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Renato Janine Ribeiro - 9 - Dezembro de 1995
Conversa vai, conversa vem
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Conversa vai, conversa vem

 

RENATO JANINE RIBEIRO

A Arte da Conversação
Peter Burke Tradução de Álvaro Hattnner Editora da Unesp, 221 págs.
R$ 20,00

Stendhal comenta, no prefácio que escreveu para as "Viagens à Itália" do presidente de Brosses, que nobres forçados a passar o dia inteiro uns frente aos outros, na corte do Rei-Sol, ou inventavam uma arte de conversar agradavelmente ou morreriam de tédio (1). Dessa forma o romancista francês, que sob tantos aspectos parece prenunciar o moderno historiador das mentalidades (leiam-se suas "Crônicas Italianas" ou os "Romances e Novelas", em que faz uma história finíssima dos sentimentos e concepções vigentes na Itália do Renascimento à França do século 19), deixa claro como essa arte dos "pequenos nadas", que por sinal será tão bem praticada pela duquesa Sanseverina da "Cartuxa de Parma", dos detalhes significantes, necessitou de um quadro histórico preciso para nascer e desenvolver-se.
E é por esse caminho que vai Peter Burke, no seu último livro lançado entre nós. Em cinco ensaios distintos, ele trabalha a questão histórica -isto é, política, social e etnológica- da língua. Pode ser essa, aliás, a questione della lingua, como se coloca na Itália do Dezenove. Com efeito, quantos de nós sabemos que a língua hoje chamada "italiana" não passa do toscano, promovido à condição de idioma da nacionalidade, mas que -já às vésperas da Primeira Guerra Mundial- apenas uma minoria da península falava e menor número ainda escrevia?
A Itália aceita essa língua franca de perfil curioso (porque, ao contrário da "lingua franca" que servia de elo de ligação aos navegantes de todo o Mediterrâneo, não é um "pot-pourri" de idiomas diversos, mas um dialeto consistente, e enobrecido, já que é a língua de Dante e Petrarca) em, digamos, duas etapas. No século 16, já se trata da língua culta por excelência, aquela que permite a Maquiavel e a Júlio 2º pedir que se expulsem "os bárbaros" da península. Mas só no Dezenove, com a unificação da Itália, ela assumirá claro caráter político, acabando por ser a língua da imprensa e da TV, embora ainda coexista com os dialetos regionais.
Evidentemente, Burke não se contenta com tais generalizações (Stendhal se contentaria) e por sinal mostra que, antes da França de Luís 16, foi a Itália quinhentista que iniciou os manuais sobre a arte da conversação -isto é, da conversa, mas também do convívio. Daí que seus textos, neste livro, sempre indiquem os pontos em aberto, aqueles que exigem novas pesquisas. Daí que se trate de uma obra extraordinariamente rica, não só pela informação manejada, mas sobretudo pelas pistas que abre.
A informação é rica e se poderia ler "A Arte da Conversação" como um manual de curiosidades: Guilherme, o Taciturno, na verdade falava bastante, mas ganhou o apelido por sua capacidade de dissimulação, que era um dos sentidos associados ao silêncio (pág. 175); a expressão tipicamente inglesa de desculpas, "I'm afraid that" ("Receio que..."), parece datar do século 18, que é a idade por excelência da conversação -ou de seus manuais- na Inglaterra (pág. 146).
Mas o principal são as linhas mestras, e as indicações. Das linhas mestras ressalta o papel da conversação como fator que ajuda a constituir uma sociedade. A inspiração de Norbert Elias, aliás confessada por Burke (2), é visível: o "Processo Civilizador" é obra de forte impacto sobre qualquer leitura política e social das maneiras. É claro que há diferenças. Elias considerava o civilizar dos costumes como um processo direcionado, no rumo daquilo que poderíamos chamar, com Foucault ou Weber, de disciplina ou racionalização. Burke é mais atento às variáveis, à história como construção e não como vetor que se atualiza. Daí, aliás, as pistas, as questões em aberto.
Há, porém, referenciais básicos. Um deles está na excelente definição da língua como "um dialeto com exército, marinha e força aérea" (pág. 113): impossível, especialmente no caso italiano, saber por critérios apenas linguísticos o que é língua, o que é patoá. O fator político é fundamental -e isso implica uma política que não se esgota nos reis e nos Estados nacionais, mas desça também ao micro. Por exemplo, o que significa que em certas sociedades a forma T (de tu: o nosso "você") não se refira tanto à intimidade entre iguais, mas sobretudo ao tratamento deferencial do superior em relação ao inferior, enquanto a forma V (de vós: nosso "o senhor"), em vez de traduzir o simples distanciamento respeitoso, assuma sempre um sentido hierárquico? Falo, é óbvio, do português do Brasil, em contraste claro com o francês e o alemão, nos quais o recorte é da intimidade versus a distância (ninguém chamaria a avó de V), enquanto para nós é o de uma hierarquia que engloba, também, a idade (não se chama a avó de T). O poder atravessa todo o uso da língua.
Um poder, contudo, sempre precário. Páginas instrutivas tratam da delicada constituição de uma língua "italiana" (págs. 110-11): havia as opções de uma solução "eclética", proposta por Dante, que tiraria alguma coisa de cada um dos principais dialetos para chegar a uma espécie de esperanto italiano, e que chegou a ser utilizada na corte, daí o nome de "cortegiano", e de uma solução toscana, que consistia em adotar o dialeto da região de Florença como língua de toda a Itália. Vingou a segunda, sabe-se. Mas ainda hoje as relações entre língua e dialeto variam conforme a região: o piemontês, por exemplo, trata de qualquer assunto em italiano ou no dialeto local, enquanto o siciliano se intimida se, usando o dialeto, percebe que está sendo olhado por estranhos (por exemplo, uma equipe da TV inglesa).
A questão básica, então, é a da identidade. A língua se torna um problema -nas palavras de Burke, um assunto de Estado (pág. 47)-, desde o século 18, com a obra de Herder, que a vincula à nacionalidade, e com a Revolução Francesa, que chegará a fazer da língua nacional o emblema da revolução, e dos falares regionais veículos da reação e do atraso. Essas identidades, concebidas ao modo romântico, apareciam como expressão de algo natural: assim como uma França em expansão alegava ter "fronteiras naturais" (Reno, Alpes, Pireneus), a língua assumia um caráter natural, portanto, genuíno.
Ora, para nós tudo isso se torna factício, as fronteiras imperialistas ou a língua centralizada. Uma discussão política da língua é então uma discussão da identidade, mas acentuando o que esta tem de construído; e talvez nada seja tão instrutivo como o caso francês. A França é, dos grandes países europeus, aquele que mais prende a identidade nacional à língua, e por isso maior dificuldade tem em tolerar suas próprias minorias linguísticas -ao contrário do Reino Unido, Itália ou Alemanha, onde as divergências se aceitam. É como se o francês, língua "natural", se contrapusesse ao italiano, língua "factícia": assim temos os casos extremos, no quadro europeu, de relação da língua com a identidade nacional.
Enfim, seria ótimo que essa obra -bem como os dois volumes da "História Social da Linguagem", dirigida por Burke e Roy Porter, dos quais a Unesp publicou um e vai editar logo o outro- instigasse o exame de certas questões no português do Brasil. Por exemplo, as formas de tratamento: nossa literatura, e mesmo as cartas entre amigos, até poucas décadas atrás reservava a intimidade ao "tu". Em "Um Homem Sem Profissão", Oswald de Andrade chama os amigos de você, mas as namoradas de tu. Contudo, à medida que os modernistas se sentem mais à vontade, passam para o você, e Mário de Andrade e um de seus correspondentes até comentam que, finalmente, conseguiram largar o tu! Quer dizer: a "intimidade" talvez fosse uma fórmula literária herdada dos padrões portugueses -da mesma forma que, hoje, as partes do país que usam o tu (Sul, Norte, Santos, zona norte do Rio, o Nordeste segundo alguns registros variados) são descartadas, no padrão de nossa língua, em favor do modelo que a TV difunde. Este é um "blend" de São Paulo e Rio -salvo, é claro, aquela exceção que confirma a regra, o falar nordestino, igualmente "fake" (mas isso não é uma crítica, apenas uma constatação, talvez um elogio...), de algumas novelas. O eixo Rio-São Paulo fala no "Jornal Nacional", o Nordeste no folhetim das oito: o que tirar dessa oposição do registro realista ao ficcional?

NOTAS
1. A sociedade do século 18 "contava sem dúvida tolos, semitolos, gente espirituosa etc. etc.; as sátiras de Boileau o comprovam. Mas, pelo longo governo de Luís 14, pela necessidade imposta aos cortesãos de passar várias horas por dia nos salões de Versalhes, onde era absolutamente necessário falar, sob pena de morrer de tédio, essa sociedade..." Stendhal, "La Comédie Est Impossible en 1836", in "Mélanges", vol. 5, pág. 271.
2. Em entrevista à "Revista USP", nº 20 (1993/94), págs. 112-18. 

Renato Janine Ribeiro é professor do departamento de filosofia da USP.
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