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Carlos Alberto Steil - 63 - Junho de 2000
Cruezas da política
Foto do(a) autor(a) Carlos Alberto Steil

Cruezas da política

Coleção Antropologia da Política
Núcleo de Antropologia da Política (NUAP) Relume Dumará (Tel. 0/xx/21/590-0135)

CARLOS ALBERTO STEIL

Todos os dias somos bombardeados por denúncias de corrupção, fraudes eleitorais, escândalos políticos, clientelismos... Situada no contexto idealizado de um estado de direito, em que esses acontecimentos aparecem como resíduos de um passado a ser superado, a política brasileira manifesta-se cindida entre um setor tradicional e atrasado e outro moderno e racional.
No entanto, quanto mais a sociedade se moderniza, mais se reproduzem e se sofisticam os mecanismos clientelistas, os embustes eleitorais, os mecanismos de violência. Questionar essa divisão da política e jogar luz sobre seu lado obscuro é o que pretende o NUAP. O que os antropólogos, afeitos ao estudo das sociedades primitivas, têm a dizer sobre a política brasileira contemporânea? Uma tentativa de resposta pode-se encontrar nos sete volumes da série "Antropologia da Política". Com o propósito de elaborar uma interpretação dos problemas políticos que afetam o cotidiano da vida social, seus autores buscam aplicar o método comparativo antropológico às análises da política e suas instituições na experiência brasileira.
Tratando de temas diversos como violência e pistolagem, campanhas eleitorais, clientelismo e favor, política e religião, honra e decoro parlamentares, identidade camponesa, voto e adesão partidária, a unidade desta coleção deriva da abordagem etnográfica no tratamento dos fatos sociais. Mais do que explicar esses fatos, os autores procuram tornar inteligíveis as tramas que envolvem a política em suas múltiplas dimensões.
A interpretação é realizada "do ponto de vista do nativo", ao modo como aqueles que participam do exercício da política concebem sua experiência. Assim, Marcos Bezerra, no livro "Em Nome das "Bases'" (274 págs., R$ 20,80), examina a participação dos parlamentares na elaboração e execução do orçamento da União como um lugar sociológico privilegiado para estudar suas relações com lideranças locais, autoridades do executivo e agentes privados tais como escritórios de consultoria e empreiteiras, sempre tomando por referência a perspectiva dos parlamentares.
Mesmo quando o objeto de estudo são crimes de pistolagem ligados ao voto, como no caso de César Barreira, em "Crimes por Encomenda - Violência e Pistolagem no Cenário Brasileiro" (180 págs., R$ 16,00), o autor busca dar voz aos pistoleiros, deixando transparecer códigos de honra e moralidade alheios àqueles que regem a convivência social e democrática convencional. Orientado pelo viés antropológico, Barreira compara e relativiza as múltiplas verdades/versões implicadas na pistolagem política.
Em todos os autores, observa-se um deslocamento do institucional para dimensões da vida social em que a política se faz presente de forma capilar. Em muitos casos, tal postura acaba por transformar as instituições políticas, especialmente o Congresso, em campos etnográficos. Em "A Honra da Política" (172 págs., R$ 16,00), Carla Teixeira resgata a noção de honra, de amplo trânsito em sociedades tradicionais, como valor distintivo da política. Com perspicácia, mostra que, se as noções de honradez e dignidade estão ausentes na imagem que a sociedade brasileira construiu dos seus políticos, a de honra é o valor distintivo da política.
A noção de um tempo da política permite a Irlys Barreira analisar campanhas políticas nacionais e locais como um momento ritual, revestido de grande teatralidade, em que se realiza a cerimônia de contrato entre representantes e representados. Tomando como contexto etnográfico a Caravana da Cidadania, da campanha presidencial de Luís Inácio Lula da Silva em 1994, e as candidaturas femininas de 1996, nas cidades de Natal, Fortaleza e Maceió, a autora revela, em "Chuva de Papéis -Ritos e Símbolos de Campanhas Eleitorais no Brasil" (236 págs. R$ 20,00), o intenso trabalho simbólico de colagem da "biografia" dos candidatos à história do "povo" e à situação das mulheres na sociedade.
Júlia Miranda, em "Carisma, Sociedade e Política - Novas Linguagens do Religioso e do Político" (140 págs., R$ 15,20), analisa a campanha para vereador de um candidato de Fortaleza ligado à Renovação Carismática Católica e que se elege com apoio explícito do movimento. Apoiando-se na "antropologia ritual" e destacando a dimensão simbólica da linguagem no cotidiano do movimento e no momento extraordinário da política, a autora desvenda as transformações e ressignificações que estão ocorrendo no campo da política por conta dessa nova sociabilidade urdida pelos carismáticos no interior da Igreja Católica.
Se a maioria dos trabalhos privilegia os eventos que ocorrem no "tempo da política", John Cunha Comerford, em "Fazendo a Luta -Sociabilidade, Falas e Rituais na Construção de Organizações Camponesas" (156 págs., R$ 17,60), focaliza o cotidiano de um assentamento de sem-terras, chamando a atenção do leitor para aqueles aspectos mais naturalizados e menos evidentes num esforço de "estranhamento do familiar". Como ele mesmo afirma, "apesar de remeter a temas "quentes", o livro trata de dimensões "frias'".
Por fim, em "Alguma Antropologia" (180 págs., R$ 15,20), Márcio Goldman reúne alguns ensaios indicativos dos 20 anos de sua trajetória intelectual, a qual desemboca numa investigação de "antropologia política", direcionada para o estudo do processo eleitoral e do voto na sociedade brasileira. Goldman mostra que "se vota por interesse, afinidade ideológica, adesão partidária, mas também por simpatia, identificação pessoal, torcida de futebol, autoridade materna... e mais uma infinidade de razões impossíveis de esgotar".
A maior contribuição da abordagem antropológica da política está em perceber que muitas das práticas e categorias que tendemos a remeter à política local, como resíduos de uma cultura tradicional, na verdade são estruturantes da política moderna oficial ou institucional. Enquanto estruturas simbólicas de longa duração, os elementos da "pequena política" invadem a "grande política", impondo-lhe sua lógica e orientando sua ação. Se o local é penetrado pela racionalidade moderna, o moderno também é continuamente colonizado pelo local.


Carlos Alberto Steil é antropólogo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de "O Sertão das Romarias" (Vozes).

Carlos Alberto Steil professor da UFRGS.
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