Logotipo do Jornal de Resenhas
Heloisa Pontes - 104 - Março de 2009
Artistas relegadas
Foto do(a) autor(a) Heloisa Pontes

Artistas relegadas

 

Heloísa Pontes

 

Profissão artista – Pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras

Ana Paula Cavalcanti Simioni

EDUSP

360 p., R$ 74,00

 

Profissão artista traz uma contribuição decisiva para o entendimento e apreciação da pintura acadêmica brasileira. Além de desvendar um enigma inquietante da história cultural no país: aquele que está na base do modernismo, ligado à presença de duas mulheres que literalmente deram luz ao movimento, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.

Comparado ao que ocorreu na cena cultural internacional, nosso movimento chamava a atenção pela produção expressiva dessas pintoras. Como foi possível que isso tenha acontecido aqui é o que o livro de Ana Paula Simioni ajuda a desvendar, ao recuperar as condições de produção das carreiras femininas no universo da arte acadêmica. Apesar dos obstáculos enfrentados, havia sim um contingente nada desprezível de pintoras e escultoras. Tarsila e Anita, portanto, não surgiram do nada.

Se o livro contribui para desvelar esse enigma, seus méritos maiores não se resumem a isso. Encontram-se na maneira inovadora e segura com que a autora lida com as fontes, com a bibliografia, com os desafios analíticos postos pela sociologia da cultura, com a leitura das telas, desenhos e esculturas produzidas pelas artistas, consideradas amadoras pela crítica de arte da época, em contraposição aos artistas homens, estes sim reconhecidos como profissionais.

Daí a importância de analisar a crítica de arte e o sistema classificatório que ela acionou para tratar das mulheres artistas, uma vez que as relações de gênero e suas representações são centrais para o entendimento das avaliações que receberam na época. Elas e suas obras foram julgadas por critérios que iam muito além daqueles de ordem estética. Juízos sociais, atributos culturais e ponderações de qualidade, mostra a autora, são inseparáveis do tratamento que essas artistas receberam em vida. Perpetuados até hoje, eles só se tornaram inteligíveis graças ao livro em tela.

 

Trabalhos descartados

 

Até mesmo a ambiciosa Mostra do Redescobrimento (2000), cujo segmento sobre o século 19 permitiu uma justa reavaliação da pintura acadêmica e um acerto de contas com os critérios enviesados da ortodoxia modernista, achou por bem não expor qualquer tela ou escultura de artistas do período. Os trabalhos dessas mulheres foram descartados “sem perdão” – na expressão do prefaciador, Sergio Miceli. Depois da análise eletrizante de Ana Paula, nenhuma outra efeméride ou exposição de balanço sobre a arte acadêmica brasileira poderá cometer tamanho equívoco, sob pena de receber a pior chancela da historiografia, o anacronismo.

 Atenta aos espaços de formação artística para mulheres no Brasil entre os anos de 1884 e 1922, a autora contrasta as instituições de ensino, notadamente a Academia Nacional de Belas Artes, às similares francesas e inglesas, que serviram de modelo para as nossas. Enquanto na Europa, as mulheres com vocação ou pretensões artísticas encontravam um sistema de interdições claramente delimitado, no Brasil, em função da precariedade das nossas instituições (salas lotadas, pouco aparelhadas, professores atribulados), não se constituiu uma barreira formal e legal que impedisse as artistas de freqüentarem, por exemplo, as aulas com modelos vivos - essencial para a habilitação na pintura histórica, o gênero mais prezado da época.

O que não quer dizer que não houvesse outros constrangimentos, mais sutis e perversos, que, internalizados por elas, retiravam de seus horizontes o acesso a esse tipo de treinamento. Não só eles existiam, como são dissecados no livro, tornando obrigatória a relativização de alguns pressupostos bombásticos e universalistas em relação à discriminação sofrida pelas mulheres, que parecem funcionar como canto de sereia para certa literatura feminista recente na história da arte. Caso, por exemplo, de Tamar Garb, que, ao esquadrinhar a contribuição das mulheres artistas no século 19, não hesita em afirmar que muitas delas tiveram que renunciar aos atributos femininos, ameaçando, assim, a estrutura social sobre a qual se erguia a França moderna.

 

Pingos nos “is”

 

Na contramão desses excessos pueris, Ana Paula põe os pingos nos “is’, adensa a trama das injunções que levaram as brasileiras a escolher a prática artística, atendo-se às parcerias, às redes de sociabilidade, aos constrangimentos enfrentados, às avaliações recebidas, à aprendizagem do ofício e às obras produzidas. Após analisar a formação que recebiam aqui, discute as implicações e o impacto da viagem à Paris para as que lá estiveram na condição de bolsistas. A autora arma, assim, o contexto institucional, intelectual e artístico para situar o espaço social no qual elas se moviam, preparando-nos para a análise sensacional das trajetórias de cinco artistas: as pintoras Abigail de Andrade, Berthe Worms, Georgina de Albuquerque e as escultoras Julieta de França e Nicola Vaz de Assis.

Notáveis são tanto a maneira como ela reconstrói os itinerários dessas mulheres, como a desenvoltura com que transita pela análise das obras. Definitiva, arrisco dizer, é a análise da tela Um canto do meu ateliê, de Abigail de Andrade, tamanha a profusão de achados visuais entrelaçados ao deslindamento das dimensões de gênero, da pintura e das relações sociais. Para não ofuscar o brilho da surpresa, convido o leitor a julgar por si mesmo o alcance dessa interpretação. Referência obrigatória para os estudiosos, colecionadores e amantes da pintura, Profissão artista –concebido originalmente como tese de doutorado em sociologia- tem ainda o mérito de ser um dos mais belos livros acadêmicos editados até hoje no país.

 

Heloisa Pontes é professora de antropologia da Unicamp.
Top