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Sheila Schvarzman - 68 - Fevereiro de 2000
Cinematógrafo
Foto do(a) autor(a) Sheila Schvarzman

Cinematógrafo

Mário Peixoto
Escritos Sobre Cinema

Saulo Pereira de Mello (Org.)
Aeroplano/Arquivo Mário Peixoto (Tel.0/xx/21/529-6974)
208 págs., R$ 18,00

Mário Peixoto fez "Limite", escreveu alguns roteiros que não filmou e, na ausência de novos trabalhos, se fez personagem e enigma. Saulo Pereira de Mello, restaurador de "Limite" e estudioso apaixonado do diretor, traz a público agora os quatro únicos textos de Peixoto sobre cinema. Três deles foram escritos a pedido de Pedro Lima, o crítico que procurava influir nos rumos da inativa carreira do amigo. O mais significativo é certamente "Um Filme da América do Sul", que o diretor atribuiu a Eiseinstein, um "achado" cujo original nunca foi capaz de localizar. Como nota Mello, esse texto foi realmente escrito por Peixoto, já que, mesmo se pondo na pele do cineasta russo, são suas as concepções cinematográficas e as idéias que aparecem cristalinas. Em "Cinema Caluniado" (1937), é possível conhecer a produção e o meio cinematográfico nacional a partir dos olhos exigentes, solitários e ressentidos desse cineasta de um filme só: "Uma Sentimental e Mambembe Companhia de Circo".

O Cinema como "Agitador de Almas"
Cláudio Aguiar Almeida
Annablume (Tel. 0/xx/11/ 3812-6764)
250 págs., R$ 22,00

O livro tem o mérito de recolocar a partir do cinema a discussão sobre a influência do positivismo na cultura e na formação política nacional e sua relação com o Estado Novo. Ao analisar "Argila", de Humberto Mauro, realizado em 1940 com a colaboração do antropólogo Edgar Roquette Pinto, então diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, Aguiar associa muitas das crenças do positivismo ao ideário de 30 e vê no filme a expressão de "uma cena do Estado Novo".
Se esse ordenamento que o autor enxerga nas imagens parece fazer sentido com o que se conhece sobre o esse período, na tela algo não bate com sua análise. Na visão marcadamente política de Aguiar, que atribui a Mauro e Roquette, indiferenciadamente, o estatuto de diretores, a caracterização dos personagens e suas ações é interpretada unicamente como expressão de uma ideologia. Esse procedimento, se ilumina a forma como se procurava fazer com que os filmes construíssem o visível para determinar o real, encobre quase inteiramente a fatura cinematográfica de Mauro, que subverte esses sentidos pela humanidade dos personagens, que resistem em aderir às certezas de um único ideário.

Narrativa e Modernidade - Os Cinemas não Narrativos do Pós-Guerra
André Parente
Papirus (Tel. 0/xx/19/3672-7578)
156 págs., R$ 24,90 

Depois de todas as contribuições e descaminhos da semiologia para a compreensão ou obscurecimento da linguagem cinematográfica, André Parente põe a mão no vespeiro e critica seu mestre e ex-orientador Gilles Deleuze, afirmando que "o fílmico não se opõe ao narrativo, e que narrativa e imagem são uma única e mesma coisa".
A questão central de Parente é a afirmação de que a narração cinematográfica é passar de uma imagem a outra, e não, como pretendem os estudos semiológicos, de um enunciado a outro. Dessa forma, "Narrativa e Modernidade", dissolve as oposições entre um cinema dito narrativo -e assimilado como clássico- e um cinema não-narrativo -associado à idéia de moderno (e não linear). A partir dessa postulação, a crítica se desloca das questões que dividem o imagético e a narração, se centrando na relação entre imagem e a definição deleuziana de acontecimento.

Cinema Brasileiro Anos 60/ 70 - Dissimetria, Oscilação e Simulacro
Cláudio da Costa
Sette Letras (Tel.0/xx/21/540-0037)
164 págs., R$ 19,00



O trabalho de Cláudio da Costa está na margem tênue que separa um ensaio teórico de um trabalho de criação narrativa, em que as imagens, mais do que objeto de estudo, são também alavancas para associações errantes que procuram reunir, numa mesma análise, noções técnicas, formais e históricas. Centrando sua observação nas obras de Glauber Rocha e Júlio Bressane, mas regredindo até a Vera Cruz, momento anterior e oposto àquele que persegue, procura caracterizar momentos de ruptura da cinematografia nacional, a partir de noções como dissimetria, oscilação ou simulacro, ótica inspirada por Gilles Deleuze e Ismail Xavier. Se o percurso é formal, os conceitos se imbricam com a história. É assim que se pode entender e questionar o seu conceito de "imagem cordial", aplicado à produção da Vera Cruz, no qual observa a "simetria dos domínios", em oposição ao que caracteriza como "controle da fuga", elementos, ao contrário, definidores do discurso glauberiano. Esse percurso o leva a concluir que nos anos 60 e 70 houve uma desestetização do cinema brasileiro.
SHEILA SCHVARZMAN

 

Sheila Schvarzman é professora titular do programa de pós-graduação em comunicação na Universidade Anhembi Morumbi.
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