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José Ricardo Ramalho - 108 - Junho de 2016
Cartografia do proprietário
Ensaios desvendam características da estrutura social no Brasil
Foto do(a) autor(a) José Ricardo Ramalho

JOSÉ RICARDO RAMALHO

Cartografia do proprietário

Ensaios desvendam características da estrutura social no Brasil

 

ATLAS DA NOVA ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL NO BRASIL, VOL. 3

PROPRIETÁRIOS – CONCENTRAÇÃO E CONTINUIDADE

Marcio Pochmann, Ricardo Amorim, Alexandre Guerra, Ronnie Aldrin (orgs.)

CORTEZ

206 p., R$ 36,00

 

Estudos com o objetivo de desvendar as características da estrutura social brasileira são sempre oportunos, principalmente em função das transformações ocorridas nas últimas décadas, com o crescimento das cidades e o desenvolvimento de novas formas de trabalho. Iniciativas como as do Atlas da nova estratificação social no Brasil tem, neste sentido, muita utilidade.

O volume três da série é dedicado aos agentes econômicos classificados como proprietários. Reunindo dados oriundos de levantamento bibliográfico e do IBGE (Censo, PNAD e Pesquisa de Orçamentos Familiares), os organizadores e autores acabam mostrando um quadro de grande diversidade.

A segunda parte do livro (capítulos 5 e 6) é, sem dúvida, a mais reveladora. O esforço de juntar informações sobre a distribuição espacial e classificação dos proprietários como grupo especifico, a partir dos dados oficiais, representa uma contribuição significativa para análise da estratificação social no país. A opção de classificá-los de acordo com “o tipo de ativo possuído” em cinco subcategorias – proprietários de empresas; de imóveis residenciais; de renda de aluguel; de ativos financeiros; e do conhecimento – resultou em uma série de tabelas segmentadas pelas características dos diferentes tipos de proprietários, deixando claras as grandes diferenças entre eles.

 

Dificuldades de método

Corretamente, os autores identificam dificuldades metodológicas na ordenação da estrutura social por classes ocupacionais e renda. Nos dados do IBGE aparecem sob a categoria dos empregadores tanto os proprietários que empregam mais de dez assalariados quanto os pequenos empreendedores, que representam 83% dos proprietários brasileiros e que empregam até dez assalariados. Os autores alertam também para a existência de “novas formas de produção ligadas ao enorme fluxo de informações”, como por exemplo o trabalho imaterial, que implicam a necessidade de renovar também “as definições de propriedade e de acumulação de riqueza”.

Os dados demonstram que a composição da classe proprietária no Brasil comporta uma evidente distinção entre estratos mais ricos e estratos intermediários. Chama a atenção, o fato que, se olhados em conjunto, o comportamento e as escolhas dos proprietários em relação ao consumo e ao gasto são mais próximos aos da classe média, e o fato que a maior parte dos proprietários trabalha, não tem renda elevada, e não está ligada à elite dirigente ou dominante.

Informações de grande valia aparecem quando são cruzados os dados sobre propriedade e consumo na cidade e no campo. Percebe-se, por exemplo, que a maior renda, em reais, não está na Região Sudeste, mas no Sul. Lá os proprietários percebem em média R$ 4,9 mil por mês, enquanto no Sudeste essa renda fica em R$ 4,5 mil. Os proprietários do Norte e Nordeste recebem, em média, respectivamente, R$ 2,9 mil e R$ 3,0 mil mensais.

Já na seção sob o título de “Mapeamento geográfico dos proprietários no Brasil”, o leitor é brindado com um elucidativo conjunto de mapas contendo a distribuição dos proprietários pelos diversos estados da federação e pelas regiões, conforme a posição nas categorias delimitadas.

O trabalho como um todo é feito com seriedade, mas a construção dos argumentos aparece de forma desigual ao longo dos capítulos. A proposta de “oferecer uma cartografia dos proprietários no Brasil” e o reconhecimento das dificuldades metodológicas de dimensionar esse grupo são antecedidos por uma análise da categoria “ricos” e do processo “escandaloso” de acumulação capitalista e de concentração de renda que gera desigualdades social e política.

O resumo de autores e de textos nos primeiros capítulos é muito genérico e se destina a explicar as categorias de propriedade e proprietários na sociedade capitalista, e didaticamente demonstrar as mazelas da exploração desse sistema por meio dos “direitos de propriedade sobre os meios de produção e contratação de mão-de-obra no mercado de trabalho”.

A parte referente ao contexto brasileiro está baseada em um apanhado bibliográfico de várias orientações (Celso Furtado, Florestan Fernandes, Caio Prado Junior, Raymundo Faoro, entre outros). Nesse resumo, “proprietário” seria basicamente um símbolo da concentração de riqueza e renda, e controle do poder político, desde o período colonial, com o “patrimonialismo”, até a República, que com a “Revolução de 1930”, propicia “uma nova fase econômica na produção e reprodução dos proprietários urbanos, especialmente com apoio estatal”. Há também outras referências históricas, com menção ao “ciclo de industrialização” no qual “as classes proprietárias sofreram profunda modificação”, e com o crescimento dos serviços nas áreas urbanas.

Ao final, embora o leitor fique com a impressão de que a análise das tabelas formuladas a partir dos dados do IBGE pudesse ter sido mais aprofundada, e sinta falta de uma boa conclusão, o livro acaba por contribuir, ao apresentar estas novas elaborações estatísticas, para o propósito de entender melhor esse estrato social, ainda carente de interpretações sobre seu papel na sociedade brasileira. 

José Ricardo Ramalho é professor e pesquisador do programa de pós-graduação em sociologia e antropologia da UFRJ e autor de Estado patrão e luta operária – O caso FNM (Paz e Terra).
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