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Eliane Robert de Moraes - 28 - Julho de 1997
Bordéis, bordéis, bordéis
Foto do(a) autor(a) Eliane Robert de Moraes

Bordéis, bordéis, bordéis

 

ELIANE ROBERT MORAES

Na geografia do imaginário moderno, Paris ocupa uma posição de destaque. Se no século das Luzes ela já era conhecida como a "nova Babilônia", após a Revolução Francesa a fabulação literária consolidou por definitivo o mito da cidade como ponto de convergência dos mais diversos aspectos e experiências. Da capital revolucionária registrada pelo espectador noturno de Restif de la Bretonne ao centro cosmopolita e romântico do "flâneur" de Baudelaire, da cidade enigmática habitada pelo Maldoror de Lautréamont ao abrigo onírico dos personagens de Nerval, Paris tornou-se um topos recorrente na literatura francesa. É precisamente a essa linhagem que pertence "O Camponês de Paris", escrito por Louis Aragon entre 1924 e 1926, agora publicado no Brasil em excelente tradução.
Texto fundante do surrealismo -contemporâneo do primeiro Manifesto do movimento e antecessor de "Nadja", que Breton escreveria alguns anos mais tarde-, o livro de Aragon lança um novo olhar sobre a cidade de Paris nos anos 20. O passeio lírico do "camponês" que investiga a "natureza" urbana da capital desenrola-se em dois pontos: a passagem da Ópera antes de sua demolição e os jardins artificiais do Parque Buttes-Chaumont. Às descrições meticulosas, que fornecem o inventário preciso dos locais visitados, vêm juntar-se lembranças, diálogos, poemas e aforismos, além da reprodução de artigos de jornais, placas e outras inscrições de rua. Mais que simples colagem, tal procedimento visa a reproduzir, no plano da escrita, a experiência singular do caminhante moderno que, deixando-se levar pelas imagens transitórias que lhe oferece a paisagem cosmopolita, faz de seu passeio uma aventura do pensamento e da imaginação.
Ao longo dessa aventura, teorizada nos dois breves textos que servem de prefácio e conclusão ao livro, Aragon esboça os princípios de uma nova "mitologia", capaz de expressar o "sentimento moderno da existência". Trata-se de vasculhar o "inconsciente da cidade", de descobrir nela o "maravilhoso cotidiano", para assim libertar o espírito do "tolo racionalismo humano". Dessa forma, o autor se propõe a estabelecer nexos entre o percurso do caminhante e o curso de seu pensamento, ambos recusando a priori qualquer referência conhecida em função de uma exploração do desconhecido.
Para realizar seu projeto, o narrador de "O Camponês de Paris" aposta fundamentalmente na experiência do erro. À errância pelos labirintos da cidade vem somar-se o propósito de soltar as rédeas do pensamento, de abandonar-se a seus ritmos incertos e hesitantes, de acolher enfim sua própria possibilidade de errar. Exploração arriscada, na medida em que prescinde da orientação de mapas e de bússolas, mas que, por isso mesmo, obtém êxito na difícil tarefa de traduzir em palavras o que poderíamos chamar de "conhecimento do erro". Ou seja, como propõe Jeanne-Marie Gagnebin no posfácio a esta edição, a experiência de errar acaba desembocando "numa verdade que não seria, primeiramente, a coerência de nosso pensamento, mas sim o movimento mesmo de sua produção". No limite, ainda segundo a autora, o livro nos fornece uma descrição apurada dos "caminhos e descaminhos do próprio espírito".
Vale lembrar, porém, que o projeto de Aragon não se resume à dimensão espiritual. Sua intenção não é apresentar um processo de conhecimento que, começando por descrever a experiência física de um passeio errante pela cidade, termina oferecendo ao leitor uma topografia do espírito. Na verdade, os propósitos de "O Camponês de Paris" são bem mais ousados: trata-se de registrar a dimensão física do próprio pensamento -como, aliás, o escritor já havia proposto em "Le Libertinage", escrito entre 1922 e 1923, no qual atentava para a importância da experiência corporal da escrita na realização de seus textos. Nesse sentido, o "conhecimento do erro" que está no horizonte de Aragon resulta, sobretudo, de uma exploração sensível dos espaços obscuros da cidade e dos domínios baixos da condição humana.
"Em tudo aquilo que é baixo há algo de maravilhoso que me dispõe ao prazer": essa frase, enunciada no capítulo sobre a passagem da Ópera, e normalmente esquecida pelos comentadores do texto, indica os rumos do itinerário físico e mental do caminhante surrealista. Ora, de que nos fala o narrador de "O Camponês de Paris", senão de tudo o que é baixo? Sua atenção volta-se com frequência para as "artes menores", como a dos cabeleireiros, barbeiros, engraxates, alfaiates ou massagistas -a suscitar longas digressões sobre o corpo, das hérnias às carícias, da dor à lascívia. Seu roteiro pela cidade prioriza os "templos de culto equívoco", onde "a moralidade urbana vacila": são hotéis de reputação duvidosa, balneários decadentes, teatros suspeitos, alamedas obscuras de um jardim de periferia e ainda bordéis, bordéis, bordéis. Entre os personagens preferidos, encontramos toda sorte de tipos que exercem "profissões malditas" ou, ao menos, "atividades paradoxais": de vendedores ambulantes a trapaceiros e criminosos, de anônimos "casais dos parques" às prostitutas, essas -"clarões vivos pelo preço das mães de família que encontramos nos passeios públicos"- onipresentes no passeio de Aragon.
Uma tal preferência pelo que é baixo -ou, como propõe o autor, o "gosto pelo equívoco"- não deixa de repercutir intensamente na maneira de pensar do camponês cosmopolita. Assim como os banhos inclinam os homens a "devaneios perigosos", o contato com os lugares suspeitos representam igualmente "um meio de acesso a domínios proibidos" à razão. Eis, portanto, o motivo de seu fascínio pelos bordéis: "há nesses lugares uma atração que não se define, que se experimenta"; lá chegando, "nada mais me serve dessa linguagem, desses conhecimentos e dessa educação"; enfim, "acredito falar uma língua estrangeira se for preciso explicar a alguém o que me traz aqui". Trata-se, portanto, de recriar a linguagem para que ela possa expressar uma consciência ampliada pelas manifestações mais intensas do corpo.
Em outras palavras: a experiência física do caminhante -que se perde nos lugares mais baixos de Paris- termina por perverter o pensamento, obrigando-o a descer ao nível das ocorrências concretas. "Desça para sua idéia", propõe o camponês no final da caminhada, "habite sua idéia como um operário que fura poços pendurado em sua corda". Essa "descida" produz o que Aragon chama de "passagem para a desordem", conforme insiste no epílogo do livro, como se estivesse revisitando o percurso vertical e descendente que ele propõe. Ao surrealismo solar das páginas iniciais, manifesto na simbologia dos vidros e espelhos que proliferam na passagem da Ópera, vem opor-se o surrealismo noturno da visita ao parque, que se conclui na opressiva Ponte dos Suicidas, observatório de abismos infernais.
Assim também, se na descrição da primeira caminhada o narrador alude a um "gosto de confusão que é próprio dos sentidos, que os leva a desviar cada objeto de seu uso, a pervertê-lo, como se diz", no relato seguinte ele sugere que o acesso à "confusão" implica necessariamente a passagem do alto ao baixo -"a cabeça agora aprende a conhecer os pés". Como se vislumbrasse, finalmente, um ponto de chegada no seu percurso vertiginoso, ele sentencia: "E o homem, nesse lugar de confusão, reencontra com assombro a marca monstruosa de seu corpo e sua face escavada. Ele se choca contra si mesmo a cada passo. Eis aí o palácio de que você precisa, grande mecânica pensante, para saber enfim quem você é".
Ao cabo da aventura, Aragon depara-se com uma imagem sombria da cidade e do homem. Na paisagem cosmopolita, o "maravilhoso cotidiano" cede lugar ao "trágico moderno"; os cenários sagrados das "novas Éfesos" são substituídos pela vista tenebrosa da "Meca dos suicidas"; o "universo colorido" da capital perde sua luminosidade para as cores escuras de uma Paris pintada por Arnold Bõcklin. Enfim, na paisagem interior do homem, o pensamento curva-se às evidências de um corpo monstruoso que anuncia, nos contornos sinistros de sua face escavada, a figura da morte. Nesse momento, confundem-se os destinos da cidade e do caminhante; atento a tal indeterminação -entre o obscuro "inconsciente" de uma e os limites da "grande mecânica pensante" do outro-, Aragon transforma a confusão, a desordem e o erro em caminhos do conhecimento. 

Eliane Robert de Moraes é professora de estética e literatura da PUC-SP.
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