

As viagens do naturalista
Charles Frederick Hartt - Um Naturalista no Império de Pedro 2º
Marcus Vinicius de Freitas
Ed. UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4642)
282 págs., R,00
MIRIAM MOREIRA LEITE
Esta é uma bela pesquisa em fontes primárias sobre o naturalista canadense, naturalizado americano, Charles Frederick Hartt (1840-1878), que veio para o Brasil na expedição Thayer, organizada por Louis Agassiz, aqui permanecendo, de modo intermitente, entre 1865 e 1878, quando morreu de febre amarela, no Rio de Janeiro, como diretor da Comissão Geológica do Museu Nacional.
A intensa produtividade desse jovem professor da Universidade Cornell, que considerava que limitar-se ao ensino era "ficar vegetando", cobria questões de geologia, geografia, zoologia, paleontologia, antropologia, inscrições rupestres, coleta e análise de mitos, descrições de grupos indígenas, descrição e vocabulário da língua tupi. Desenhou paisagens, animais e plantas e entrou em contato não só com cientistas brasileiros, mas com poetas e narradores românticos.
Esses dados rigorosamente objetivos não fornecem ao leitor a posição de Hartt no panorama da ciência no século 19. O que o distingue entre os naturalistas do tempo é o desenvolvimento educacional e científico dos EUA, de que é um produto, e sua inserção na controvérsia teórica em que se viu envolvido em sua carreira. Discípulo e orientando de Agassiz, suíço naturalizado americano, defensor da visão teológica do mundo natural, assistiu à imposição do evolucionismo de Darwin.
Os naturalistas viajantes do século 19, longe de serem estudiosos isolados, estavam ligados por uma formação comum, transmitida pelos enciclopedistas, pelo sistema classificatório da natureza de Lineu e pela capacidade aglutinadora de Alexandre von Humboldt. Para eles, a natureza não se limitava aos reinos mineral, vegetal e animal, mas compreendia os astros, o clima, os mares, o homem, a língua e seus costumes. Outro aspecto que os ligava era considerar tanto a arte quanto a ciência como métodos de aquisição de conhecimento.
Agassiz foi o naturalista mais influente da América no século 19. Tornou a história natural uma disciplina profissional e criou um museu de zoologia exemplar. Para ele, Deus estabelecera um plano predeterminado para a história da vida, criando as espécies numa sequência apropriada ao longo do tempo geológico. Mas ao morrer, em 1873, estava intelectualmente isolado, e viu seus discípulos se convertendo ao evolucionismo e ao mecanismo de seleção natural de Darwin.
Exemplificando a complementaridade entre os trabalhos dos naturalistas viajantes, basta dizer que foi Humboldt quem sugeriu que Agassiz, ainda na Suíça, fosse encarregado da classificação e análise dos peixes que Spix trouxera da expedição ao Brasil, de onde já voltara doente. Outro exemplo é a expedição Morgan, organizada por Hartt e seus alunos da Universidade Cornell, cujo melhor fruto, segundo o organizador, seria a formação de novos naturalistas. Entre seus discípulos, Orville A. Derby tornou-se diretor da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, e Herbert Huntington Smith publicou em 1879 seu livro "Brazil - The Amazonas and the Coast", fazendo a maior coleção de insetos de que se tinha notícia.
Baseando-se em cartas, relatórios, notas de viagem ou de conferências, crônicas de jornal, desenhos e pinturas originais, panfletos de publicidade, o autor destas páginas sobre Hartt comparou-os a artigos científicos e artigos de divulgação publicados pelo naturalista e seus contemporâneos, anais de sociedades científicas e catálogos de exposições. Projetou a análise da produção textual e científica do autor nas transformações do Brasil de d. Pedro 2º, dividindo-a em capítulos sobre os grandes temas de Hartt e seus diálogos com os saberes históricos, sociais, literários, científicos e artísticos que cruzam o Brasil no terceiro quartel do século 19.
A recepção da obra é um capítulo da maior importância -não apenas para a compreensão da repercussão individual da obra de Hartt, mas para a verificação do impacto dos livros de viagens sobre a camada letrada brasileira. A influência recíproca de José de Alencar e Hartt talvez seja difícil de avaliar, mas a utilização de Hartt como fonte por Euclides da Cunha e Mario de Andrade é informação preciosa. Além da contribuição científica propriamente dita, ocorre nesses casos uma incorporação de seus trabalhos à própria cultura brasileira.
O livro acompanha a trajetória de Hartt desde sua condição de estudante em Harvard, passa pelo trabalho auxiliar na expedição de Agassiz ao Brasil, quando data sua ligação com Pedro 2º, mostra como se torna professor de geologia na Universidade Cornell, quando consegue o financiamento para a expedição Morgan, com seus alunos e assistentes, e trabalha com cerâmica, cemitérios e inscrições rupestres. Com a expansão das diferentes áreas disciplinares que constituíam a historia natural, houve também uma adequação tanto de aspectos institucionais quanto de concepções científicas no âmbito das ciências naturais. Dá-se a extensão dos métodos das ciências naturais ao estudo de fenômenos humanos e sociais e o incremento da especialização e da profissionalização de técnicos e cientistas.
É assim que Hartt, em seus últimos anos, é apresentado em suas funções de chefe da Comissão Geológica, empenhado no levantamento geral dos solos brasileiros e, após esforços inauditos no recolhimento de amostras, vê decretado o fim da comissão, por não ter dado resultados imediatos. O financiamento oficial, então como hoje, dependia de uma compreensão adequada do trabalho científico, inatingível para os políticos.
Miriam Lifchitz Moreira Leite é assessora do Laboratório de Imagem e de Som do departamento de antropologia da USP e autora, entre outros, de "Livros de Viagem (1803-1900)" (Ed. da UFRJ).