas ou três páginas, seguido por uma reorganização mais detalhada em subtítulos, aos quais dava um maior desenvolvimento.
Órfão de mãe desde os oito anos, foi educado por suas irmãs e seu pai, Robert W. Darwin, sua maior influência moral, e teve uma desinteressante experiência escolar -apesar do prazer pelas experiências de química realizadas com seu irmão Erasmus-, considerado um estudante medíocre. Seu pai, médico bem-sucedido -com extraordinária capacidade de observação, compaixão, avaliação intuitiva do caráter das pessoas e de despertar confiança- orientava-se clinicamente por uma conduta psicossomática. (A integração do racional e do emocional se fará presente na produção científica de Darwin, sob vários ângulos.)
À sua formação intelectual, concorreram o gosto pela leitura (a "Narrativa Pessoal", de Humboldt, e a "Introdução ao Estudo da Filosofia Natural", de John Herschel, foram os livros que mais o influenciaram), o convívio com colegas interessados nas ciências, cientistas reputados e sociedades científicas, os estudos de geologia, zoologia e botânica enquanto cursava medicina e teologia, a amizade com Henslow, o contato com as idéias de Lamarck e de seu avô Erasmus, aos quais posteriormente criticaria, e a viagem a bordo do Beagle (1831-1836). Formalmente, não concluiu seus estudos. Abandonou a medicina iniciada em Edimburgo e a teologia, em Cambridge (em que pese o prazer encontrado em Euclides e Paley), para onde o pai lhe dirigira, a fim de ser pároco -a viagem a bordo do Beagle interrompeu-lhe a carreira, sem rompimento formal, mas lento e gradual.
Fatores circunstanciais -a superação da desconfiança frenológica que seu nariz provocara no capitão Fitz-Roy e o consentimento do pai obtido pelo seu tio Josiah Wedgwood- determinaram o acontecimento mais importante de sua carreira, a viagem de circunavegação a bordo do Beagle. Aprimorou-lhe a capacidade de observação nos vários ramos da ciência natural, de aplicação industriosa a suas tarefas, o raciocínio geológico (a que contribuiu decisivamente a leitura dos "Princípios da Geologia", de Lyell), levou-o a descobertas centrais à sua futura teoria, como as das Ilhas Galápagos, e tornou seu amor pela ciência predominante sobre qualquer outro interesse. De seu retorno até seu casamento, em 1839, foram seus anos mais produtivos -preparou os dados de seu diário de viagem para publicações e deu início a seus "Cadernos de Notas", explicitamente referindo-se ao aberto em julho de 1837, relacionado a "A Origem das Espécies" (o qual nos permite discutir a importância que confere à leitura de Malthus, em 1838, para sua teoria). Crescem as dificuldades de ordem religiosa. Reconhece-se como um teísta à época da "Origem", decorrente da impossibilidade de conceber este universo como resultado do cego acaso. A partir da "Origem", lentamente e com oscilações, torna-se um agnóstico. Casando-se com a prima Emma, enfatiza a felicidade familiar, lamentando apenas a perda da filha Annie. Residindo em Londres, sua saúde o impediu de trabalhar, mas teve vários contatos importantes, dentre os quais com Lyell, Huxley e Hooker, seus grandes amigos e respeitados conselheiros por toda a vida. Em 1842, a família muda-se definitivamente para Down. Aos poucos, o trabalho científico torna-se seu único prazer e ocupação.
Comentando seus numerosos trabalhos, sua estruturação, vendas e traduções, destaca a "Origem" como o mais importante. Sua publicação, em 1859, foi provocada pelo fato de, em 1858, Wallace ter-lhe enviado da Malásia um ensaio que continha sua mesma teoria, para sua avaliação e submissão a Lyell. A pedido de Lyell e Hooker, um excerto do manuscrito de Darwin com uma carta que enviara a Asa Gray em 1857 são publicados junto com o ensaio de Wallace (cuja generosidade e nobreza Darwin reconhece), no "Journal of the Proceedings of the Linnean Society", sem repercussões. Atribui o sucesso da "Origem" a ter passado, primeiro, por dois esboços (ensaios de 1842 e 1844) e, depois, a ter sido o resumo de um manuscrito mais longo, iniciado em 1856, que já era um resumo, permitindo-lhe escolher os dados e as conclusões mais marcantes e antecipar-se a objeções e dificuldades. Sua maestria argumentativa, podemos dizer, justifica seu inconformismo com os críticos para os quais ele seria um bom observador, mas sem capacidade de raciocínio, e sua confessa ambição de ser estimado pelos colegas, afora seu constante e ardoroso amor pela ciência natural.
Anna Carolina Krebs Pereira Regner é professora no departamento de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.