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Jessé de Souza - 76 - Julho de 2001
Bandeirantes e caubóis
Foto do(a) autor(a) Jessé de Souza

Bandeirantes e caubóis

JESSÉ DE SOUZA 

Americanos - Representações da Identidade
Nacional no Brasil e nos EUA
Lúcia Lippi Oliveira
Editora UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4656)
224 págs., R$ 25,00

A coletânea de artigos de Lúcia Lippi reúne textos produzidos durante toda a última década. Apesar da contextualização conjuntural inevitável dos diversos trabalhos, o livro possui um fio condutor claro, que é compreender a singularidade cultural americana e perceber sua influência sobre o Brasil nas mais variadas esferas sociais.
Como escolha temática, o livro dificilmente poderia ser mais oportuno. A relação do Brasil com os Estados Unidos é um tema surpreendentemente pouco estudado, se levarmos em conta a avassaladora influência deste país sobre nossos pensadores e políticos. Os EUA, ou o americanismo, como alguns autores preferem, é o contraponto, quase sempre implícito, da maior parte do pensamento social brasileiro com intuitos críticos durante todo o século 20.
O primeiro capítulo pretende fornecer um quadro abrangente dos estudos comparativos sobre os dois países, objetivo que é levado a cabo, ainda que de modo forçosamente esquemático, de forma satisfatória. O segundo relembra a polêmica entre Richard Morse e Simon Schwartzman, debate esse organizado de forma cuidadosa e criteriosa pela autora. No entanto é no miolo do livro, capítulos 3-7, que a autora nos reserva o melhor de seu talento. A noção fundamental em todos eles é a do espaço, ou melhor, das representações sobre o espaço nos dois países e de como essas representações lograram se transformar em concepções de mundo com extraordinária força ideológica.
Com perfeito domínio da bibliografia adequada, a autora examina a importância do tema da fronteira e do sertão entre nós. O herói da fronteira, o bandeirante, irá, na interpretação de Lippi, formar e consolidar a imagem heróica do paulista. O sentido dessa imagem seria bifronte: proporcionar aos próprios paulistas, em época de rápidas mudanças sociais, uma organização do seu particular mundo simbólico e dizer para os novos migrantes e imigrantes quem é o paulista e, assim, aculturar os adventícios. Lúcia Lippi toca certamente num ponto fundamental, ao discutir o nascimento de uma construção ideológica quando ela ainda tinha que se justificar. Hoje em dia, o paulista se acredita tão excepcional dentro do país onde vive quanto o americano em relação ao mundo. Sabemos que a força e a importância de uma ideologia se mede por sua eficácia. Esta é máxima quando se transforma numa espécie de segunda pele, tornando-se tão óbvia quanto a percepção que temos dos nossos próprios pés ou mãos.
As implicações políticas dessa naturalização da ideologia do bandeirante são enormes. Esse não é o aspecto tematizado preferencialmente por Lippi, ainda que existam referências tópicas interessantes sobre esse particular. Seus textos, no entanto, conferem mapa e bússola para quem queira adentrar com segurança nesse sertão.
Os capítulos 5 e 6 são variações instigantes acerca do tema do excepcionalismo americano. Lippi consegue captar num mesmo movimento interpretativo as consequências sociais, políticas e artísticas dessa ideologia identitária, inclusive seus perigos expansionistas e racistas. De certo modo, e isso fica claro na exposição da autora, no excepcionalismo americano habita a mesma ambiguidade inerente ao racionalismo ocidental: pode ser interpretado sob uma ótica universalista e inclusiva, que implica benevolência e solidariedade; ou sob uma perspectiva particularista e excludente, do superior se impondo sobre o inferior, que é visto como algo a ser vencido ou eliminado.
O tema da fronteira para os americanos representa uma continuação do mito fundador americano, que se representa como uma novidade radical e se opõe à Europa como a liberdade em relação à autoridade, o novo em relação à tradição e a virtude em relação ao vício. O tema da fronteira permite a renovação dessa idéia indefinidamente, sempre do Leste para o Oeste ("West is the best", diriam Jim Morrison e Jack Kerouac ainda nos anos 60), criando tanto as figuras míticas do caubói, do homem rude, mas puro, do homem comum como herói cotidiano da democracia quanto a ideologia para exterminar o índio, oprimir o mexicano e diferenciar de modo racista o novo do velho imigrante.
O penúltimo capítulo, sobre o multiculturalismo (percebido como uma variação do excepcionalismo americano em substituição à variante nacionalista) e sua importação pelo Brasil, permite que eu introduza uma discordância com relação ao ponto de vista da autora. É que Lippi tende a acreditar no pressuposto fundamental da ideologia da excepcionalidade que examina, separando desse modo a cultura americana do contexto da cultura ocidental mais geral.
Isso fica especialmente evidente quando aborda o tema do multiculturalismo, que possui sem dúvida peculiaridades na sua versão americana, mas que pode e deve ser percebido, no entanto, mais adequadamente, como um fenômeno ocidental mais geral com fundas raízes, por exemplo, no romantismo alemão com sua ênfase na originalidade pessoal e cultural.
Também a noção de Ibéria, com seus atributos de personalismo, patrimonialismo, clientelismo etc., que Lippi parece aceitar como uma interpretação adequada do Brasil, parece-me comprometida nos seus fundamentos. Como imaginar que um país cuja instituição social mais importante foi a escravidão (que na Ibéria, como no resto da Europa, foi uma presença datada e marginal), instituição essa que lança sua sombra sobre todas as relações sociais, possa ser compreendido como continuação da Ibéria? Esse esquecimento da centralidade do tema da escravidão, tanto no mundo das idéias quanto na política, me parece ser a causa última de sua continuidade intestina entre nós, ainda nos dias de hoje, sob a forma de uma baixa auto-estima socialmente reproduzida nos nossos miseráveis e excluídos.
No entanto, na crítica das ideologias arraigadas, o livro de Lúcia Lippi nos ajuda e muito com seus insights criativos, originais e tempestivos. Vale lembrar ainda um ponto importante e não exatamente frequente em trabalhos acadêmicos: o livro é muito bem escrito, tanto na forma quanto na composição do tema, prendendo a imaginação do leitor.


Jessé de Souza é professor da Universidade de Brasília e autor de "A Modernização Seletiva" (ed. da UnB).

Jessé de Souza é professor de sociologia da UnB.
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