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Heloisa Starling - 73 - Abril de 2001
Caminho torto
Obras mostram vigor e pluralidade da produção crítica sobre João Guimarães Rosa
Foto da capa do livro Guimarães Rosa - Do feminino e suas histórias
Guimarães Rosa - Do feminino e suas histórias
Autor: Clausa Rios P. Passos
Editora: Hucitec - 248 páginas
Foto do(a) autor(a) Heloisa Starling

Em uma crônica escrita em 1962 para saudar a publicação de "Primeiras Estórias", de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade insistiu na estranha singularidade de um projeto literário preocupado em recriar, pelo caminho da ficção, imagens de um mundo que nunca se apresenta por inteiro e escapa sempre ao olhar dos homens pelos meandros da linguagem e da escrita: "E mais uma vez não facilitem com o Rosa; ele diz sempre outra coisa além do que está dizendo".

O caminho torto ou enviesado desse projeto pode ajudar a compreender o particular destino de uma obra, muito complexa, marcada por inovações linguísticas, filológicas e por um processo, único no Brasil, de revitalização da linguagem narrativa -mas que, ao mesmo tempo, possui uma vigorosa capacidade de transbordar do mundo acadêmico e crítico-literário. Esse sucesso sistemático produziu um Guimarães Rosa quase "star", que vende livros em grande quantidade, atrai a mídia em qualquer circunstância e provoca uma série constante de novas leituras de sua obra por parte do teatro, do cinema, da televisão, das artes plásticas e, em especial, da música popular, curiosamente impregnada da retórica do escritor.

Estranheza
Mas o caminho de um projeto literário como o de Guimarães Rosa, fundado na heteronomia do mito, no impulso ficcional de inscrever no cotidiano dos homens as possibilidades ainda latentes de uma determinada realidade, convidando-os a imaginar que as coisas no mundo poderiam ser diferentes do que realmente são, também provoca estranheza, muita estranheza. Ao menos em parte, essa estranheza ajuda igualmente a entender o interesse numericamente significativo das várias correntes de fortuna crítica que se formou ao longo dos anos sobre sua obra e que, cada vez mais, povoa de novos títulos o mercado editorial.
Os livros publicados por Cleusa Passos, João Hansen, Osvando J. de Moraes ("Grande Sertão: Veredas - O Romance Transformado", Edusp, 276 págs., R$ 27,00) e Walnice Nogueira Galvão ("Folha Explica Guimarães Rosa", Publifolha , 85 págs., R$ 9,90) demonstram, cada um a seu modo, o vigor e as potencialidades dessa produção crítica recentemente editada, sobretudo no que se refere às possibilidade de exploração de suas matrizes temáticas hegemônicas -nas quais as análises oscilam entre o sentido de ruptura que a obra de Guimarães Rosa introduziu no sistema linguístico e na estrutura narrativa da ficção brasileira e a preocupação em escapar da realidade histórica e política do país, capturando, no universo das imagens produzidas por sua narrativa, apenas a força constitutiva do simbólico e do mitológico, das práticas esotéricas e alquímicas ou das experiências místicas e religiosas.
Assim, do livro de Cleusa Passos emerge, com a fidalguia e a ambiguidade que o assunto sugere, a possibilidade de explorar toda uma linha de fios e tramas que pretende desenredar, pelo argumento da psicanálise, os perfis e as escolhas das mulheres nas narrativas de Guimarães Rosa. Uma estratégia até então pouco frequente na fortuna crítica, mas certeira, sobretudo no caso de uma obra que interroga, de maneira implícita e cruel, as características, expectativas e potencialidades de um mundo masculino para produzir, por exemplo, a história de Riobaldo e Diadorim, a mais impressionante história de amor da nossa literatura, e inscrever, no centro dessa história, o preço que se paga nas possibilidades de deslocamento e de interpenetração dos territórios femininos e masculinos na modernidade.
Entretanto a opção do livro de Cleusa Passos não é tanto a de investigar esse estranho destino comum às mulheres do sertão de Guimarães Rosa. Ela procura, principalmente, os efeitos de diferença reservados para cada uma dessas mulheres em cada narrativa: as prostitutas, aparentemente donas de seus amores e sua história; as mães submissas e doloridas; as travestidas, onde a feminilidade é máscara; as moças sertanejas quietas, contidas, quase resignadas; as astuciosas, que contam intermináveis e sedutoras histórias de autoproteção. Em boa medida, essa opção permite à autora vislumbrar, no rosto das personagens, os traços do feminino provocados pela ambiguidade fundamental da linguagem do escritor, sempre cambiante, sempre em transformação, sempre em movimento.

Escritura nômade
A idéia de que o projeto literário de Guimarães Rosa pode alimentar uma sobredeterminação da ficção, por meio de uma escritura nômade que se funda como constante desvio, alimenta o tema central do livro de João Hansen. Esse conceito forte de uma linguagem que escreve a si mesma, vale dizer, capaz de saciar suas conexões e, novamente, de se deixar livre, funciona, no texto de Hansen, como uma espécie de operador de vários conceitos, como, por exemplo, os de leitura ou alegoria, mas sempre redirecionado para potencializar (ou revelar a supressão) de um outro cultural, sem voz e sem imagem, que ainda não falou diretamente -o sertão.
Apesar de todos os riscos que uma tal empresa decerto encerra, a escolha de Hansen por perseguir essa linguagem absolutamente singular, proveniente de algo que ainda não fala, permite uma reflexão justaposta acerca do caráter simbólico da escritura de Guimarães Rosa e do processo de conversão do mitológico em mito. Um agenciamento de efeitos com o objetivo rigorosamente político de produzir o indeterminado, vale dizer, aquilo que, ao fim e ao cabo, faz falar e indica, com isso, o intenso fluxo de discursos que se devoram e se sustentam, uns aos outros, no imaginário de um país como o Brasil, em que o silêncio de todas as exclusões é profundamente acentuado.
Entretanto a marca de força dessa escritura dissonante, que recusa cânone, forma e regra, como indica Hansen, funciona também como o principal desafio para quem pretende executar um exercício de tradução intersemiótica da obra de Guimarães Rosa, caso do livro de Osvando Morais. Assim, retomando os principais pólos de entrave para a transposição da obra literária em mídia televisiva -forma e imagem-, o trabalho de Osvando Morais pretende perseguir as etapas de criação do roteiro da minissérie "Grande Sertão: Veredas".
O resultado de seu esforço combina uma criativa avaliação das soluções técnicas adotadas para a construção da frase televisiva com questões resultantes da necessidade de operar uma passagem de método extremamente complexa. Essa combinação não poderia ser mais oportuna, já que, na prática, significa enfrentar, de maneira original, as cadeias de mediação entre o domínio absoluto da palavra na narrativa de Guimarães Rosa, a impressionante estrutura de concisão, ritmo temporal e recriação onírica, própria da imagem cinematográfica e/ou televisiva, e a atenção pontual, intercalada, flutuante da recepção tão característica do veículo televisão, bem como as razões das opções moralistas e esteticamente redutoras do texto original adotadas pelo percurso televisivo.

Introdução a Rosa
Após diversos outros livros sobre a obra de Guimarães Rosa -como "As Formas do Falso" (Perspectiva, 1972), ensaio precursor sobre as formas sociais e de poder consolidadas durante os primeiros 50 anos da república brasileira e presentes em "Grande Sertão"-, Walnice Galvão publica "Guimarães Rosa", na coleção "Folha Explica", breve incursão que pretende indicar caminhos introdutórios aos escritos desse autor.
Ao retomar sobretudo as matrizes hegemônicas de interpretação da obra de Guimarães Rosa, o livro de Walnice é particularmente útil aos leitores interessados na trajetória das várias interpretações preocupadas em explorar, por intermédio do texto de ficção, as dimensões históricas e/ou sociológicas de uma realidade histórica e cronologicamente datada. Da mesma forma, enfatiza, de maneira sólida, os diversos significados das experiências míticas e simbólicas que transformam o estatuto ficcional do sertão no lugar da experiência metafísica do humano.
Entretanto talvez a grandeza do projeto literário de Guimarães Rosa esteja também em sua disposição para pensar poeticamente os tempos e espaços de modernidade que se desenrolam num subúrbio chamado Brasil, por meio de um colar de fragmentos arrancados de seu contexto histórico bruto, muitas vezes esquecidos há tempos na escuridão do passado, transfigurados em palavras que sustentam a narrativa. Afinal, e como ele próprio diria, "vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente, por enquanto, só a lê por tortas linhas".


Heloisa Starling é professora na Universidade Federal de Minas Gerais e autora, entre outros livros, de "Lembranças do Brasil -Teoria Política, História e Ficção em "Grande Sertão: Veredas'" (Revan).



O o a ficção da literatura em Grande sertão
Autor: João Adolfo Hansen
Editora: Hedra - 198 páginas
Heloisa Starling é professora do departamento de história da UFMG.
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