

Cérebro, emoção e razão
JOÃO PAULO MONTEIRO
O ERRO DE DESCARTES
António Damásio Europa-América, 310 págs. R$ 44,85
António Damásio é um cientista português que pesquisa e ensina nos Estados Unidos, e seu O Erro de Descartes" é um livro científico com grande alcance filosófico. Autor e obra situam-se ambos em encruzilhadas: uma delas, a do destino de quase metade dos portugueses, de sempre sair da terra-mãe para poder talvez um dia voltar; a outra, a do destino do saber humano, que há séculos oscila entre as descobertas da ciência e as invenções da filosofia.
Acaba de sair a edição portuguesa, e o livro já se vende aos milhares. É um exemplo raro de apresentação de resultados científicos numa forma que, sem ser popular", se torna acessível ao leitor sem formação científica ou filosófica. E como oferta suplementar vem o interesse que esta obra tem para a filosofia, na crítica do que o autor chama o erro" de Descartes. Ou seja, na defesa do caráter essencial dos sentimentos para o raciocínio, tornando impossível separar radicalmente o pensar e o sentir, como faziam os cartesianos e outros filósofos clássicos, e fazem ainda muitos dos atuais.
Isto já por si pode fazer sobressaltar os corações filosóficos paulistas, formados na tradição interpretativa do estruturalismo francês (Guéroult, Goldschmidt), uma tradição avessa a sequer admitir que nos grandes filósofos do passado haja propriamente erros". Haverá, talvez, erros científicos, mas cada filosofia é uma linguagem" (sempre dizia, e bem, o meu mestre Gérard Lebrun) e o que conta é a genialidade da sua construção interna, não a sua capacidade para enfrentar os testes da experiência. A esta luz, o epíteto mínimo de que Damásio parece tornar-se merecedor é o de iconoclasta.
Mas, para a maioria, iconoclasta não é palavrão, é elogio. Julgue o leitor se ele o merece -lendo o livro, mas começando desde já por saber que a argumentação damasiana está centrada na análise científica de observações e experiências realizadas na área das neurociências, particularmente a neurologia. O ponto de partida é a discussão de um caso antigo, o de um homem que sofreu uma lesão na região frontal do cérebro, e sobreviveu manifestando formas de comportamento que nos convidam a rever os conceitos que temos a respeito do raciocínio humano, notadamente no que diz respeito aos processos de tomada de decisões.
Outras vítimas mais recentes de acidentes análogos apresentam a mesma sintomatologia, sempre mostrando que, em muitos casos, a perda da capacidade de raciocinar corretamente é acompanhada pela perda de certas formas da capacidade de experimentar emoções e sentimentos. Nada indica qualquer cartesiana autonomia da razão". O ser humano é uno e complexo, unidade e complexidade que dependem de todo o aparelho neurocerebral que a natureza nos deu, e dessa complexidade resulta uma trama inextricável e inseparável de pensamentos e emoções, de raciocínios e sentimentos.
Como diz o autor no início do último capítulo, os fatos científicos apresentados no livro sustentam a hipótese de que os sentimentos têm uma poderosa influência sobre a razão e que os sistemas cerebrais que regem tanto os primeiros como a segunda estão interligados e se afetam mutuamente. Embora sempre ressalvando que se trata apenas de hipóteses (como aliás é o caso em toda ciência bem concebida), Damásio não deixa de avançar com alguma firmeza as suas conclusões principais: Os sentimentos parecem depender de um sistema multicomponente, que é inseparável da regulação biológica. A razão parece depender de sistemas cerebrais específicos, alguns dos quais acontece processarem sentimentos". O que nitidamente aponta para a existência de um forte vínculo ligando a razão aos sentimentos e ao corpo.
É a natureza em nós, a fazer-nos como somos, tal como a vida em sociedade e a inserção numa cultura também nos fazem como somos. Mas a construção social e cultural do eu não se faz sobre uma tábua rasa (empirista? marxista?) e sim sobre um fundo neurobiológico. Trata-se, como há anos sugeria Edgar Morin, de recuperar esse paradigma perdido" que é o conceito de natureza humana, mas desta vez assente na argumentação que nos vem do lado das neurociências. Com este livro, como comenta um professor de Harvard citado na contracapa da edição americana (Putnam's Sons, 1994), David Hume deve estar sorrindo". Pois, além de nos fazer pensar no seu Tratado da Natureza Humana", ele é uma continuação distante de uma crítica das concepções cartesianas da racionalidade, que teve nesse filósofo escocês um dos seus mais importantes e mais lúcidos representantes.
Damásio não se lembrou de evocar o conceito humeano da razão como paixão calma", um conceito que implica já a recusa de qualquer separação radical entre a esfera das emoções e a das decisões racionais, mas há no seu livro, além de um interessante conceito de paixão pela razão", como que um resgate dessa velha teoria da natureza humana, no papel atribuído aos sentimentos nessas decisões e na capacidade de raciocínio de que elas dependem. É a neurobiologia a sugerir caminhos para a filosofia, sejam novas trilhas de pesquisa, na linha do Daniel Dennett de Consciousness Explained"(A Consciência Explicada"), e outras obras de inspiração naturalista, seja, como no caso indicado, o retorno a fontes de inspiração que já há mais de dois séculos apontavam também os erros de Descartes".
As emoções constituem, segundo Damásio, um sistema básico sem o qual não é possível ao sujeito humano, em muitos casos, proceder a raciocínios corretos. E esse sistema torna-se possível graças ao funcionamento de determinada zona frontal do cérebro, embora o autor recuse o regresso à ideia de localizações precisas, como as pretendidas por Broca. Não deixa, no entanto, de ser também posta de lado qualquer sugestão simplista de que o cérebro simplesmente funcione como conjunto". É importante considerar o conjunto, mas sem esquecer as provas científicas de que é na área frontal, e não por exemplo na parietal, que se situam os sistemas neurocerebrais responsáveis por certas emoções e pelos raciocínios ligados à decisão, inseparavelmente. O que mostra mais moderação do que a do próprio Descartes, que, como é sabido, pretendeu apontar uma localização extremamente precisa para a união da alma e do corpo, na famosa (ou notória) glândula pineal".
A inspiração naturalista que anima este livro, afinal, era em parte já a de Descartes. Talvez tenha sido a tradição dominante na interpretação deste filósofo, aliás, a responsável por valorizar menos os seus tratados científicos do que as suas puramente filosóficas" Meditações Metafísicas". Não é só no século 20 que a filosofia e a ciência se encontram, como insistem alguns dos maiores filósofos contemporâneos, de Neurath a Quine, no mesmo barco do saber humano -um barco que vai sendo sempre aumentado e reconstruído pela colaboração de cientistas e filósofos, sem que qualquer dos lados possa pretender possuir os fundamentos" do trabalho dos outros.
Não podemos saber qual a direção das pesquisas que no futuro virão a ser feitas a partir dos caminhos desbravados pela obra de Damásio. Como Popper gostava de dizer, se soubéssemos hoje qual é a ciência do futuro ela não seria do futuro, pois a teríamos hoje... O mesmo se pode aplicar à filosofia. Mas o que vier a ser escrito sobre o pensamento humano e a natureza dos seus processos essenciais não poderá legitimamente ignorar as sugestões deste livro científico, quer se trate de pesquisas em ciências cognitivas ou de trabalhos mais puramente filosóficos.
O próprio conceito de pensamento poderá talvez incorporar os aspectos emocionais que subjazem a alguns dos seus processos mais típicos -ou talvez não venha a ser exatamente assim. Mas, pelo menos, os argumentos de Damásio têm o direito de exigir que essa possibilidade seja levada em conta. Se assim for, será mais um entre muitos casos onde, convivendo alegremente no barco de Neurath, ciência e filosofia se dão as mãos para dar mais um passo na construção do saber humano.