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Ricardo Musse - 13 - Abril de 1996
Da sociologia ao marxismo
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Da sociologia ao marxismo

 

RICARDO MUSSE

Dois livros póstumos, organizados ainda em vida pelo próprio Florestan, procuram estabelecer, em registros diferentes, um balanço dos acertos e desacertos teóricos e práticos da luta política socialista entre nós, num momento em que a globalização da economia e as transformações do Estado "provocam indagações sobre os papéis dos intelectuais nos movimentos sociais ou sobre o destino de sua produção".
"A Contestação Necessária" congrega perfis de intelectuais e militantes políticos -na maioria, artigos de circunstância- articulados, com longas introduções justificatórias, em três blocos: "O intelectual e a radicalização das idéias", "Prática política radical" e "Reforma Educacional". Duas coisas chamam imediatamente a atenção do leitor: a inclusão de Lula no primeiro bloco e a ausência de seus ex-assistentes que ascenderam, em 1994, ao poder.
Apoiando-se no conceito -criado por Gramsci- de "intelectual orgânico", Florestan privilegia em Lula sobretudo "o operário como inventor de idéias", o que combina bem com o sentido do perfil do líder do PT. Centrado na sua história de vida -semelhante, no essencial, à do próprio Florestan: vitória contra as vicissitudes da pobreza e compromisso com a supressão da barbárie-, procura mostrar como, apesar da brutal dominação de classe, os setores explorados geram, por meio de um complexo processo de rebelião, seus defensores. Além disso, a não inclusão de Lula entre os políticos radicais deve-se, como veremos adiante, às indecisões da trajetória do PT, que Florestan não cessava de apontar.
Sobre a ausência de seus ex-assistentes nenhuma referência, exceto por uma frase -explicando por que Lula não chegou lá- que diz tudo: "Em ambas as ocasiões as manobras que o afastaram da ocupação da presidência envolveram manipulações dos partidos da ordem e dos donos do poder econômico, típicas do clientelismo mais agudo".
Ao longo dos perfis delineia-se uma meditação acerca das condições e dos limites de uma prática política radical no Brasil. Temos, num primeiro modelo, a inquebrantável integridade política de indivíduos que só se explica por fatores de ordem psicológica, desamparados que estão do apoio de um forte movimento coletivo. É o caso de trotskistas como Hermínio Sacchetta, que introduziu Florestan na militância política. Uma segunda situação peculiar é a de Luís Carlos Prestes que, em vez de ir, como era usual no movimento internacional, do comunismo à revolução, "saltou da revolução ao comunismo". O rebelde, rompido com sua classe e já engajado na luta armada, teve que se moldar ao estrito figurino de um partido e a uma organização da classe operária incipientes. O terceiro modelo, personificado por Lula, é o do operário levado pelo avanço na organização dos trabalhadores sucessivamente à condição de líder sindical e líder político.
Dentre os muitos "achados" de alcance sociológico ou teórico espalhados nestes perfis seleciono apenas um. Comentando o livro de Richard Morse sobre São Paulo, Florestan -na contramão do iluminismo progressista que associa maturidade cronológica, ou mesmo complexidade, a autonomia- adverte para o fato de que, uma vez que na história brasileira o mais importante é determinado "a partir de fora", "a comunidade chegava a ter uma soma maior de autodeterminação (principalmente na periferia do nosso mundo colonial) que a sociedade (ou a metrópole)".
"Em Busca do Socialismo" contém artigos de jornal, apresentações de livros, entrevistas e até mesmo textos de cursos, todos unificados pela ótica ou pela temática exclusivamente marxista.
A maioria dos textos procura, em afinidade com a tradição intelectual do marxismo, superar as especializações e a divisão do trabalho próprias ao saber burguês. Afora pequenos escorregões como qualificar Marx como "cientista social" ou lamentar que Caio Prado Jr. não tivesse se aprofundado em sociologia, transparece o esforço de Florestan para superar sua anterior preocupação com a delimitação da sociologia enquanto ciência autônoma.
Nesse sentido a sua introdução de 1946 a "Contribuição à Crítica da Economia Política" de Marx -reproduzida neste livro- é exemplar. Se então o marxismo já era -como lembra Antonio Candido ("Revista Praxis", nº 5)- um "rio subterrâneo", o viés sob o qual ele é apresentado -weberianamente como uma solução para a antinomia entre método naturalista e histórico- não deixa de ser parte do esforço de Florestan para dominar a integralidade das técnicas e metodologias predominantes nas ciências sociais.
A passagem do acadêmico ao militante, do "scholar" ao publicista, além de tornar mais fluente e legível o seu texto, que adquire um traço marcadamente didático, também modifica totalmente os seus interesses teóricos e bibliográficos.
Na parte dedicada a apresentações dos clássicos do marxismo, o enfoque político sob o qual encerra os textos sobre Marx prenuncia já a ênfase na questão da conquista do poder, da revolução, que o aproxima da obra de Lênin. Continua, assim, em escala menor, o empreendimento iniciado com as brilhantes introduções ao volumes Marx/Engels e Lênin da Coleção "Grandes Cientistas Sociais" (Ática, volumes 5 e 36).
Embora a profundidade do seu marxismo ou da sua obra só possa ser avaliada em função da sua compreensão da especificidade da realidade brasileira, é essa junção, o marxismo-leninismo do qual se dizia tributário, que explica as limitações de sua compreensão da história do socialismo. É espantoso que a sua apresentação a "O Estado e a Revolução" não mencione que esse livro de Lênin -e a concepção de ditadura do proletariado ali detalhada- foi o pivô de uma longa controvérsia sobre o caráter (não) democrático do Estado soviético na qual se envolveram, entre outros, Kautsky e Rosa Luxemburg. Ou que tome como base para avaliar o que acontecia na URSS em 1989 apenas o livro de... Gorbachev.
Se não conseguia entender o que acontecia lá fora, a sua visão do Brasil, no entanto, era mais aguda do que nunca. Foi um dos primeiros a diagnosticar os motivos da crise que hoje ronda o Partido dos Trabalhadores. Segundo ele, houve um deslocamento político e ideológico do PT para o centro em decorrência da derrota eleitoral de Lula, já que procurou-se então conquistar os segmentos mais conservadores das classes médias em vez de disputar o voto da "ralé". Nas palavras de Florestan: "Os companheiros que mais precisam do PT ficaram entregues ao apetite e à insensibilidade da demagogia do poder, que tudo promete para não perder as eleições e nada cumpre! Foi a única vez que me senti perturbado como petista, pois constatei que a cultura política eurocêntrica contra o 'lúmpen' e os desenraizados achava guarida nos trópicos, debaixo da bandeira redentora do PT" (págs. 244-45). 

Ricardo Musse é professor do departamento de sociologia d USP.
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