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Flávio Moura - 108 - Junho de 2016
Cartesianismo e design
Um olhar panorâmico sobre a cultura brasileira dos anos 1960
Foto do(a) autor(a) Flávio Moura

Flavio Moura

CARTESIANISMO E DESIGN

Um olhar panorâmico sobre a cultura brasileira dos anos 1960

 

INTELIGÊNCIA BRASILEIRA – UMA REFLEXÃO CARTESIANA

Max Bense

Tradução: Tércio Redondo

COSAC NAIFY

120 p., R$ 39,00

 

 

As condições que favoreceram o florescimento da cultura brasileira no fim dos anos 1950 e começo dos anos 1960 são objeto freqüente de atenção. As grandes realizações do período costumam ser vistas em paralelo com as promessas do nacional-desenvolvimentismo, como se a carga utópica supostamente embutida nos anos pré-golpe de 1964 se cristalizasse na Bossa Nova, nos livros de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, no neoconcretismo, na construção de Brasília, no futebol campeão do mundo.

O paralelo já rendeu leituras importantes, como o ensaio de Roberto Schwarz sobre Antonio Candido, o de Lorenzo Mammì sobre João Gilberto, o de José Miguel Wisnik sobre Pelé (1). Mas também está na base de uma visão idealista do período, que tende a assumir as qualidades em bloco e rejeitar as especificidades de cada objeto, como se houvesse um “espírito do tempo” a unificar as contribuições.

Inteligência brasileira, do filósofo alemão Max Bense (1910-1990), ilustra bem essa inclinação. O livro concentra platitudes há muito ventiladas sobre aqueles anos e reforça a idéia de momento iluminado das artes brasileiras. Sobram generalizações e elogios lapidares neste pequeno volume de 1968, recém-lançado em português.

Bense esteve no Brasil quatro vezes, entre 1961 e 1964, a convite do Ministério das Relações Exteriores. Teve João Cabral de Melo Neto como cicerone, freqüentou o círculo de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, visitou Brasília, deu curso na Escola Superior de Desenho Industrial. O livro reúne as impressões colhidas nessas vindas ao país, num formato que mistura diário de viagem, aforismo poético e doutrina estética. O autor lança um olhar panorâmico sobre a produção cultural brasileira, num esforço para mostrar aos europeus que existe vida inteligente nos trópicos.

 

Cartesianismo e design

Parte expressiva de sua atenção é dedicada a Brasília. A capital recém-construída é “a primeira expressão visível de um cartesianismo na forma do design”. Entendido como nexo entre as dimensões técnica, artística e industrial, o design é a chave para a idéia de uma “civilização futura”, e Brasília, a síntese por excelência do “design total”. É nessa toada que ele se permite a conclusão de que “a substituição do humanismo pela idéia do urbanismo é a característica específica da inteligência brasileira”.

O mal-estar causado pelo livro decorre desse tipo de enfoque. Incomoda não apenas o topete filosofante, que eleva a máximas grandiloquentes impressões cultivadas em almoços com funcionários do Itamaraty, mas o olhar paternalista que se arvora a falar em nome de uma “inteligência brasileira”, cujos contornos ele não se preocupa em definir.

As distinções entre os artistas desaparecem. A literatura de Guimarães Rosa, a escultura de Bruno Giorgi, a pintura de Volpi, a poesia concreta, todas surgem como manifestações igualmente férteis da “inteligência brasileira”. Mas a qualidade não é aferida a partir de uma leitura interna. Basta a indicação de que representam a síntese entre um “espírito cartesiano” e um “espírito tropical”.

Este o traço que parece decisivo a Max Bense: o tempero tropical que dá frescor ao olhar cansado do europeu. Não é preciso ser autor de uma teoria estética para chegar a essa conclusão.

Não se trata de questionar a pertinência da publicação. O livro tem relação com a história cultural do país e é de estranhar que não tenha sido traduzido para o português quando lançado no idioma original, no fim dos anos 1960, época acostumada a leituras imanentes e em que as perorações de Bense causariam menos estranhamento.

Também não é trabalho feito unicamente de abstrações. Aqui e ali aparecem pistas que pesquisadores atentos podem aprofundar: em jantar na casa de Bruno Giorgi, por exemplo, Bense identifica a figura de Volpi, indício que contraria a fama de artista alheio ao círculo de pares cultivada por parte da crítica. Ao apresentar Bense às instalações do Itamaraty, Guimarães Rosa assume um ar oficialesco e empertigado que nada tem a ver com a imagem corrente do autor de Grande Sertão: Veredas

Não faltam pregações sobre a “autonomia do estético” que podem parecer datadas ao olhar contemporâneo. A palavra nos poemas concretos, sustenta o autor, tem de ser vista em sua posição “apofântica” e empregada de maneira “acentuadamente indexical”. Mas as posições de Bense são as que se espera de um autor formado na tradição semiótica e mentor do concretismo brasileiro – o primeiro contato com Bense foi feito por Haroldo de Campos, em 1959. O que destoa no livro, portanto, não é o pendor estetizante, mas o fato de que mesmo no registro formalista as apreciações críticas soem ralas e apressadas.

Ainda que o autor despreze o mundo social, a moldura histórica permanece. O tratamento em bloco da “inteligência brasileira” aponta nessa direção, ao sugerir um fundo comum às manifestações artísticas. O mesmo vale para a imagem de Brasília, presente no livro como ícone maior da época e da ousadia dos artistas brasileiros. O problema é que a moldura serve menos à veia analítica que ao paternalismo e à mistificação. E disso a crítica sobre o período está cheia.

 

Nota

(1) Schwarz, R. “Os sete fôlegos de um livro”, in Seqüências brasileiras. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. Mammì, L. “João Gilberto e o projeto utópico da Bossa Nova”, in Novos Estudos Cebrap, n. 34, 1992. Wisnik, J. M. Veneno remédio. São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

Flávio Moura é jornalista.
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