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Luiz Tatit - 66 - Setembro de 2000
Batida diferente
Método para violão é extraído da atividade de Carlos Lyra como cancionista
Foto do(a) autor(a) Luiz Tatit

Método para violão é extraído da atividade de Carlos Lyra como cancionista
Batida diferente

LUIZ TATIT

Sai o método para violão de Carlos Lyra. O professor da academia de Copacabana dos anos 50, que mais tarde se tornaria um dos maiores compositores da bossa nova, foi um dos pioneiros responsáveis pela propagação do violão -esse instrumento portátil perfeitamente compatível com a vida errante dos cancionistas - no interior das classes brasileiras mais favorecidas. O que atraiu os estudantes cariocas e, em seguida, a elite cultural do país daquela época foi justamente a possibilidade de acompanhar canções tão "simples", tanto na melodia como na letra, com encadeamento harmônico tão refinado e com batida tão "diferente". O violão no período da bossa nova tornou-se o símbolo maior de uma transformação estética, o denominador comum entre o samba antigo e a nova música brasileira, que empurraria a sonoridade do país definitivamente para o mundo moderno.
00Só agora, entretanto, Carlinhos Lyra resolveu escrever e publicar sua "Harmonia Prática da Bossa Nova", um método extraído de sua atividade de cancionista no sentido mais amplo do termo, o de alguém que compõe, canta, toca, cria versos, faz arranjos, sempre em torno da relação entre melodia e letra. Seu ponto de partida são as próprias composições que ajudaram a compor a trilha sonora da bossa nova, como "Coisa Mais Bonita", "Lobo Bobo", "Maria Ninguém", "Minha Namorada", "Primavera", "Se É Tarde Me Perdoa" e até o baião-toada "Comedor de Gilete", que alcançou sucesso na voz de Ary Toledo. São ao todo 17 canções clássicas do período, interpretadas pelo próprio autor em CD incluso na obra.
00Embora a harmonia da bossa nova tenha fama de ser complexa pela dissonância incorporada em seus acordes, dificilmente encontraríamos um manual mais simples e direto do que este. Dividido em cinco partes ("Preliminares", "Harmonia Básica", "Harmonia Prática", "Convenções e Músicas"), o método de Carlos Lyra supõe justamente que ninguém, no mundo da música popular, começa a aprender violão a partir de um método formal. Só depois de dominar as posições básicas -e muitas vezes não tão básicas- que permitem acompanhar uma infinidade de canções, o aficionado resolve -quando resolve- compreender musicalmente o que está fazendo. Até então, toca de ouvido e, antes disso, podemos dizer que toca "de olho".
00É raro um violonista popular que não tenha começado sua atividade instrumental imitando o desenho das posições dos dedos exibido por um colega mais adiantado. A primeira coleta de repertório de acordes é sempre visual. Só depois, com a prática, os iniciantes passam a reconhecer o som dos acordes, mas ainda estabelecendo relação entre a audição e a visualização. Apenas num terceiro momento, entra-se na fase intelectiva do aprendizado instrumental.
00É nessa fase que o método de Carlos Lyra vem a calhar. Basta correr os olhos pelos breves parágrafos, entremeados de desenhos que simulam os pontos pressionados no braço do violão e suas representações no pentagrama convencional, para que o aprendiz compreenda que suas posições são acordes compostos por notas, pertencentes a escalas que, por sua vez, prevêem intervalos regulares e que tudo isso compõe os padrões relativos típicos de toda e qualquer canção popular.
00Consciente de que "as regras são consequência da música e não o contrário", o compositor vai gradativamente instruindo o leitor com informações que já pressupõem uma certa afinidade motora com o instrumento. Na fase preliminar, propõe um reconhecimento do braço do violão, demonstrando que, mais do que as notas, importam as relações entre elas, fixadas num apropriado quadro de intervalos que serve de base para a posterior construção dos acordes. Comenta o papel da digitação das notas com a mão direita até chegar aos principais ritmos que, no seu entender, caracterizaram a produção da bossa nova. Apenas no âmbito do seu próprio repertório, apresenta exemplos de baião-toada ("Comedor de Gilete"), marcha-rancho ("Marcha da Quarta-Feira de Cinzas"), toada ("Maria Ninguém"), samba-canção ("Minha Namorada") e, evidentemente, numerosos sambas bossa-nova, demonstrando, com simplicidade, que, mais do que um ritmo exclusivo, a bossa nova é uma dicção. As primeiras faixas do CD ilustram didaticamente as batidas que configuram esses e outros gêneros típicos da prática do violonista.
00Na seção referente à "Harmonia Básica", expõe os diversos tipos de resolução tonal, incluindo os encadeamentos de acordes invertidos e as modulações que enriquecem o desenvolvimento harmônico. No capítulo seguinte, introduz os acordes dissonantes e elabora um exame simples, mas sistemático, de suas funções (tônica, dominante e subdominante) e alterações sobre cada grau da escala diatônica. O leitor pode então compreender a lógica das cifras tão caras à prática do músico popular e tão divulgadas -nem sempre com notação convincente - pelas revistas de violão e guitarra vendidas em bancas de jornal.
00Por fim, na parte que precede a das 17 canções cifradas, Lyra faz um resumo das convenções adotadas na transcrição gráfica das músicas em geral. Desde as claves com suas armaduras até os sinais de repetição, passando pelas formas de alinhamento das sílabas das letras com suas respectivas figuras rítmicas, e mesmo pelas formas de inclusão dos desenhos das posições acima das cifras, o autor consegue abarcar em quatro páginas os modelos de notação mais frequentes encontrados nos "songbooks" cada vez mais familiares aos músicos brasileiros.
00O trabalho de Carlos Lyra vem na esteira dos diversos volumes produzidos por outra editora, a Lumiar, entre os quais se destacam as sistematizações de seu próprio coordenador, Almir Chediak, e dos músicos Antonio Adolfo e Ian Guest. E, talvez por contar com esses precursores, pôde realizar o método prático mais sucinto e objetivo, com dicas especiais para os que já concebem o violão como o instrumento das notas em bloco (acordes), minuciosamente projetado para o universo da canção popular.


Harmonia Prática da Bossa Nova Método para Violão
Carlos Lyra.
Irmãos Vitale
(Tel. 0/xx/11/5574-7001)
115 págs., R$ 39,00



Luiz Tatit é compositor e professor de linguística na USP.

Luiz Tatit é compositor e professor de linguística da USP.
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