

ANA AMÉLIA DA SILVA
Configurações da forma e tarefa da crítica
Os nexos entre cinema e sociedade, estética e política
ENCONTROS COM ISMAIL XAVIER
Adilson Mendes (org.)
EDITORA AZOUGUE (Col. Encontros: a arte da entrevista)
293p., R$ 29,90
Adilson Mendes organiza alentado conjunto de entrevistas com Ismail Xavier, que perfazem três décadas de atividade crítica, elegendo o estatuto da imagem e do cinema como forma estética, experiência social e intelectual. Tributárias de questões encaminhadas pelos mais diversos entrevistadores, constituem-se em ensaios na trilha das configurações ou constelações críticas de Walter Benjamin, flagrando conexões interpretativas que antecipam e revelam a fatura da obra do crítico. De saída, note-se uma trajetória intelectual que se dá nos marcos dos anos 60/70, período fértil de uma cultura política “de esquerda”, em que “cinefilia, ciência e interesse pela política”, centram-se em leituras estruturalistas então em voga. Outros caminhos se bifurcam na formação intelectual entre teoria literária e cinema, com a orientação de Paulo Emilio Salles Gomes e Antonio Candido, “tradição” que se enriqueceria com o trabalho do crítico literário Roberto Schwarz e de professores e colegas da universidade.
A crescente preocupação com a forma configura o movimento em direção à análise imanente aos filmes, em estreita relação com as realidades histórico-sociais. “É na forma que procuro encontrar os nexos entre cinema e sociedade, estética e política”. Assim, Ismail opera na crítica cinematográfica com o que Roberto Schwarz destacou na obra de crítica literária de Antonio Candido, a ideia social de forma, que articula relações histórico-sociais e faz da historicidade a ser decifrada pela crítica, a substância mesma das obras.[i]
Cinema brasileiro
Esta “arte da historicização”, como diria Brecht, sinaliza a primeira constelação crítica pelo enfoque às alegorias do cinema brasileiro moderno. Elegendo a chave das disputas de significado, seja aos impasses do chamado projeto “nacional-popular”, ou aos enigmas da “formação” nacional, as alegorias aparecem ao avesso de sentidos atemporais, ou de transfigurações lineares. A “alegoria da esperança”, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou a “alegoria do desencanto, ou do desengano”, em Terra em Transe, revelam a complexidade do Cinema Novo, em especial de Glauber Rocha, e do denominado “cinema marginal” com suas transgressões estéticas. Enfocadas em diálogo com o cinema moderno (neorrealismo, cinema de autor, câmera na mão etc.), formariam as “alegorias do subdesenvolvimento” (título de livro de Ismail, demandando urgente reedição). Cabe a citação do crítico ao enfrentar questão dos entrevistadores da Revista Vintém (2007), sobre “certo descolamento da história no procedimento experimental alegórico de Glauber”. “Em Terra em Transe (1967), por exemplo, discute o golpe de 64..., um filme de crítica ao populismo no mesmo momento em que os sociólogos estão escrevendo sobre o populismo na América Latina. talvez se ajuste mais à teoria do drama barroco tal como feita por Walter Benjamin: ... A teatralização da política no filme é pensada em parâmetros barrocos, é uma crítica ao caráter ilusório daquela maneira de inclusão. Assim, quando faz aquela figuração do século XVII projetada nas personagens, ele coteja duas épocas históricas, a da formação do Brasil Colônia e a da vitória conservadora que, no século XX, evidencia a fragilidade de esquerda”.
Pobres e ricos
A segunda configuração crítica aparece em duas notáveis entrevistas em 2000, destacando-se a concedida a Ricardo Musse para a revista Praga, sobre o cinema brasileiro dos anos 90, de impacto significativo para o pensamento social crítico para além dos estudos estritos de cinema. As figuras do “pragmatismo dos pobres”, e “ressentimento dos ricos ou da classe média” rebatem, agora, no cenário de crescente despolitização e de um “desmanche” social, cultural e político em que se enredam as expressões estéticas cinematográficas. Aparecem nos filmes que encenam a guerra civil nas cidades, os cenários urbanos desconstruídos, a estetização e espetacularização da miséria e da violência, o “darwinismo social” que leva à descartabilidade de populações, entre outras. Neste contexto, canalizam-se os conflitos para o terreno da moralidade, as questões sociais são naturalizadas, e a empatia com as formas violentas se dá na proporção de sua própria espetacularização. Como mostra o autor: “Há um potencial dramático ligado a projetos de vingança adiados, remoídos, que encontra no cinema atual [2000] uma variedade de manifestações, tornando a figura do ressentimento um dado notável que vale explorar, quase um diagnóstico nacional”. Por um duplo movimento temporal, os filmes aparecem e reaparecem, num vaivém pela (re)significação de personagens, cenários, temas e enquadramentos. A perspectiva, no entanto, é dialética. Outros filmes da década, conquanto “raros ou exceções à regra”, despontam no contraponto trazendo ao debate “um cinema político que não exclui a alegoria e os temas centrais do período entre 1960 e 70”. Ainda outros, são significativos pelas configurações e reconfigurações do ressentimento, colocando-se, no entanto, ao avesso da espetacularização e impulsionando a capacidade crítico-reflexiva.
Cinema-ensaio
As entrevistas que seguem incorporam a complexidade de temas que envolvem as referências estéticas, históricas e teóricas da análise cinematográfica, e remetem ao que se pode ler como terceira configuração crítica em torno do “cinema-ensaio” e seus avessos. Retomadas na entrevista inédita a Adilson Mendes (2009), colocam em tela as novas estéticas que diluem as fronteiras entre documentário e ficção, ou as questões da representabilidade e os “efeitos do real”, as “matrizes melodramáticas” cada vez mais fixadas na sociedade do espetáculo, o uso proveniente das relações com as novas tecnologias (fotografia, vídeo, instalações etc.), para ficar entre poucas. Na impossibilidade de trazer a densidade das múltiplas reflexões sobre filmes, cineastas e autores, cabe exemplo de um dos múltiplos interesses atuais do crítico – os “processos de teatralização do encontro entre a câmera e os sujeitos colocados em foco” –, ou das relações do teatro no interior do cinema. Ismail concorda com os entrevistadores do coletivo da Companhia do Latão, quando apontam tendência atual a uma dramaturgia elementar em vários filmes: “um entendimento dualístico das relações entre indivíduo e história, sem relação dialética”. E é talvez nesta entrevista que cobra importância o tom provocador e inquietações partilhadas, quando demandam com urgência ao “nosso grande crítico de cinema”, incidência maior no debate que o “leitor de esquerda deseja”. A resposta indica o olhar voltado para as reconfigurações críticas nas relações entre estética e política: “É o que eu tenho tentado fazer... repensar estas questões... A política, no teatro, está sendo pensada de forma mais incisiva; esta inquietação nos desafia”.
[i] Roberto Schwarz, Sequências Brasileiras: ensaios, Companhia das Letras, 1999, p. 85.
ANA AMÉLIA DA SILVA é professora do departamento de sociologia e do programa de estudos pós-graduados em ciências sociais da PUC-SP.