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Michel Paty - 6 - Setembro de 1995
Aventura e coragem da ciência
Foto do(a) autor(a) Michel Paty

Aventura e coragem na ciência

 

MICHEL PATY

"Sutil É o Senhor...": A Ciência e a Vida de Albert Einstein
Abraham Pais Tradução: Fernando Parente e Viriato Esteves Nova Fronteira, 654 págs. R$ 36,00
O riginalmente publicado em língua inglesa pela Oxford University Press em 1982, "Sutil É o Senhor" já é considerado um clássico por cientistas, pensadores e todos aqueles que se interessam pela vida e obra de um dos maiores cientistas do século 20 e de todos os tempos. Em suas páginas, do mais alto nível científico, entrelaçam-se narrativas biográficas detalhadas e apaixonantes sobre vários aspectos da vida bem pouco banal de Albert Einstein. Tais narrativas são enriquecidas com lembranças pessoais do autor, Abraham Pais, físico renomado no campo das partículas elementares da matéria, que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Einstein, em Princeton, durante seus últimos anos de vida.
O livro permite-nos compreender o contexto no qual Einstein se consagrou à ciência, relatando de maneira precisa e instigante sua trajetória de pesquisador, suas escolhas e, fundamentalmente, o modo como ele lidava com os problemas.
De início, Pais descreve os estudos de Einstein sobre a física estatística, objeto de seus primeiros trabalhos, que o conduziram de imediato a dois resultados fundamentais: a descrição do movimento molecular dos corpos e a quantificação da energia da luz. Einstein soube lidar com as flutuações estatísticas, caminho da física dos quanta, tendo sido neste campo mais inovador do que Planck. Passa em seguida à relatividade restrita, desdobrada alguns anos depois em teoria da relatividade geral que, com suas demais pesquisas, seja sobre a cosmologia, seja sobre a unificação do campo contínuo ou as questões fundamentais levantadas pela física quântica, tiveram seu empenho quase exclusivo.
Como se sabe, nas duas teorias da relatividade, Einstein propôs princípios de invariância aos quais a física há de submeter-se, o que resultou numa perspectiva bem diferente sobre os fenômenos do mundo físico. Esse guia heurístico orientou toda sua pesquisa posterior, e sua permanente preocupação foi, após tais descobertas, a procura de uma teoria do campo unificado, capaz de reunir duas áreas de fenômenos pesquisados: o campo definido no contínuo espaço-temporal e os fenômenos descontínuos dos quanta, cada um com métodos distintos.
O filósofo francês Henri Bergson, citado por Pais, disse em 1922, na ocasião de um encontro com Einstein, que a teoria da relatividade inaugurava "um novo modo de pensar" em física e em ciência, apesar de discordar de sua significação -e sobretudo do conceito de tempo. Ora, a questão é saber o que se entende por "um novo modo de pensar". Para Pais, como para os demais físicos, tratava-se, é certo, de uma nova forma de pensar os conceitos, de conceber o tempo ligado ao espaço (o que levou a uma nova lei, não-galileana, de adição das velocidades), de conceber a massa ligada à energia (a ponto de a lei de conservação da massa de Lavoisier não ser mais aplicável, a não ser incluída numa lei de conservação mais abrangente, a de massa-energia). Daí resulta um novo modo de pensar a mecânica clássica, que passa a ser válida somente no caso de movimentos com velocidades bem menores que a da luz, e um novo modo de pensar a química, concebendo a conservação da massa apenas como uma lei aproximativa.
Mas trata-se também de pensar de uma nova maneira o que é uma teoria física com respeito aos fenômenos, qual é a forma matemática de tal teoria com respeito ao significado de suas grandezas características e o lugar e papel dos princípios físicos que relacionam os conceitos expressos por essas grandezas. Essas preocupações de Einstein foram menos enfatizadas por Pais, cuja concepção da física parece pouco sensível à dimensão epistemológica e filosófica do pensamento científico. Seu livro continua sendo, entretanto, a melhor e mais completa biografia geral e científica de Einstein.
"Sutil É o Senhor" permite-nos acompanhar a magnífica aventura do pensamento que foi a vida de Einstein. A jornada rumo à teoria da relatividade geral é possivelmente a melhor ilustração disso. Pais apresenta o artigo de Einstein de 1907, síntese das idéias sobre a relatividade restrita, onde este já sugere idéias fundamentais para a relatividade geral, que serão plenamente exploradas em 1912 (a existência de referenciais de Lorentz locais e a constância da velocidade da luz em deslocamentos infinitesimais). Pais conclui que, apesar das imperfeições, ele admira "esse artigo (...) não tanto pelos detalhes, mas pela coragem" (pág. 214). A coragem de se aventurar nos caminhos da criação numa direção entrevista, consciente das inúmeras dificuldades a serem superadas.
De fato, não se trata aqui de ciência acabada, mas da aventura humana do pensamento científico. O aspecto de maior interesse do livro de Pais é o de ser, antes de tudo, uma pesquisa no trabalho de criação e descoberta científica. Para alcançar a precisão que permita reconstituir os fatos, o autor não se contentou em ser um físico leitor dos textos de um outro físico, mas, fazendo-se historiador, reuniu toda espécie de documento -sobretudo manuscritos inéditos e correspondência- capaz de fazê-lo chegar ao conhecimento "do que aconteceu". Contudo, quando se trata de tentar saber "como aconteceu", o próprio autor considera que aqui ele deixa o campo propriamente dito da história e se volta para o chamado "limiar da história", isto é, especulações sem bases firmes (cf. pág. 191).
Ora, em muitos casos, esse "limiar da história", ou "além da história", não seria outra coisa que a epistemologia e, no caso da história das ciências, considerando os conteúdos científicos, é difícil pensar a história sem epistemologia ou análise crítica dos conceitos e das proposições da ciência. Sua concepção da história da ciência leva-o a julgamentos aos quais falta um certo recuo (por exemplo, quando Pais vê como uma fragilidade, apesar da grandeza do gênio de Einstein, que ele tenha mantido separados os caminhos do campo contínuo e dos quanta, embora tenha procurado sua unificação; pelo contrário, temos nesse caso uma manifestação bem nítida do estilo científico einsteiniano), ou que simplesmente reproduzem os da "ortodoxia" da compreensão da ciência atual (como no caso da mecânica quântica, onde o interesse das críticas de Einstein à interpretação de Bohr é minimizado).
Também por não considerar a legitimidade das questões da epistemologia, Pais interpreta inadequadamente certas colocações de Einstein. Segundo Einstein, "a pura construção matemática nos permite descobrir os conceitos e as leis que os relacionam, o que nos dá a chave para a compreensão dos fenômenos da Natureza" (pág. 201). O que Einstein quer dizer com isso torna-se bastante claro por outras explicações dadas por ele mesmo e por seu próprio trabalho: ele está evocando o que poderíamos chamar "o poder de arrastamento do formalismo matemático", quando este traduz exigências físicas, poder que lhe ficou muito evidente depois de seu trabalho na teoria da relatividade geral. Ora, em vez de reconhecer nisso uma das vias reais da física teórica, já em verdade apontada por Henri Poincaré, Pais quer ver nesta colocação uma mudança da maneira einsteiniana de pensar a física, reduzindo-a a "um desejo profundo de se aproximar da forma divina da criação pura". Mas não é disso que se trata. A incompreensão de Pais deve-se aqui a uma concepção não-epistemológica da história dos fatos da descoberta científica, que remete toda análise desse tipo a um "limiar da história".
O belo livro de Pais oferece mais do que as descrições e análises aqui consideradas. Decidimos, porém, tratar sobretudo do conteúdo científico do livro, que constitui, sem dúvida, seu aspecto mais relevante. O próprio Einstein afirmava que, num homem como ele, a vida se identifica quase totalmente com as idéias científicas, isto é, as idéias a propósito duma indagação sobre a representação do mundo. O aspecto humano de Einstein, ricamente ilustrado no livro por referências biográficas, transparece também nos seus constantes esforços intelectuais, que revelam poder intuitivo e perspicácia racional, imaginação e liberdade de pensamento, entusiasmo juvenil, coragem, sensibilidade quase artística e humor.
A dimensão humana de Einstein é bem resumida por Pais em uma curta frase: "Einstein era o homem mais livre que jamais conheci". Esta é, também, a convicção a que chegamos descobrindo e conhecendo Einstein por meio de testemunhos e narrativas como as de Pais e sobretudo pelos seus próprios escritos, onde estão gravados para a posteridade -senão para a eternidade, que nem o cosmos pode assegurar- traços da sua procura sem-fim neste mundo. 

Michel Paty é diretor de pesquisa no CNRs(França) e professor na Universidade de Paris VII.
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