

Clarificação da experiência estética
BENTO PRADO JR.
A publicação dos escritos mais "teóricos" de Mário Pedrosa é seguramente um acontecimento cultural da maior importância. Com efeito, sem a exumação de muitos deles e sua organização em torno de núcleos temáticos, seria difícil vislumbrar todo o alcance desta obra excepcional. Dispersa em diversas antologias, suplementos culturais e outros meios de publicação (lembremos que os escritos foram selecionados de "um acervo de quase 700 textos"), essa obra, finalmente reunida, começa só agora a tornar-se visível nos seus lineamentos de monumento único e consistente em todas suas diferentes faces.
Ao lado da imagem do crítico militante, ágil no seu corpo a corpo com o presente imediato e sempre outro, colado ao fio volúvel da vida artística, emerge o perfil do pensador que insiste, desde suas primeiras intervenções, em uma mesma problemática e interrogação, ainda que, ao longo de seu itinerário, se veja obrigado a modificar ou afinar seus instrumentos analíticos; no fundo, a reformular constantemente, obedecendo ao imperativo de uma mesma necessidade interna, a mesma pergunta que o obseda desde sempre. Uma pergunta de dupla dimensão: 1) onde encontrar, na teoria, a unidade da "produção" e da "percepção" estéticas, para além do divórcio que separa, em nossa experiência comum, a espontaneidade da construção, a sensibilidade do entendimento? 2) como devolver à arte, na crítica como na criação (recuperando a perspectiva reprimida do primitivo, do louco e da criança), sua vocação civilizadora, unificadora e redentora original, no horizonte unidimensional da vida contemporânea? Ou, na feliz expressão de Otília Arantes, como identificar "o avesso promissor da alienação"?
Uma pergunta teórica que não pode todavia ser desligada de sua situação no tempo e no espaço. Com este livro nas mãos, o leitor poderá levar a cabo duas tarefas diferentes, ambas indispensáveis para uma melhor consciência de nossa experiência contemporânea da arte e da cultura, caminhando em duas direções apenas aparentemente divergentes. Penso aqui nas dimensões "local" e "global" da empresa crítico-teórica de Mário Pedrosa, sua incidência nacional ou brasileira e sua vocação universalística.
Com efeito, é interna a ligação entre a obra crítica e a obra teórica: em outros termos, aqui a palavra "teoria" assume seu sentido mais forte, a especulação nasce da clarificação da experiência estética efetiva e vivida, o trabalho teórico não se reduz a uma bricolagem nocional ou a um ecletismo doutrinário. E essa clarificação da experiência efetiva é guiada também pela situação brasileira da criação artística.
Embora o livro só contenha escritos publicados entre 1947 e 1967, o longo e primoroso prefácio de Otília Arantes permite compreender essa fase crucial da indagação e do itinerário de Pedrosa sobre o fundo de sua vida intelectual, atravessada de ponta a ponta pela tensão que liga e opõe a dialética cultural brasileira ao movimento global da cultura e da sociedade contemporânea como um todo.
O prefácio reconstitui o percurso de Mario Pedrosa, anterior ao período recortado (os 20 anos do pós-guerra), dos estudos de filosofia em Berlim nos anos 20 até o exílio nos EUA, durante a Segunda Guerra, no qual, com a ajuda de Calder, entre outros, há de descobrir a "positividade" (ou a "negatividade"...) da abstração (reformulando uma escolha anterior essencialmente figurativista), na contracorrente dos melhores teóricos de nosso modernismo (Mário de Andrade, Sérgio Milliet etc), presos ao programa original de "figuração da nacionalidade" ou de redescoberta do Brasil, que no abstracionismo só viam puerilidade, formalismo vazio e decadência. Ao pensador cosmopolita ou internacionalista caberá promover uma atualização e aprofundamento da consciência crítica local: uma espécie de "revolução copernicana", uma visão ao mesmo tempo mais "abstrata" e mais "realista" (mais realista porque mais abstrata, diria o outro, pensando talvez no caráter real ou objetivo da abstração social pressuposta pela mimese artística) da estrutura e do lugar da cultura brasileira no mundo contemporâneo.
A teoria, insistamos, é o fruto espontâneo e necessário da escolha de deixar-se guiar pela experiência. Aliás, é o próprio Pedrosa que aponta como as inflexões de seu itinerário intelectual são, na verdade, expressão das inflexões da linha de desenvolvimento da própria arte moderna, como no caso da passagem da figuração para a abstração. Mas, acrescentemos, se o faro estético é condição necessária para a constituição dessa teoria, não é condição suficiente, já que não pode fazer economia de uma discussão cerrada com a ciência e a filosofia da percepção e da linguagem. Ora, o que há de excepcional na obra de Pedrosa é justamente essa rara e feliz combinação entre refinada sensibilidade estética -redobrada numa aguda sensibilidade ético-política, essa consciência clara de que o conteúdo da arte é a promessa da emancipação, sinal dos "horizontes longínquos da utopia"- e uma sólida cultura científica e filosófica.
Uma cultura que começou a ser acumulada nos anos de estudo na Berlim da década de 20 (época de ouro da universidade alemã, logo atropelada pela história). Foi lá que se familiarizou com a "Gestalttheorie", que tanto marcaria seu esforço teórico, bem como marcara Ernst Cassirer, que conviveu e trabalhou (mesmo nos estudos em laboratório sobre neurologia) com os teóricos da forma, e Merleau-Ponty (em boa parte por intermédio de Cassirer). De alguma maneira, antes mesmo de ler Cassirer e Merleau-Ponty, Mário Pedrosa estava condenado a cruzar com eles na reflexão sobre a arte, na medida em que, desde o início iniciara seu trabalho reflexivo sobre os "mesmos temas e com instrumentos semelhantes". Sua tese de 1949, "Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte", não será portanto o resultado de uma assimilação tardia e passiva de uma bibliografia consagrada academicamente, mas a cristalização madura de um esforço autônomo de pensamento; não se engane, caro leitor, com Mario Pedrosa não temos apenas um universitário (que aliás jamais foi propriamente) bem-informado, mas um autêntico "Kulturtrager". É o que podemos verificar facilmente, aliás, se atentarmos para a diferença do "uso" que ele e Merleau-Ponty fazem de Cassirer. Todos os três filósofos apóiam-se na "Gestalttheorie", mas logo dela se distanciam, por nela identificarem uma recaída no objetivismo e mesmo no fisicalismo. Se Merleau-Ponty leva a cabo tal crítica de maneira muito fina, não deixa de ser algo injusto com Cassirer, ao denunciar o "intelectualismo" da "Filosofia das Formas Simbólicas". Haverá, de fato, "intelectualismo" na "Crítica da Faculdade de Julgar", de Kant, e em Cassirer? Será preciso corrigi-la por uma fenomenologia da percepção? Tal empresa fenomenológica sistemática, além de problemática, no seu fascínio romântico pelo "vivido", parece ser dispensável para Pedrosa, que nos convida simplesmente a um retorno à terceira "Crítica", antecipando as observações de G. Lebrun sobre Merleau-Ponty em "Kant e o Fim da Metafísica" (págs. 340-1). Mas um sinal ainda mais surpreendente da acuidade da visão filosófica de nosso autor encontra-se nas suas "Especulações Estéticas", publicadas em 1967 no "Correio da Manhã". Em "O Conflito entre o 'Dizer' e o 'Exprimir"', Mário Pedrosa faz uma aproximação entre Merleau-Ponty e Wittgenstein (o da segunda fase) que, na época, seguramente deve ter soado como particularmente estranha, não somente no Brasil, mas até mesmo para seus discípulos europeus da época. Hoje, tais convergências (crítica, por exemplo, da idéia de uma exterioridade ou anterioridade do pensamento em relação à sua expressão linguística, crítica da idéia de "mapa cognitivo", anterior à práxis, afirmação do caráter "fisiognômico" ou "atmosférico" da significação) podem parecer menos paradoxais. Mas observá-lo em 1967 era prova de uma rara lucidez filosófica.
Quando, na década de 70, eu sugeria a Otília Arantes que consagrasse sua tese de livre-docência à obra de Mário Pedrosa (foi ela mesma, que acabou por fazer bem mais que uma tese, que mo lembrou recentemente), não suspeitava da amplitude do alcance dessa obra e do grande acerto de minha sugestão. Mas gostaria de poder acreditar que minha obscura percepção, esse faro não amparado, infelizmente, por melhor conhecimento, teve algo a ver com a iniciativa desse grande trabalho que todos nós devemos a Otília.