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Sérgio Miceli - 104 - Março de 2009
Borges argentino da gema
Foto do(a) autor(a) Sérgio Miceli

ENSAIO

 

Borges argentino da gema

 

Sergio Miceli

 

Os ensaios do jovem Borges conformaram as atitudes estéticas e doutrinárias dos seus companheiros de vanguarda (1). Nenhum assunto candente aí tratado era novidade na literatura argentina. A diferença com os predecessores nacionalistas era o modo de equacionar temas e desafios em que se condensavam as trincheiras de orgulho nativista.

Em lugar da patriotada de Lugones, da litania otimista de Rojas ou dos preconceitos de Gálvez, Borges exercitava um magistério inovador. Encampou o nacionalismo cultural, concebendo-o a par das tradições de um país periférico, a braços com a presença imigrante avassaladora. Borges se distinguiu pela erudição acachapante, por juízos estéticos convincentes, pela dissensão perante autores e obras consagrados.

A vivacidade discursiva provinha do toque autobiográfico, dando a ver o fundo de aprendizado. O cabedal de informação, tão impressionante pela precocidade, garantia a persuasão e os rompantes provocativos. O proselitismo desbragado, explosivo nos pioneiros, se transformava em refinamento de um crítico atilado, de escrita mansa, matreira, eivada de argentinismos. Tampouco hesitou em se pronunciar, sem meias palavras, a respeito de sumidades literárias, de consensos que rebate sem pejo.

Borges ajustou o calibre à conversa jornalística com o leitor dos diários portenhos. Ele se transmutou em nacionalista cultural com feições do crítico literário apetrechado, versado no manejo das fontes de onde extraia exemplos prosaicos, engraçados, encharcados pelo cotidiano, pela comoção sem rebuços, marcas de sua originalidade.

Levou ao paroxismo o prumo culturalista, ao tornar quaisquer objetos pretextos de uma profissão de fé estética, a qual se tornaria a chancela de um modo literário de existir. A voz assertiva e a veemência estatutária calaram fundo nos contemporâneos, timbres do mandato de porta-voz dos interesses ideais de certa elite cultivada com que fora investido esse crítico abusado.

 

Nacionalistas precursores

 

As figuras marcantes da geração do Centenário (1910) – Leopoldo Lugones (1874-1938), Ricardo Rojas (1882-1957) e Manuel Gálvez (1882-1962) – fincaram os alicerces do nacionalismo argentino: os modelos letrados e a agenda de reflexão. O reverso político era responsabilizar os imigrantes pelos impasses do país.

Lugones, Rojas e Gálvez provinham de famílias prestigiosas das províncias, a cujos antepassados e chefes políticos atribuíam os fumos de superioridade social de que se sentiam portadores. Os rumos de vida foram moldados pelas vicissitudes por que passaram os clãs familiares, forçados a dar prosseguimento às veleidades de carreira na capital. As obras políticas de juventude evidenciam a experiência penosa de se desgarrar da redoma provinciana e buscar encaixe no ambiente letrado portenho.

Embora apenas Gálvez tivesse concluído o curso superior, Lugones e Rojas compensaram o deficit escolar pela inserção no jornalismo e pelos encargos públicos. O itinerário desses letrados, educados no interior até a mocidade, expostos às oportunidades franqueadas pelos homens fortes do clã familiar, foi bastante distinta do padrão requintado de socialização a que Borges fora submetido. Na idade em que os pioneiros chegavam à capital, o Borges poliglota retornava de uma estadia familiar de sete anos na Europa.

Em 1904, Lugones redigiu El imperio jeuitico, encomenda do ministro do interior do presidente Roca, Joaquín González, mentor ideológico do nacionalismo, no qual concebe uma teoria do Estado liberal na esteira da derrota imposta ao ideal teocrático; em 1905, em La guerra gaucha, louvação da epopéia nacional, condensou a figura do caudilho no patriota militar Güemes, infundindo matéria histórica à legenda de um civismo imerso em tradições gaúchas; em 1913, proferiu seis conferências sobre o poema épico Martín Fierro, de José Hernández, reunidas no volume El payador, em que canoniza o texto como marco zero da literatura argentina, incensa o autor e institui um objeto de culto. Ele e Hernández eram bardos designados pelo patriciado criollo, luminares da ”oligarquia inteligente”. A poesia gauchesca exprimia a voz criativa da pátria, herança dos cantadores populares. A consagração de Hernández desqualificava o restante da literatura gauchesca, juízo a que Borges irá se contrapor ao distender o fio de prumo dessa genealogia histórico-literária.

Entre 1909 e 1924, Ricardo Rojas disse a que veio como pensador chauvinista. Em La restauración nacionalista, nova encomenda de González, junta queixas pessoais ao manifesto em prol da reforma do ensino capaz de sustar a desnacionalização em curso; em 1910, publicou Blasón de plata, em que repensa a dicotomia entre civilização e barbárie, em termos de “exotismo ou indianismo”, fórmula que lhe pareceu mais adequada para dar conta do passado. Não desistiu da hierarquia social sob jugo da minoria branca criolla que absorveu a massa indígena autóctone, prelúdio do caminho a ser cumprido pelos imigrantes. A emancipação teria se ancorado na revolta do fidalgo pobre, criollo formado na universidade espanhola, coadjuvado pelos parentes estancieiros acaudilhados, que arrastaram a multidão de gaúchos, mestiços, escravos, índios e cafusos; em 1917, a parte inicial de sua Historia de la literatura argentina  confronta Lugones e reclama ter antevisto o pioneirismo de Hernández. Descartou as obras do período colonial, fazendo coincidir a emergência do nacional com a literatura gauchesca. 

As décadas vividas em Santa Fé alimentaram o ressentimento de Gálvez, tal como revela El diario de Gabriel Quiroga (1910), desabafo de um alter ego ficcional. Em formato de diário com entradas pela data e pela cidade em que foram anotadas, as províncias do norte estimulam a indigestão de argentinidade. A confissão é queixume de interiorano, fascinado pela capital que faz pose de repudiar, sementeira de vícios dissolventes. A ladainha contrasta as virtudes da província, onde avulta a seiva indígena, com as baixezas da metrópole, movida pelos interesses pecuniários dos imigrantes. Libelo elitista de um moço de bem, defesa desabrida da sociedade católica e conservadora. Os indigitados são os trabalhadores, os sindicalistas, os mulatos, como se tais grupos pudessem desvirtuar os argentinos de raiz. A tonalidade estridente é o patriotismo escancarado, a altivez de adivinho presunçoso que se assemelha amiúde à voz sabida do jovem Borges. O legado hispânico, a poesia gauchesca, a língua ameaçada dos argentinos, Rosas messiânico, Sarmiento entreguista, o devir da nação, clichês de Gálvez retomados por Borges.

 

Ensaios nacionalistas de Borges

        

O ensaio “Buenos Aires” modela a epifania criolla da casa aprazível das famílias de estirpe, replicando, em prosa, os versos do livro de estréia (2). O texto conecta elementos arquitetônicos – balaustradas, umbrais de mármore, pátios, cisternas -, ao atavismo dos familiares, ora à beira do rebaixamento, no registro da fatalidade, do orgulho antiliberal de “ser criollo”. Elabora a nostalgia de uma cidade envolta pelos vestígios de sociabilidade rural, em toada reticente ao bulício urbano; contrapõe a afetividade do subúrbio à ganância imigrante. Empreende a decantação estética da capital, tal como Hernández fizera com o pampa: renova a literatura pátria na selva urbana, filtrada pelo subúrbio impregnado de traços campestres.

O mote é o enaltecimento da identidade criolla, a conduta de vida dos argentinos bem nascidos: léxico reconhecível, imagem mítica do arrabalde colado ao pampa, certa morfologia do espaço doméstico, a pontuação das rotinas pelos horários do mate. Os repentes saudosistas lamentam a perda desse convívio e associam a ruína da elite às encruzilhadas do país. O declínio dos próximos ameaça a sobrevida de uma minoria infensa à grosseria imigrante.

O ensaísmo borgeano ergueu uma tradição literária autóctone, acoplada a certa história revisionista. Feitos literários como que encapsulam a bravura dos protagonistas da nacionalidade. Enxerga os momentos fortes da literatura como transes reveladores de desafios políticos deslindados por patriotas. Até os escritos estéticos apelam ao resgate da flama telúrica, retemperada pelo caudilhismo rosista. O tesouro literário era fruto da convergência entre a emocionante poesia gauchesca, o acervo hispânico do século de ouro e aportes contemporâneos. Dando continuidade à revalorização do Martín Fierro de Hernández, concebe essa literatura de homens cultos mimetizando a linguagem dos gaúchos.

Borges tirou do limbo dos esquecidos o poeta Hilário Ascasubi (1807-1875), cuja vida aventurosa juntava proezas militares à fatura lírica de escritor engajado. Ascasubi se envolvera mocinho na guerra civil entre unitários e federalistas, tendo enfrentado as vicissitudes da prisão e do exílio em Montevidéu: as trovas de Paulino Lucero o los gauchos del Rio de la Plata (1872) relatam o sítio da capital uruguaia pelo general Oribe. Fora ainda testemunha da batalha de Monte Caseros (1852) que derrubou o regime de Rosas. Borges rastreia em sua linguagem os vocábulos tocantes do léxico criollo antiquado, precursor do amigo Estanislao del Campo, outro poeta miliciano e instituindo, com Hernández, a trindade da poesia gauchesca. Ascasubi exercitou uma poesia masculina que celebra o estilo de vida do cavaleiro dos pampas, treinado no manejo de armas, arrastado pelo sentimento de liberdade face ao desconcerto do mundo.

Borges distendeu a jurisdição da literatura criolla, ao louvar poetas uruguaios nos quais enxergava afinidades com seus versos. O elogio deles apela às credenciais de autenticidade criolla perceptíveis na linguagem - o ritmo contagiante da poesia cigana, a inventividade metafórica. Tal empenho em reconstruir a tradição gauchesca recuperou a obra mestra de um estrangeiro - La tierra purpúrea (The purple land) (1885), de Guillermo Hudson.

A opção pela vida no campo, sem peias nem constrições políticas, se parece ao fatalismo de Hernández, com a vantagem de dispensar as tiradas edificantes no desfecho de Martín Fierro. Os heróis são Rosas e Yrigoyen, em contraponto aos artífices da modernização, a começar pelo liberal norte-americanizado (Sarmiento) que “nos europeizou com sua fé de homem recém-chegado à cultura e que espera milagres dela”.

 

Mitologia da valentia

 

O panteão borgeano abrigava ainda Almafuerte (1854-1917) e Banchs (1888-1968), poetas da segunda leva do modernismo à la Rubén Darío, obcecado em desalojar Lugones do pedestal e sustentar uma tradição esquiva à estilística vigente. Borges salientou no primeiro traços pertinentes ao seu embate: autodidata, professor primário, profeta cívico, predicador, escritor másculo, atento às amenidades criollas, um argentino da gema à semelhança do gaúcho perseguido Juan Moreira (1879-80) (3). Esse suburbano de escol dera partida à genealogia da poesia portenha que culminaria em Borges. 

Sob pretexto de escorço biográfico do cantador dos subúrbios, amigo e conterrâneo de seu pai, Evaristo Carriego constitui uma profissão de fé nacionalista travestida de análise cultural. Borges exalta aí o truco, a milonga , o punhal, a virilidade, o poeta dos despossuídos, a sabedoria criolla de ócio e prazer, a lenda de coragem máscula associada ao desertor Martín Fierro. Compartilha os preconceitos do biografado contra os imigrantes - bandidos, inferiores, novos ricos -, em defesa dos criollos. Eis o esboço dessa mitologia da valentia que será a viga mestra do Borges ficcional, que iria se apossar do universo da marginalidade para dar corpo à transcrição urbana da legenda gauchesca.

Afora impulsos afetivos, o alvo de entronizar Carriego se guiava por intentos estratégicos numa fase tateante do seu valor como escritor. Tal lance fazia a costura de uma linhagem de poesia urbana, promovendo Carriego e Fernández Moreno (1886-1950) como precursores, um símile da genealogia gauchesca. Queria chacoalhar o pódio na transição entre o domínio dos maiorais do Centenário e a ascensão da liderança ultraísta. O intuito era destronar Lugones, a sumidade do momento, desferindo ataques à sua reputação, debicado de epígono, artesão medíocre e emproado. Borges salientou ainda na figura misteriosa de Macedonio Fernández, outro amigo do pai, o humor esquisito, as excentricidades de criollo autêntico, avis rara mais valorizado pela oralidade do que pela obra. Ele e Carriego ensejaram o álibi de questionar a hierarquia de legitimidades então prevalecente na cena literária.

Outro recurso é a apologia rasgada dos clássicos do século de ouro – Gôngora, Quevedo, Cervantes –, artífices do manejo estético do espanhol. Apesar dos macetes e do abuso de metáforas, de latinismos e mitos gregos, Borges admirava a verve dos mestres, oscilantes entre a sujeição à ortodoxia e o engenho artístico. A análise de um soneto de Quevedo esclarece a estética de Borges. A força expressiva do soneto festeja a pulsão erótica, o estrondo dos sentidos, a despeito do formato rígido e da métrica arbitrária. O apetite amoroso reconcilia corpo e espírito, receita de vida de Schopenhauer – guia espiritual dessa geração de letrados.

A terceira obsessão da ensaística borgeana é a língua – o idioma da pátria em polvorosa -, prensada entre o castelhano e o vírus dos dialetos imigrantes. O vernáculo estaria em risco por conta dos idioletos de agentes deletérios, contra os quais Borges enuncia a redenção pelo candor. Tal resgate daria vazão a uma voz unificada, pronta a comemorar paisagens, eventos e personagens da nação. Ele se via ungido como poeta e ideólogo da criollidad.

Borges recusava tanto os adeptos do casticismo como os falantes de um dialeto esquálido. Rejeitava os dialetos imigrantes, buscando desqualificá-los pelos liames com bairros de malfeitores. Contrapunha o lunfardo, “jargão artificioso dos ladrões”, à fala suburbana, como estágios de degradação se confrontados à dicção dos setores educados. O combate ao léxico indigente e à timidez conceitual por meio de obras literárias cuja alquimia recuperava a vivência dos setores populares. O campo, o pampa, a província, já possuíam seus gaúchos destemidos, mas “a cidade continua à espera de uma poetização”.

Borges fez reparos ao casticismo por estar dissociado das experiências locais, impermeável às singularidades da história argentina. Ele optava pela oralidade criolla, da conversa misturada à sociabilidade nativa. Ao evitar o pseudo plebeu e o hispânico vicário, advogava esse idioma falado no qual pululam centenas de vocábulos e expressões idiomáticos, incompreensíveis para os espanhóis, e dos quais faz questão de se apropriar, inventando um “hemisfério de sombra” onde a vivência íntima do escritor se mistura à paisagem natural e social da pátria.

Lugones, Rojas, Gálvez e Borges inscreveram os ascendentes na história da nação. A lírica de Lugones converteu a epígrafe do Lunario sentimental (1909) em ressonância da heráldica senhorial, mesclando o nome de família às cores da bandeira argentina. Rojas operou simbiose idêntica no Blasón de Plata, evocando o mito da progênie e conferindo à inteligência criolla a missão de colorir a confederação do Prata. Gálvez é o antiintelectual, com rancor dos estrangeiros, o arauto da argentinização. Borges também se orgulhava dos antepassados militares, da antiguidade familiar, dos emblemas dessa herança; quis se filiar à tradição dos mestres da poesia gauchesca. Ficou fascinado pela mescla de figuras históricas e personagens tumultuados, enredados por narrativas assombrosas, pautadas pela estilística inconfundível da conduta criolla. Essa invenção borgeana do escritor nato, do homem de letras consumado, foi plasmada de dentro de um universo social ameaçado. O contraste entre Rosas e os baluartes liberais se traduziu numa proclama autoral, sem prejuízo do dilaceramento entre o rescaldo do modelo europeu e a comoção de vozes do novo mundo. Daí passaria à invenção de um universo ficcional fatalista, infundindo às lendas gauchescas as feições do contexto urbano sacudido pelos imigrantes. 

 

Notas

 

(1) Jorge Luis Borges, Inquisiciones, Buenos Aires, Proa, 1925; El tamaño de mi esperanza, Buenos Aires, Proa, 1926; El idioma de los argentinos, Buenos Aires, 1928; Evaristo Carriego, Buenos Aires, 1930. Na autobiografia, o autor designou os três primeiros livros como “absurdos”, tendo interditado a reedição em vida. 

(2) Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires, Buenos Aires, Imprenta Serrantes, 1923.

(3)Poema épico e lírico do jornalista e escritor José Hernández (1834-1886): El gaucho Martín Fierro (1872) e La vuelta de Martín Fierro (1879).

(4) Personagem da novela policial do dramaturgo Eduardo Gutiérrez (1851-1889), marco inaugural do teatro argentino tido como marco u cenaelo novelista e dramatys existe apenas um que foi favorecido pela lenda (...) .

 

 

                

     

Sérgio Miceli é professor do departamento de sociologia da USP.
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