

ADRIANO SCHWARTZ
Caim e Abel
O romance como complemento verbal do mundo
A VONTADE E A FORTUNA
Carlos Fuentes
Tradução: Carlos Nougué
ROCCO
446 p., R$ 54,00
No prefácio de Geografia do romance, obra na qual analisa a produção de uma série de escritores contemporâneos, Carlos Fuentes discute a ideia, muito difundida na segunda metade do século XX, de que o romance teria morrido. Conta que, no início de sua carreira, nos anos 1950, ele e outros autores de sua geração deslocaram a pergunta usual, “o romance morreu?”, para outra, mais importante, “que pode dizer o romance que não se possa dizer de nenhuma outra maneira?”. Consciente, no entanto, de que o que não se diz é tão ou mais importante do que o que se diz, ele ainda a reformula mais uma vez: “pode a literatura contribuir, junto com os meios de comunicação que podem ser melhores e mais livres, para a constituição de uma ordem de socialização crescente, democrática, crítica, na qual a realidade da cultura criada e portada pela sociedade determine a estrutura das instituições que deveriam estar a serviço da sociedade e não o contrário?”.
O texto continua e Fuentes ainda fornece novas compreensões possíveis para o romance (entre outras, que ele não “mostra nem demonstra o mundo, senão que acrescenta algo ao mundo. Cria complementos verbais do mundo. E, conquanto sempre reflita o espírito do tempo, não é idêntico a ele”). Como se percebe, trata-se de um autor preocupado com seu ofício, que há décadas vem produzindo obras importantes, como A morte de Artemio Cruz, Cristovão Nonato ou Terra Nostra. Concordando-se ou não com as afirmações expostas tão resumidamente acima (e este não seria o momento de discuti-las), vale a pena pensar sobre o alcance de um romance recente do autor, como é o caso de A vontade e a fortuna.
O livro começa muito bem, com o prelúdio e o início da primeira parte engenhosamente concatenado. Ali aparece o narrador defunto, Josué Nadal, que tivera a cabeça cortada com golpes de facão aos 27 anos e vai contar sua história: “Olho sem olhar. Tenho medo de ser visto. Não sou o que se chama ‘agradável’ de ver. Sou a cabeça cortada número mil no atual ano no México. Sou um dos cinquenta decapitados da semana, o sétimo do dia de hoje e o único durante as últimas três horas e quinze minutos”.
Retrato do México
A cabeça narradora volta então no tempo, ao período escolar, em que conhece Jericó, seu melhor amigo, companheiro de morada e de aprendizado filosófico, com quem discute Santo Agostinho e Nietzsche, com quem compartilha uma prostituta e a ausência de pais e com quem virá, é inevitável, a se desentender, já que uma das “intenções” do livro é claramente recontar, uma vez mais, a história de Caim e Abel.
O retrato do México exposto é o de uma nação tomada pela corrupção e pelo desmando, sob a chefia de um presidente frágil, que baseia seu poder na distribuição ampla de diversão (é difícil, também, escapar do “pão e circo”), e de um empresário que controla o país e que tem muito a ver com os dois meninos.
De vez em quando a história é suspensa para que o narrador reflita sobre sua ocupação “post-mortem”: “Tudo quanto tenho dito deve convencer suas excelências meus leitores de que não abusei do sentimentalismo. Tentei antes ser sucinto, direto, limitando-me de saída a este duplo cartão de apresentação: uma cabeça cortada e uma pele nua e desprotegida. Isso, escreveu alguém há muito tempo, não é grave: a tragédia é vedada ao mundo moderno. Tudo para nós se torna melodrama, soap opera, folhetim, filme de caubói”.
O problema é que, para cada uma dessas camadas com que constrói o livro, o autor parece ter errado na dose. A discussão filosófica, tão usual em romances de formação, torna-se pueril (e a comparação não precisaria ser feita com um Thomas Mann...), a sátira social e política aproxima muito o modelo real da construção fictícia (os “complementos verbais do mundo” projetados por Fuentes, portanto, não se efetivam), a retomada de temas ou ideias consagradas da tradição mostra-se ou desgastada (o conflito “ancestral” entre Caim e Abel) ou frustrada (se o Brás Cubas, de um Machado, que o escritor mexicano admira profundamente, foi uma das “inspirações” para o narrador defunto, a ironia sutil e corrosiva e a autoconsciência daquele passaram bastante longe).
Enfim, o romance de fato não morreu. Nestes anos em que, contudo, vem sobrevivendo, ele já encontrou materializações mais felizes.