

Conforto e beleza
MARIA DE LOURDES B. DE ALCÂNTARA
a preocupação do autor é investigar o sentido da palavra conforto, da Idade Média a nossos dias, através dos objetos que ocupam as residências. O símbolo-chave, "conforto", torna-se um conceito que definirá a concepção histórica de habitação.
Sua primeira pergunta é sobre a necessidade de evocar a tradição e o passado na decoração dos ambientes das construções modernas: será que essa atitude representa uma insatisfação em relação ao mundo moderno?
Sua conclusão é que o mundo moderno está muito mais preocupado com a estética que com o conforto. E o imaginário popular procura, com a recuperação do passado, redescobrir o conforto que está associado a intimidade, aconchego e praticidade. Esses três ingredientes atuam juntos na designação de conforto, que os grandes designers deixaram de lado desde o início do século 20.
A raiz latina, "confortare", era sinônimo de fortalecer ou consolar. Somente no século 18 esse termo se torna sinônimo de bem-estar físico e de prazer, quando as residências são construídas com a divisão espacial dos cômodos, assinalando com isso o começo da privacidade. Antes, a casa era um local público; não havia separação dos dormitórios, da sala e da cozinha, mas um grande salão com os mais variados modos de ocupação. Os móveis não tinham uma única finalidade e eram poucos, a fim de deixar espaço para a circulação, pois havia muitos residentes em cada moradia, desde empregados até patrões. A casa não era só moradia, mas também local de trabalho.
A passagem dessa concepção para a de lugar de moradia e privacidade separou a casa do mundo do trabalho. Somente na era burguesa foram definidos os conceitos de privacidade, conforto, lar e família. O espaço da casa, tomado como doméstico, tornou-se o espaço de um outro tipo de trabalho, o feminino. O que o remete necessariamente a família, a intimidade. A casa não mais significa apenas abrigo. Torna-se o centro da vida familiar.
A consagração desse modo específico de habitar ocorre sob o reinado de Luís 15, em Versailles, quando os móveis passam a ter a função não mais ritualista (Igreja) ou funcional, mas de conforto, para melhor propiciar o desfrute do lazer. Sentavam-se todos juntos para ouvir música, conversar etc.
A variedade de móveis corresponde à diversidade de ocupação dos espaços domésticos. Com a necessidade de personificar o interior das casas, surge o primeiro estilo exclusivamente para o interior: o rococó. Ocorre então uma grande ruptura entre a arquitetura e a decoração de interiores. Pois a arquitetura dos cômodos era, até então, a das fachadas viradas para dentro. A preocupação dos arquitetos residia somente na aparência dos prédios e não no seu funcionamento. O que importava estava no exterior e não no interior. É nesse momento que aparece a figura do estofador, que será o decorador dos ambientes interiores, rompendo definitivamente com a arquitetura. Esse processo representa um dos maiores problemas levantados pelo autor, isto é, a falta de visão sobre o conforto, que permanece até nossos dias, nos estudos e projetos arquitetônicos.
O maior representante dessa ruptura foi Jacques-François Blondel, especialista em "decoração de interiores". A moda das vestimentas femininas estava relacionada diretamente com os desenhos dos móveis e com o cuidado de melhor acomodar as mulheres. Essa preocupação em relacionar os móveis ao corpo humano, ergométrica, tornava as cadeiras rococó acima de tudo confortáveis.
A partir de então, abre-se caminho para a busca de um maior conforto, conciliando técnica e estética. As invenções da privada, da válvula (1778), a primeira instalação em larga escala da luz a gás (1806) e o surgimento da lâmpada vêm acompanhados de ornamentos como os tapetes, as cortinas e arandelas, para caracterizar a comodidade e a privacidade dos interiores das casas, definindo o imaginário doméstico que conhecemos hoje.
Os séculos 18 e 19 representam a conquista da conciliação da decoração confortável com a disponibilidade da aquisição desse conforto por um número maior de pessoas.
Mas, nesse processo, há diferenças entre os EUA e a Europa. Nos EUA, desenvolve-se a associação entre a tecnologia e o conforto, visando a propiciar maior praticidade e racionalização ao trabalho feminino doméstico, inspirada nas teorias de Tylor. Catherine E. Beecher (1841) é a precursora desse movimento.
Na Europa, Le Corbusier, que também tinha influência da teoria tylorista, fez uma leitura estética dessa teoria, desvinculando racionalização e aplicação da tecnologia para melhorar o conforto doméstico. O modernismo europeu representou a ruptura entre conforto e estética.
A crítica que o autor faz dessa concepção está nessa dissociação. O que se procura em nossos dias é novamente a conciliação entre conforto e estética.
Em sua grande viagem histórica através de um recorte original -os modos de habitação-, o autor critica a moderna concepção de casa. Ela representa a perda da "aura" nos termos de W. Benjamim. Percebe-se um extremado saudosismo, no qual o passado é recuperado com a função de evocar o sentido de domesticidade, sinônimo de conforto e bem-estar, que representam mais do que meramente a tecnologia, os estilos e modismos, mas uma maneira simbólica de habitar, associada a intimidade, a prazer, a individualidade, a personificação, que tão demoradamente a sociedade ocidental conquistou.
Maria de Lourdes Beldi de Alcântara é doutoranda em sociologia na USP.