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Laura de Mello e Souza - 105 - Junho de 2009
Calabar de batina
As várias identidades do jesuíta paulista Manoel de Moraes
Foto do(a) autor(a) Laura de Mello e Souza

Calabar de batina

LAURA DE MELLO E SOUZA

 

As várias identidades do jesuíta paulista Manoel de Moraes

 

Traição – Um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição

Ronaldo Vainfas

Companhia das Letras

302 p., R$ 47,00

 

Figuraça, este Manoel de Moraes, estrela do último livro de Ronaldo Vainfas, e que até agora só havia merecido menções ligeiras da grande historiografia –Robert Southey, Francisco Adolfo de Varnhagen, Capistrano de Abreu –, além de um ou outro escrito mais vertical de estudiosos do mundo paulista, como Afonso Taunay e Paulo Setúbal.

Nasceu em Piratininga quando o século 16 findava (1596), fruto mestiço de famílias que já iam ganhando prestígio local graças à preação de índios e às correrias sertão adentro, atuando na linha indistinta entre o lícito e o ilícito, o vício e a virtude, a fidelidade ao rei e o crime de lesa-majestade. Pedroso de Morais, hoje nome de rua em São Paulo e então sertanista destacado, era seu meio irmão. Manoel cresceu, diz o autor, entre cobras e lagartos, pescando com os indiozinhos, dormindo em rede. Quis ser jesuíta, foi dar, mocinho, no colégio da Bahia, no tempo em que o Padre Fernão Cardim era reitor, e Simão de Vasconcelos estudante como ele. Depois se tornou catequista nos matos de Pernambuco, onde a invasão holandesa o colheu e possibilitou que mostrasse os dotes guerreiros, pois chefiou colunas de índios contra as forças da Companhia das Índias Ocidentais.

Na tomada da Paraíba (1634), que foi um divisor de águas importante na primeira fase do conflito, Manoel mudou de lado: rendeu-se ao célebre coronel Artichewski, fez-se calvinista, desfilou pelo Recife vestido “à framenga”, deixou-se transportar pelos novos amigos até a Holanda praticamente na mesma ocasião em que Calabar – outro mestiço traidor – era morto e posto em quartos. Ex-jesuíta, ex-soldado e mateiro de prol, ex-cidadão de Mauritsstadt (como se chamava então a Recife de Nassau), Manoel se torna letrado, assessor de Joannes de Laet (personalidade destacada da Companhia, rival de Grotius e autor do Novus Orbis), marido de holandesas (uma das quais o deixou viúvo, a outra sendo deixada por ele apesar da rara beleza, reconhecida pelos contemporâneos), pai de crianças batavas, licenciado em teologia pela Universidade de Leiden, a melhor do mundo protestante de então.

 

Camaleônico e escorregadio

 

Nada disso bastou, Manoel era, ajuíza Vainfas, “homem camaleônico e escorregadio”, mestre do jogo duplo e do escamoteamento, além de eterno insatisfeito. Começou a deslizar para a fé antiga, a freqüentar igrejas católicas sorrateiramente, a ter saudade do mato, dos índios, da terra natal.

A essa altura, a Inquisição já o tinha na mira: padre casado, católico transformado em calvinista, se na vida secular Manoel até podia assumir várias personas, o Tribunal era bem mais estrito em matéria de fé e mesmo de moralidade: processou-o e, estando ele ausente, na Holanda, queimou-o em estátua no ano de 1642. Simbolicamente morto, sentiu-se, talvez, desimpedido para renascer nos trópicos de origem, sob roupagem diferente de quantas envergara até então: passou uma conversa na Companhia das Índias, levantou uma dinheirama – o equivalente a cerca de 2.500 cruzados -, obteve o estanco do pau-brasil e se mandou para o interior de Pernambuco, apoiado, no afeto e na gerência, pela angolana Beatriz, sua feitora.

Incorrigível, porém, Manoel traiu de novo: “namorava a heresia”, ajuíza o autor, “mas se casara mesmo com a traição”. Burlou o exclusivo exigido pela Companhia e vendeu a madeira a quem pagasse bem, dobrando o patrimônio em dois anos, marcando seus bois de carga com a palavra “Llatino”, que então designava os licenciados, misturando mundos praticamente inconciliáveis: o da mercancia e o das letras, o do comércio livre e o do estanco, o da honra e o da riqueza. Mais: como estourasse a guerra de libertação de Pernambuco, ou “da liberdade divina”, envergou de novo a roupeta jesuítica, engajou-se na peleja, pôs-se à frente de forças indígenas, avançando, crucifixo às mãos, rumo a seu passado, observa Vainfas. Manoel foi destaque na batalha do Monte das Tabocas, a 3 de agosto de 1646.

Com tal temperamento, dono, conforme um contemporâneo, “de grande talento, juízo e prudência mediana, compleição colérica”, os inimigos espreitavam. Um deles o pôs, parece, definitivamente a perder: Martim Soares Moreno, “general graúdo” e seu companheiro de luta desde o início da peleja, facilitou as coisas para que, finalmente, o braço comprido da Inquisição o alcançasse, em carne e osso. Lá foi Manoel preso para Portugal, enfiado nos cárceres, interrogado com método, torturado, condenado e, por fim, exposto no mesmo Auto de Fé que viu arder Isaque de Castro (15/121647), “jovem mártir da comunidade judaico-holandesa de Amsterdã”. Em favor de Isaque, protestos variados se levantaram na Holanda. “Ninguém protesta contra a sentença de Manoel de Moraes”, comenta, significativamente, Vainfas. A personagem vai sumindo de cena e, presumivelmente, morreu em 1651, com seus 55 anos, “anti-herói esquecido das guerras pernambucanas, o ‘Calabar’ de batina preta ou gibão escarlate”. “Pano rápido”, finaliza o autor.

Isto não é uma ficção, como não o foi a vida rocambolesca de Martin Guerre, tão bem narrada por Natalie Davis. Não é, igualmente, um destino absolutamente singular, podendo, quando muito, ser um “excepcional normal”, conforme o corolário da micro-história italiana e a linhagem de Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Carlo Poni. Por trás da narrativa vertiginosa de Vainfas, maculada por inexplicáveis erros de revisão, mas capaz, assim mesmo, de tirar o fôlego e empolgar em passagens antológicas, há uma carpintaria sólida e uma erudição inegável.

 

Mundos irredutíveis

 

A vida de Manoel de Moraes expressa o tom de uma época: muitos, como ele, foram intermediários culturais, fazendo a ponte entre mundos distintos e aparentemente irredutíveis; trocando de fé e de fidelidade, hesitando entre o rei de Espanha, os poderosos mercadores da Companhia das Índias e, depois de 1640, o frágil rei de Portugal; escorregando do português para os falares índios, incorporando espanholismos e até “flamenguismos”.

A traição, como já ficara sugerido décadas atrás na peça de Chico Buarque e Ruy Guerra sobre Calabar, não pode ser vista sob a perspectiva meramente moral, que tendemos a lhe imputar. Muitos outros contemporâneos desse homem “alto, magro, preto e feio” traíram. Uns, como João Fernandes Vieira, grande herói do panteão pernambucano, se deram bem. Manoel se deu mal, talvez porque, além de traidor, foi herege.  As peripécias e indecisões desse mestiço cabotino e inteligentíssimo parecem metáfora do que era a colonização no século 17, quando a política européia se redefinia cada vez mais com as tintas de outros mundos, das Américas, da Índia, da África, da China, e quando o poderio marítimo ibérico minguava mais e mais ante a pujança holandesa, antes que a Inglaterra entrasse de vez em cena, e para acabar com a festa.

Manoel de Moraes, por fim, era paulista, e como os de então: útil e nocivo, ora português, ora índio. Em Caminhos e Fronteiras, Sérgio Buarque de Holanda mostrou que boa parte da força paulista veio da capacidade em incorporar e re-elaborar traços culturais. Nosso camaleão enfeitiçou os letrados de Leiden, mais de uma holandesa formosa, engambelou os mais poderosos comerciantes do ocidente para, enfastiado, vir ter em Pernambuco, terra cristã, sob alto risco. Acabou nas malhas da Inquisição, que não brincava em serviço: daí o processo que se constituiu em torno dele, e, por fim, este belo livro. Mais uma contradição, mais um exemplo de que o bem e o mal são, amiúde, duas faces da mesma moeda.

Laura de Mello e Souza é professora do departamento de história da USP.
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