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Fernando Peixoto - 27 - Junho de 1997
Até rasgar o coração
Foto do(a) autor(a) Fernando Peixoto

Até rasgar o coração

 

FERNANDO PEIXOTO

este livro é fundamentalmente uma reflexão instigante e consequente sobre a fascinante personalidade e a sempre coerente e lúcida trajetória pessoal e intelectual de um ator e escritor que morreu muito jovem (1936-1974), Oduvaldo Vianna Filho, mas que sempre soube e conseguiu integrar, em seu cotidiano e em sua obra, a preocupação artística e a política.
Atravessou instantes de crença no triunfo próximo da revolução socialista, mas também tempos difíceis e angustiantes de repressiva ditadura militar, com censuras e perseguições, que inviabilizaram a continuidade de muitas de suas posturas teóricas e de sua prática de intervenção na transformação da realidade sociopolítica do país. Maria Silvia elabora uma minuciosa análise da obra de Vianinha, não apenas examinando sua dramaturgia, mas igualmente mergulhando no estudo dos pensamentos e das posições que ele assume ou propõe, aceita ou critica, em inúmeros artigos e breves textos teóricos, alguns deles escritos não para serem publicados, mas apenas como notas pessoais para discussões e debates sobre o significado e as tarefas do movimento teatral em circunstâncias históricas específicas.
Essa análise na verdade ultrapassa, em muitos momentos e aspectos, a figura de Vianinha. E transforma-se numa investigação crítica surpreendente e reveladora de diferentes, às vezes conturbados e contraditórios, instantes da vida artística e política nacional. O comportamento ou o questionamento crítico de Vianinha é exposto em detalhes, mas o leitor passa a uma reflexão muito mais ampla e consequente, seu pensamento voltando-se também para a análise da dilacerante e contraditória trajetória de outros artistas, intelectuais e militantes políticos da época.
Ao longo de sua existência, Vianinha alterou muitos de seus princípios de ação e intervenção, sem nunca deixar de manter, de forma coerente e firme, sua posição política em defesa da revolução marxista. Sua preocupação é sempre o significado e as tarefas urgentes da atividade cultural enquanto instrumento de informação e estímulo às camadas oprimidas da sociedade, para que estas possam tomar consciência da realidade e da possibilidade e necessidade urgente de sua transformação. Fiel a um sentimento de crítica e autocrítica, Vianinha empenhou-se sempre em discutir e avaliar a prática, tanto a sua como a de seus companheiros. E, diante de momentos de especial complexidade, não permaneceu preso às mesmas idéias. Ao contrário, repensou princípios ou táticas, valores e projetos, empenhando-se numa revisão do passado e no compromisso com o futuro, com a permanente preocupação de aprofundar e corrigir seu trabalho e transformá-lo em instrumento adequado a cada instante histórico diferenciado.
Em muitos momentos redimensionou sua visão do teatro, o que é visível em várias de suas peças. No final da vida chegou, para surpresa de muitos, a assumir a televisão como veículo para dar continuidade a seu próposito de diálogo com o povo. Escrevendo textos para a TV Globo, era o mesmo combativo Vianinha que alguns anos antes havia dirigido todo seu trabalho para a realização de espetáculos nas ruas e em sindicatos operários, escrevendo e atuando em "autos" revolucionários que deliberadamente esquematizavam situações e conflitos para que tudo resultasse em material mais panfletário e mais evidente a uma platéia proletária que não tinha o hábito de ver teatro, e que necessitava de urgente estímulo e conhecimento para assumir uma postura combativa. Não só ele foi para a televisão -quando a atividade teatral voltou a reduzir-se a espetáculos empresariais em pequenas salas para público pagando ingresso-, o mesmo fizeram também outros integrantes do PCB, entre eles Dias Gomes, Paulo Pontes e Armando Costa, nomes expressivos da dramaturgia nacional.
Maria Silvia analisa estas aparentes ou discutíveis contradições, acentuando sempre as razões históricas de cada opção. O livro expõe o significado de cada momento, as motivações dos princípios artísticos em cada etapa, assim como aprofunda a análise de entrevistas e textos teóricos ou das sempre inovadoras e diferentes peças de teatro, sem nunca traçar parâmetros que seriam definitivos. Ela mostra que Vianinha transforma seus projetos individuais e coletivos em função de análises das circunstâncias. E assume valores novos, mantendo-se sempre fiel a seus princípios básicos e a seu referencial crítico, sem nunca propor conceitos dogmáticos ou imutáveis.
A cada momento assume uma opção: o empenho na análise da realidade nacional de forma realista e crítica durante sua permanência no Teatro de Arena; a busca de um teatro de massas e a defesa de uma postura explicitamente política e revolucionária diante de um público popular nos tempos do Centro Popular de Cultura da UNE; a procura de um teatro informativo e instigante diante do golpe militar de 64 e da necessidade de resistência agora novamente numa pequena sala "tradicional" como a do Grupo Opinião; uma dramaturgia que investe na análise das contradições até psicológicas e de comportamento e opção da classe média e até da vida conturbada no interior das famílias desta classe, diante de um país que consolida o opressivo modelo capitalista; assim como a utilização da televisão como possibilidade de aprofundar um debate efetivo com as classes populares etc. Estas são apenas algumas das etapas.
O fascinante é justamente a diversidade de valores que ele afirma na teoria e na prática. O que Vianinha defende a cada momento pode ser alvo de discordâncias. O que importa é sua honestidade e sua coerência: pode ter cometido erros, ter feito análises precipitadas, ter se equivocado em determinadas conclusões. Mas seu pensamento possui profundidade a cada momento. E acaba gerando obras com diferentes temáticas e diversificadas estruturas narrativas, ainda que mantendo profunda unidade em todos os níveis. Estudos valiosos e permanentes do comportamento do homem brasileiro, revelação de contradições e equívocos de posturas, da dúvida e da crise mesmo psicológica, da difícil opção de valores ou decisões, até mesmo em personagens representantes da pequeno-burguesia nacional. Vianinha tem sempre a consciência nítida de que o referencial e os tempos mudam. E é necessário repensar cada projeto diante de novas realidades. Não hesita em mudar a proposta, a linguagem, a temática ou a maneira de tratar a temática, o objetivo da comunicação e a forma da comunicação.
Diferente de outros livros sobre a obra de Vianinha, este estudo tem um elemento essencial como centro da reflexão: a análise, em relação à obra e ao comportamento pessoal de Vianinha, do valioso projeto de elaboração no Brasil, através da criação artística, de uma postura revolucionária centrada no significado da expressão e do conteúdo "nacional-popular". Vianinha é sem dúvida, num conflito "corpo-a-corpo" com sua própria classe, um dos nomes essenciais empenhados nesta difícil e necessária tarefa, hoje ausente de nossa realidade cultural.
Na primeira parte de seu estudo, Maria Silvia afirma que, entre o final dos anos 50 e a primeira metade da década de 60, o teatro brasileiro "participou apaixonada e intensamente do projeto cultural que visava criar uma identidade para a nação. Temas então emergentes dentro do debate político foram incorporados e as propostas formuladas extrapolaram o setor teatral propriamente dito".
Membro do PCB, como seu pai, muitas vezes assumindo inquestionável liderança de coletivos culturais e teatrais, o jovem Vianinha deixa o Teatro Paulista do Estudante e ingressa no grupo do Teatro de Arena de São Paulo, onde, em 1959, estreará seu primeiro texto, "Chapetuba Futebol Clube". É o princípio de uma atividade não interrompida nem mesmo diante da censura e da repressão fascista do golpe de 64. E sua última obra, que ele termina ditando à sua mãe, já hospitalizado e em estado terminal, é "Rasga Coração", texto de especial vigor poético e político, situando a discussão da questão ideológica a partir de conflitos entre pai e filho, mas não se limitando à descrição de uma crônica ou conflito exclusivamente familiar e, sim, alcançando consequente dimensão de amplo debate do contraditório mecanismo político. Toda sua vida e obra foram efetivamente a exemplar tentativa de ser coerente e militante, na urgente necessidade de construção do "nacional-popular", como acentua Maria Silvia. E ela conclui, afirmando que sua preocupação básica foi analisar este instante essencial da cultura nacional, o admirável esforço de Vianinha em função do que objetivamente representa: "Um percurso de apaixonada e incondicional adesão ao projeto nacional-popular, trilhado e vivenciado até o seu limite final -até rasgar-se o coração". 

Fernando Peixoto é ator, diretor e crítico de teatro.
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