

Biologia do conhecer
MARIA EUNICE GONZALES
Cognição, Ciência e Vida Cotidiana
Humberto Maturana
Organização e tradução: Cristina Magro e Victor Paredes
Editora UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4650)
210 págs., R$ 23,00
A teoria da "autopoiese" -também conhecida como "biologia do conhecer"- proposta por Humberto Maturana, em colaboração com Francisco Varela (recentemente morto), contribuiu, e muito, para o desencadeamento de uma nova revolução que se instaurou, na década de 70, no interior do cenário funcionalista da ciência cognitiva tradicional. Em tal cenário, ainda hoje habitado por modelos computacionais da mente, o sujeito cognitivo era investigado, à semelhança dos computadores, a partir de estruturas funcionais abstratas (dadas a priori), independentemente da dinâmica biológica e social na qual ele se insere em sua vida cotidiana.
É justamente em oposição a essa estratégia, supostamente explicativa, de modelagem computacional da mente, que se instaurou, em meio a inúmeras controvérsias, a proposta de Maturana de investigar a atividade cognitiva do ser humano a partir de suas raízes biológicas, historicamente situadas num ambiente de interações sociais dinâmicas. O impacto e a repercussão da revolução iniciada pela "biologia do conhecer" na ciência cognitiva tradicional pode ser constatada na sua obra "Cognição, Ciência e Vida Cotidiana", que reúne textos de conferências realizadas por Maturana no Chile e alguns de seus principais artigos.
Tais textos apresentam instigantes reflexões sobre os mecanismos explicativos da "biologia do conhecer" na investigação da natureza do conhecimento científico, filosófico e da vida cotidiana. Apesar de preservarem características distintivas, esses três domínios do saber estão fundados, segundo Maturana, na dinâmica das ações especificadas pelas emoções que guiam o agir do ser humano, entendido como um sistema estruturalmente determinado.
As emoções, nas palavras de Maturana, "são disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de ação nos quais os animais, em geral, e nós seres humanos, em particular, operamos num instante". São as emoções que definem o domínio no qual se dão as ações, tanto abstratas quanto concretas.
Situando o conhecimento científico e filosófico no domínio das "emoções" que estruturam as ações humanas, Maturana rejeita a suposta separação entre ciência e vida cotidiana, bem como o ideal de objetividade das explicações científicas e o caráter fundacional da filosofia, tão caros àqueles que postulam a existência de uma realidade objetiva independente de observadores biológicos historicamente situados.
Uma hipótese fundamental, que permeia toda a sua obra, é que "na qualidade de sistemas vivos, somos sistemas determinados estruturalmente, e tudo o que se aplica aos sistemas determinados estruturalmente se aplica também a nós". Nesse sentido, Maturana argumenta que constituímos um tipo de máquina molecular autopoiética, fechada em nossa dinâmica de estados; tudo aquilo que nos acontece decorre de mudanças estruturais determinadas. Ou seja, como sistemas vivos, morremos quando nossa autopoiese deixa de ser conservada.
O que nos distingue, entretanto, dos demais sistemas autopoiéticos é que existimos como seres humanos na linguagem, entendida como um domínio de coordenações de coordenações de ações: "Um modo de viver juntos num fluir de coordenação consensual de coordenações consensuais de comportamentos". Tais coordenações são continuamente moduladas pela dinâmica do domínio no qual existimos em constante interação com o ambiente.
É por meio da linguagem que se articulam os critérios específicos de validação dos diferentes tipos de conhecimento, em concordância com as emoções que os estruturam. Assim, por exemplo, como cientistas somos movidos pela emoção de explicar aquilo que observamos em nossas experiências. Conforme ressalta Maturana, "a emoção fundamental que especifica o domínio de ações no qual a ciência acontece como uma atividade humana é a curiosidade, sob a forma do desejo ou paixão pelo explicar".
Por outro lado, na qualidade de filósofos, adotamos princípios explicativos que geram domínios de coerência operacional num domínio de relações e ações daqueles que as aceitam: "Ao contrário do que acontece com as teorias científicas, as teorias filosóficas, constitutivamente, surgem no processo de gerar um sistema explicativo logicamente consistente e diretamente subordinado à conservação de algumas noções explicativas básicas, seja sob a forma de princípios, valores ou resultados desejados".
A diferença, para o autor, entre nossas ações explicativas na vida cotidiana como cientistas e como não-cientistas depende de nossas diferentes emoções, de nossos diferentes desejos de consistência e impecabilidade em nossas ações. A aceitação dessa hipótese nos conduz a uma série de questionamentos acerca da natureza das emoções que privilegiamos em nossa vida cotidiana, bem como em nossas atividades científicas e filosóficas.
Em particular, Maturana nos convida a refletir sobre os nossos desejos operantes e responsabilidades em relação ao universo tecnológico em que estamos atualmente inseridos: "Nós nos tornamos o tipo de seres humanos que nos tornamos de acordo com o modo pelo qual vivemos de uma maneira sistêmica, (...) seguindo um curso cada vez mais definido por aquilo que escolhemos fazer perante os prazeres e medos que vivemos em nosso gostar ou não gostar daquilo que produzimos por meio da ciência e da tecnologia".
Embora não se trate de uma obra de fácil leitura, as reflexões de Maturana são extremamente relevantes para o projeto de construção de uma sociedade participativa e responsável pelo processo de conhecimento. Como Pascal, que, no século 17, se deu conta da dificuldade de propor uma teoria do conhecimento fundada em princípios indubitáveis e racionalmente determinados, Maturana talvez concordasse que os saberes geométricos são construídos a partir de "termos primitivos" (como o tempo, o espaço e o número) sentidos pelo coração e comunicados à razão.
Maria Eunice Quilici Gonzalez é professora de filosofia na Universidade Estadual Paulista em Marília (SP).