

As noites românticas de Heine
MARCUS MAZZARI
Entre 1834 e 1840, Heinrich Heine (1797-1856), já vivendo definitivamente em Paris, reúne grande parte de sua produção literária em 4 volumes intitulados "Salon", numa referência ao salão do Louvre destinado a exposições periódicas de artistas contemporâneos. Foi sobretudo com o segundo volume, de que constava "Contribuição para a História da Religião e da Filosofia na Alemanha" (acessível entre nós na tradução de Márcio Suzuki, Ed. Iluminuras), que Heine alcançou ampla repercussão, o que pode ser aferido pelas palavras que o chanceler austríaco Metternich -encarnação máxima da reação pós-napoleônica- dirige a um correligionário aristocrata: "Recomendo-lhe esta obra porque contém a quintessência das intenções e esperanças da "bagage" com que nós nos ocupamos. Ao mesmo tempo o produto heiniano é uma verdadeira obra-prima em relação ao estilo e à forma de exposição. Heine é o maior cérebro entre os conspiradores".
Mas, assim como Metternich, também os censores alemães (os prussianos na linha de frente) já tinham Heine em mira, e este viu-se constrangido a compor o terceiro volume do "Salon" com textos mais amenos, de conteúdo "agradável", com que nenhum censor pudesse implicar. Tal direcionamento parece tomar forma logo no título, "Noites Florentinas", e aqui, de fato, não se enganará o leitor propenso a julgar o conteúdo dos livros pelo título: arte, amor, morte, sortilégio noturno constituem os temas das histórias que Maximilian, em duas noites de vigília, narra à bela e gravemente enferma Maria, como forma de entretê-la em seus últimos instantes e ao mesmo tempo declarar-lhe o seu amor.
A primeira história, reconstituindo a origem da inclinação de Maximilian por mulheres esculpidas ou pintadas, preludia em vários detalhes a estranha conjunção de amor e morte que caracterizará a narrativa, bem mais longa, da segunda noite. Estendida sobre um sofá de seda verde, semblante alvo como suas vestes, Maria desperta em Maximilian a recordação de um episódio de sua infância: o encontro com a "bela estátua de mármore", tombada sobre uma relva, cujos lábios beijara então "com um fervor, com uma ternura, com um desespero com os quais jamais voltei a beijar nesta vida". Em seguida, desdobrando essa temática inicial, o narrador rememora uma fase de sua juventude marcada por extrema solidão, quando a contemplação das belas estátuas de mulheres nos jardins de Sanssouci, em Potsdam, o fez apaixonar-se por uma moça que falecera sete anos atrás.
Deveria encaixar-se aqui -e esse é o pedido de Maria- a história de seu relacionamento com Mademoiselle Laurence, mas esta é demasiado longa e misteriosa para a madrugada já avançada; o enamorado, que vem de uma apresentação operística, alega cansaço e a promete para a noite seguinte. Mas ainda tem vivacidade suficiente para pintar suas impressões na ópera de Florença, que frequenta com a intenção primeira de observar os efeitos da música sobre a fisionomia das "belas italianas". O motivo musical conduz a uma vívida caracterização de sua convivência com Bellini e, sobretudo, Paganini, cujo demonismo artístico (mais um pactuário) se torna intensamente sensível nas "fantasmagorias" que suas execuções ao violino costumavam provocar no narrador.
Na segunda noite ouve-se então uma narrativa romanticamente macabra, que se inicia em Londres, onde Maximilian se depara certo dia, num estado de profunda tristeza, com um quarteto de artistas itinerantes, sentindo-se irresistivelmente atraído pelo olhar hipnótico da jovem dançarina Laurence. O enigma desse olhar se revelará depois em Paris, para onde a história é deslocada, e tem a ver com a circunstância de Laurence -e a antecipação desse paradoxo não diminui a surpresa da leitura- ter sido enterrada antes mesmo do nascimento. Os temas anteriores -amor, morte, mistérios noturnos, arte (sobretudo a dança)- entrelaçam-se aqui de forma tão fantástica e ao mesmo tempo tão lógica que não seria despropositada a lembrança de histórias de Edgar A. Poe.
Mas, como a fantasia de Heine está muito distante da famosa "unidade de efeito" do contista americano, a menção de Londres e Paris enseja digressões amplas e espirituosas sobre ingleses e franceses. É sobre a pronúncia, os costumes, a culinária, a mentalidade dos ingleses que recaem as tiradas mais mordazes de Heine; os franceses por seu turno -como as parisienses voejando pelos salões à semelhança de borboletas entre flores de um jardim- vêem-se reduzidos ao aspecto da frivolidade e da encenação, o que lança um reflexo cor-de-rosa (na novela esta imagem se concretiza) também sobre sua história. Quando Maximilian chega em Paris, os franceses "acabavam de realizar sua Revolução de Julho e o mundo inteiro aplaudia. A peça não foi tão horrível quanto as tragédias anteriores da República e do Império. Só ficaram alguns milhares de cadáveres sobre o cenário".
O leitor familiarizado com os escritos autobiográficos de Heine poderá reconhecer nessas novelas "florentinas" vários elementos de sua "vita", como as circunstâncias que envolveram sua chegada a Paris alguns meses após a revolução de julho de 1830: o enlevo com os cerimoniosos pedidos de desculpa de um francês que lhe dera um encontrão, a impressão de estar ouvindo pelas ruas os animais de La Fontaine etc. Heine também empresta a Maximilian a "paixão por estátuas de mármore", que constitui um motivo recorrente de sua lírica e de sua prosa. Vamos encontrá-lo inclusive no extraordinário prefácio que escreve em 1855 -já totalmente consumido pela doença que desde 1848 o mantém preso a um "sepulcro de colchões"- para a edição francesa do volume "Lutetia", verdadeira obra-prima do jornalismo político. Discorrendo nesse prefácio sobre o comunismo, Heine tempera sua convicção no "triunfo dos proletários" com a apreensão de que possam "destruir tudo o que é belo e sublime neste mundo" e, com sua "ira iconoclasta", despedaçar "todas as estátuas de mármore da beleza, tão caras ao meu coração".
Também as irônicas palavras de Maximilian sobre a culinária inglesa -com seus molhos "feitos de uma terça parte de farinha e dois terços de manteiga, ou, para variar, de um terço de manteiga e dois terços de farinha"- denunciam o hedonismo heiniano cujos resquícios ainda ecoarão no prefácio mencionado: se em favor do comunismo fala a lógica irrefutável de que "todos os seres humanos têm o direito de comer", Heine exprime igualmente o temor de que todos os campos de louros -e dos lírios que não tecem nem fiam- sejam substituídos por plantações de batatas (numa outra passagem, fala da "negra sopa espartana" do futuro comunista) e que das páginas de seu "Livro das Canções" se faça papel de embrulho para café e tabaco.
Se mesmo no leito de morte, sob sofrimentos extremos, Heine ainda foi capaz de reflexões tão espirituosas quanto lúcidas e, ao mesmo tempo, de poemas de intenso lirismo, sua genialidade manifestou-se também num narrador de raro requinte, que soube compensar de muitas maneiras a ausência de um fôlego épico mais longo. Esta recente edição de suas "Noites Florentinas", numa tradução elegante e esmerada (ainda que às vezes resvale em um preciosismo pouco compatível com a ironia heiniana), oferece ao leitor brasileiro a oportunidade de conhecer outra faceta de uma das mais significativas obras da literatura ocidental.
A OBRA
Noites Florentinas
Heinrich Heine Tradução e prefácio: Marcelo Backes Editora Mercado Aberto (Tel. 051/337-4833) 122 págs., R$ 9,00
Marcus Mazzari é professor de teoria literária na USP.