

Crítica de cinema
Um Filme É um Filme
José Lino Grunewald
Organização: Ruy Castro
Cia. das Letras (Tel. 0/xx/11/3846-0801)
288 págs., R$ 31,50
O essencial da atividade crítica de Grunewald aconteceu nos anos 60, período de intensa transformação do cinema, como também de desenvolvimento da crença nessa arte como aquela que melhor representava a era contemporânea. Em seus textos, Grunewald ataca as novidades trazidas por cineastas como Godard, Antonioni, Alain Resnais, Orson Welles e a característica industrial do cinema.
A coletânea fixa-se sobretudo no cinema europeu, embora os preciosos resumos anuais de Grunewald dêem conta da riqueza da produção hollywoodiana no período. Suas análises, produzidas à medida que os filmes estreavam no Rio de Janeiro, são influenciadas sobretudo pelo pensamento de Merleau-Ponty, mas não deixam esquecer a presença das teorias da poesia concreta (Grunewald também foi poeta). A batalha do crítico contra o cinema de autor é outro aspecto essencial da coletânea, já que seu ponto de vista não visa a privilegiar o sistema de estúdio, mas o caráter coletivo (industrial) da atividade. "Um Filme É um Filme" dá conta com muita inteligência de um momento particularmente inventivo do cinema, por meio de textos cujo interesse permanece, ainda hoje, intacto.
À Meia-Luz
Paulo Menezes
Editora 34 (Tel. 0/xx/11/3816-6777)
280 págs., R$ 23,00
Todo o cinema moderno gira, em resumidas contas, em torno da relação da imagem cinematográfica com o real. Essa é uma das preocupações principais do sociólogo Paulo Menezes em "À Meia-Luz". Embora o subtítulo anuncie "Cinema e Sexualidade nos Anos 70", o livro aborda um período de 15 anos -não por acaso o momento em que a representação da sexualidade no cinema se torna mais explícita, a partir de seis obras: "Blow Up", "Laranja Mecânica", "Morte em Veneza", "Último Tango em Paris", "O Império dos Sentidos" e "Blade Runner", abordadas em ensaios separados. A partir do final dos anos 60, escreve o autor, "pensar as transformações sociais não poderia se restringir apenas às clássicas transformações das relações de produção e à tomada do poder. Um outro campo insuspeito de questionamento parece ter assumido uma força que nunca antes havia conquistado". Ou seja, se as relações interpessoais adquirem em determinado momento importância na compreensão dos fenômenos sociais, o interesse do autor é investigá-las a partir da ambiguidade da imagem cinematográfica, em que real e imaginário se cutucam em tempo integral.
A Palavra Náufraga
Antônio Gonçalves Filho
Cosac & Naify (Tel. 0/xx/11/3218-1444)
374 págs., R$ 38,00
Há cerca de 20 anos, Antônio Gonçalves Filho é um dos principais jornalistas culturais paulistas, em grande parte por sua capacidade de falar de música, literatura, artes plásticas, teatro e cinema. Em "A Palavra Náufraga", Gonçalves reuniu apenas seus textos sobre cinema, cuja principal característica é reunir, quase sempre no mesmo artigo, a reportagem e o olhar crítico.
Os artigos, publicados originalmente na Folha, em "O Estado de S. Paulo" e no "Valor" derivam da atualidade, mas não chegam a ser inteiramente determinados pelos acontecimentos. Unifica-os uma visão de mundo que um artigo sobre "Morte em Veneza" resume de forma exemplar: é como se o século 21 já não reservasse lugar para a arte, preferindo a "xepa de Tarantino" à crença "na vida, na arte e na ética". "Morte em Veneza" representa melhor do qualquer outro, no mais, o espírito do livro: o cinema, em agonia, é visto ali como expressão também agônica de um certo mundo, onde se perderam os valores religiosos, a crença na reflexão. Bem mais do que antologia de textos jornalísticos, "A Palavra Náufraga" se impõe como afirmação de um olhar humanista que se recusa a morrer na era da indústria cultural.
Equilíbrio das Estrelas
Renato Luiz Pucci Jr.
Annablume (Tel. 0/xx/11/3812-6764)
258 págs., R$ 25,00
Nos anos 50 e 60, era-se pró ou contra Walter Hugo Khouri. Ele representava tudo (ou o melhor de) aquilo que não era cinema novo: personagens burgueses, tédio, ênfase na sexualidade etc. Com o tempo, o talento e a coerência de Khouri impuseram-no como autor de destaque na filmografia brasileira moderna. Mas qual é esse lugar? Em sua busca, Renato Luiz Pucci Jr. parte de sua formação filosófica, o que o leva a notar a presença constante, e não raro ostensiva, de textos de certos autores (de Platão a Camus) no trabalho do cineasta. É sobre essa surpresa inicial que Pucci organiza sua abordagem do universo khouriano, que é talvez o primeiro trabalho em profundidade sobre essa obra incomum. Ao longo de seu livro, Pucci articula a análise dos filmes (constâncias, retomadas de personagens, transformações), "limpando o terreno", como diz, de conceitos e preconceitos formulados, não raro rapidamente e numa situação de combate, sobre o cinema de Khouri.
INÁCIO ARAÚJO