

Bandeiras de São João
PAULO MENEZES
A frase "Alfredo Volpi, o famoso pintor das bandeirinhas", pronunciada no fim do prólogo de abertura deste CD-ROM, pode dar a impressão que sua intenção é reforçar o rótulo que tem acompanhado Volpi desde o começo da década de 70, reduzindo-o ao seu lado mais conhecido e palatável para o grande público.
Entretanto, o grande mérito do CD é justamente o oposto. Por meio dele, o visitante passeia por toda a obra de Volpi, desde suas primeiras telas na década de 20, e reconstrói a trajetória do pintor em direção à simplificação dos planos e das formas. Ele percebe assim os caminhos que o levaram àquela grande síntese entre o conteúdo popular e a forma inovadora, quando um elemento da cultura popular -a bandeira de São João- é alçado a traço construtivo formal de suas telas. Ao conhecer esse percurso visual, o espectador reformula a sua própria percepção da obra do artista, escapando da simplificação que o rótulo reforça.
Vemos, pela sucessão de imagens do "Catálogo", que seu trajeto passou por retratos e naturezas-mortas, por paisagens, casarios, velas e figuras de santos. Podemos perceber como as imagens de ruas e fachadas vão perdendo aos poucos a perspectiva, concentrando-se cada vez mais num único e primeiro plano, movimento que se extremará a partir do início da década de 50, para nunca mais desaparecer.
Além disso, também se podem conhecer obras de grande impacto visual, pouco usuais no material exposto e publicado do pintor, como um óleo sobre cartão do fim da década de 30. Trata-se de uma marinha com pescadores, singela e delicada, de poucos traços e que recria uma impressão de dinamismo que se desdobra no mar agitado e na turbulência das pinceladas que compõem as nuvens.
Além desse passeio visual serial, podemos reconstruir a trajetória de Volpi por meio dos textos narrados nas seções "A Vida" e "O Percurso", de autoria de Olívio Tavares de Araújo, sempre acompanhados pelas composições de Danilo Tomic. Esses textos, escritos para um público amplo, são enriquecidos por uma série de fotos que remetem à vida do pintor: às raízes italianas, às relações com os modernistas de 22, ao casamento com Judite, sua eterna companheira etc.
Aqui constata-se uma lacuna do texto, que omite as relações de Volpi com Yoshiya Takaoka, integrante de outro grupo de imigrantes, o Seibi, que, como o Santa Helena, também pintava em São Paulo um pouco de sua história, enfrentando os mesmos problemas de reconhecimento e legitimação. Apesar da semelhança entre os dois grupos, o texto alça apenas o Santa Helena à importância dos modernistas. Daí sua ênfase na "divisão simbólica" ocorrida na 2ª Bienal, em 1953, quando, por esforço e insistência de Herbert Read, Volpi foi premiado juntamente com Di Cavalcanti.
De todo modo, o CD permite travar um contato frutífero com a obra de Volpi, bem como com textos elucidativos sobre a sua vida e obra. Para o visitante que deseje aprofundar seus conhecimentos, o CD oferece outras opções, como por exemplo a "Fortuna Crítica" ou uma bibliografia significativa e abrangente.
De maneira geral, o CD-ROM explora bem os recursos audiovisuais necessários para uma obra deste tipo, tendo em vista o público a que se dirige. O arranjo de animação das fotos que acompanham as narrações é bem montado e criativo, e a linha do tempo, aqui chamada de "A Obra e seu Tempo", é visualmente agradável e de fácil compreensão. Por meio de seu "Catálogo", podemos passear por todas as obras reproduzidas, separadas por classificações já tradicionais nos CDs de arte: a cronologia e a divisão temática (embora esta "cronologia" não apresente as telas de maneira rigorosamente cronológica, como seria de se esperar...).
Este recurso permite um contato com a obra de Volpi sem intermediários e interferências, sem textos e explicações. Aqui, o visitante pode formar sua própria interpretação sobre o trajeto do pintor, limitado, evidentemente, pela imposição de uma seleção de 200 obras de sua vasta produção. O CD nos oferece, como complemento, a possibilidade de visita "interativa" a uma exposição de Volpi, bastante interessante, embora seu resultado apresente alguns problemas de realização.
O primeiro refere-se ao fato de não podermos escolher o nosso trajeto. Devemos seguir aquele imposto pelo CD, sem possibilidade de voltar para uma sala anterior, a menos que recomecemos o trajeto novamente. As telas nas quais desejamos nos demorar podem ser ressaltadas, algumas acompanhadas de textos de conteúdo às vezes simplista e que passam aos nossos olhos numa velocidade que torna a leitura quase impossível.
Há outros momentos em que a preocupação em tornar o texto excessivamente compreensível apresenta resultados duvidosos: por exemplo, no final do prólogo, quando o narrador deseja a todos que façam com Volpi "bom conhecimento e amizade". Por fim, o CD confunde o seu visitante nas seções "A Vida" e "O Percurso", ao reinventar para seus botões referências iconográficas já generalizadas nos aparelhos eletrônicos, misturando o símbolo da tecla "play" com o da "fast forward".
Nenhum desses problemas, entretanto, retira do visitante o prazer inusitado de encontrar-se com Volpi, quer para conhecer o pintor, quer para revisitá-lo numa perspectiva diferente daquela propiciada pelo olhar padronizador de algumas histórias da arte totalizadoras.
A OBRA
Alfredo Volpi - Vida e Obra (CD-ROM)
Curadoria: Sociedade Para a Catalogação da Obra de Volpi Projeto Memória Volpi (Tel. 011/3105-2967) 216 imagens, R$ 60,00
Paulo Menezes é professor de sociologia na USP, autor do livro "A Trama das Imagens" (Edusp) e do CD-ROM "MAC-USP: Uma Visita Virtual".