Logotipo do Jornal de Resenhas
Luis Claudio Figueiredo - 5 - Agosto de 1995
Arqueologia do sujeito
Foto do(a) autor(a) Luis Claudio Figueiredo

Arqueologia do sujeito

 

LUIS CLÁUDIO FIGUEIREDO 
DESEJO E PRAZER NA IDADE MODERNA

Luiz Roberto Monzani Editora Unicamp, 234 págs. R$ 22,00
Muitas vertentes já foram exploradas com o propósito de investigar as origens e fontes do pensamento freudiano. Alguns comentadores procuraram identificar os modelos epistemológicos que operavam na produção da psicanálise. Outros se dedicaram a rastrear as fontes conceituais de Freud. Neste capítulo, naturalmente, situam-se alguns estudos famosos sobre a história da noção de inconsciente", em particular, no bojo da tradição romântica. Outros, ainda, desenvolveram pesquisas sobre as origens socioculturais da psicanálise, enfocando a gênese e a dinâmica da subjetividade moderna. Neste capítulo encontram-se alguns dos mais notáveis trabalhos sobre a modernidade vienense e sobre as perspectivas que aí se abriam para repensar as questões da subjetividade.
A arqueologia do sujeito psicanalítico que nos é oferecida por Luiz Roberto Monzani não se enquadra em nenhuma destas vertentes e bastava a originalidade de seu projeto para tornar a obra, recentemente publicada, merecedora de nossas atenções. Mas afinal, do que se trata? Trata-se de elucidar o processo de montagem dos fundamentos da vida passional tal como pensados na Idade Moderna, de forma a identificar alguns momentos decisivos na constituição desta subjetividade que veio a encontrar na Psicanálise sua cabal expressão teórica.
A exposição se inicia nos colocando em contato com a querela do luxo" que, nos séculos 17 e 18, opunha os que atacavam o consumo supérfluo a partir de uma idealização da natureza (a natureza por si mesma simples e moderada") aos que defendiam o luxo a partir de uma compreensão absolutamente nova da natureza humana. Nesta nova compreensão há, naturalmente", algo profundamente antinatural na natureza humana: uma indeterminação das necessidades, uma desmesura dos apetites, uma insaciabilidade dos desejos que faz com que a sequência biológica necessidade - desejo - satisfação", característica dos animais, seja profundamente transformada no homem, dando lugar à sequência desejo - necessidade indeterminada - elaboração imaginária - satisfação fugaz - desejo". Como se pode perceber, o novo ingrediente -a elaboração imaginária"- faz aqui toda a diferença: há no homem, segundo esta nova antropologia, uma capacidade ilimitada de antecipar o gozo, ou seja, uma ausência de limites à fantasia, e é daí que podem emergir incessantemente os novos objetos de prazer que tornam qualquer satisfação já obtida mesquinha e temporária.
Não é difícil, como bem observa Monzani, estabelecer uma correlação entre esta nova antropologia -a do homem desejante- e as novas condições da vida social. A formação da economia capitalista e de uma classe burguesa permitem entender a defesa do luxo como a defesa do consumo produtivo": as proliferações dos desejos e dos bens será, mais do que uma possibilidade legitimada pela nova antropologia, uma necessidade do regime de produção. Talvez, contudo, e este é um aspecto que Monzani não considera, possam-se encontrar outras raízes socioculturais, mas não econômicas, para a emergência de um desejo insaciável: a perda dos lugares naturais para os indivíduos, gerada pela acentuação das tendências individualistas na vida social do Ocidente, criou, ao que tudo indica, um desejo ilimitado e desesperado por reconhecimento e identidade.
Lembremo-nos, de passagem, que, em termos hegelianos, é porque o desejo humano é desejo de desejo", luta por reconhecimento, que é infinito. As elaborações do mito de d. Juan, que vão de Tirso de la Molina, no início do século 17, a Mozart e Da Ponte, no final do 18, dão testemunho, exatamente, de uma subjetividade que apenas na conquista e na sedução compulsiva encontra saída a este desejo desenfreado. Creio que, embora não faça parte da querela do luxo", a análise da fascinação pela figura de d. Juan nos poderia levar ainda mais longe no reconhecimento dos ingredientes da nova antropologia: já não estaríamos confinados à apologia do desejo pela via do consumo produtivo", mas nos depararíamos com a grande questão do consumo conspícuo, ou seja, do desejo de reconhecimento suficientemente forte para sustentar qualquer desperdício.
Nos capítulos seguintes, mediante a exegese de alguns pensadores exemplares da época, Monzani vai nos conduzindo pelos caminhos filosóficos em que se foram montando estes novos fundamentos da vida passional. No capítulo intitulado Desejo", vai buscar em Hobbes e em La Rochefoucauld os elementos que marcam a entrada do desejo" como a determinação central da subjetividade. Em Hobbes, os desejos, fundamentalmente o desejo de conservação da vida, são descobertos como o motor permanente, incessante, ilimitado, diverso e multifacetado de todas as manifestações da existência individual. O apetite voraz, o egoísmo em suas formas brutas ou mitigadas vêm a ocupar o miolo dos sujeitos, dando-lhes impulso, direção e forma. Em La Rochefoucauld acentua-se a natureza dissimulada do egoísmo. Egoísmo e vaidade seriam sempre os verdadeiros móveis das ações humanas, mas estariam sempre, ou quase, encobertos pelos véus da hipocrisia, do engano e da auto-ilusão.
Daí a necessidade de uma estratégia de desmascaramento. Impossível não aproximar estes autores de Freud e é o que Monzani faz em duas ocasiões. Ao fim deste capítulo o leitor tomou pleno conhecimento da primeira grande mudança conceitual: da série amor - desejo - prazer" que regia a antropologia clássica e que refletia tão bem a boa ordenação de um universo hierarquizado em que Bem e Mal pareciam existir objetivamente e comandar as ações humanas, passamos, com Hobbes e La Rochefoucauld, à série desejo - prazer - amor", em que o bem" que se ama já não desfruta de qualquer independência diante do sujeito desejante. São os desejos subjetivos que dão a certos objetos as qualidades boas que lhes reconhecemos. São os desejos que constituem seus bens, seus objetos de fruição.
No capítulo seguinte, Inquietude", os autores contemplados são Malebranche e Locke. Na análise das noções de inquiétude" e uneasiness", Monzani acompanha as tentativas da época na busca de uma melhor compreensão da dinâmica do desejo naquilo que tem de especificamente humano, ou seja, como desejo poliforme e insensato. Desejo que se antecipa ao conhecimento, que antecede a representação do desejável, que descarta enfadado e frustrado todos os objetos que encontra e consome. Esta procura de esclarecimento do desejo acaba nos levando para algo que o antecede, como por exemplo, a insatisfação (uneasiness") produzida pela ausência de um bem; ela seria, mais do que a antevisão de um bem ausente, a verdadeira mola propulsora da vontade e da ação. No entanto, nem a inquietude nem o mal-estar dão conta da própria gênese do desejo.
É isso que, segundo Monzani, foi a grande contribuição de Condillac. No último capítulo, Prazer", assistimos à derradeira transformação conceitual que assenta os fundamentos da vida passional da modernidade. No lugar da série, já moderna, desejo - prazer - amor", a partir daqui temos prazer - desejo - amor". Trata-se, em primeiro lugar, de fazer tanto o mundo subjetivo como seus objetos repousarem no princípio do prazer". É da satisfação das necessidades -das experiências de prazer-, alternadas com experiências de desprazer -em que as satisfações são impedidas ou adiadas-, que nascem os desejos. 

Eles são, assim, realidades derivadas: só há desejo quando as alternâncias de dor e prazer puderam ser conservadas na memória de forma a que se busque no futuro os bens já fruídos e agora perdidos. O que Condillac nos proporciona, assim, é uma explicação de como o desejo -esta realidade não-natural, no sentido de que se diferencia do plano das necessidades biológicas- vem a fazer parte de uma natureza, a natureza humana.
Ora, o leitor pode eventualmente estar se perguntando da propriedade do título desta resenha se os autores discutidos foram Hobbes, La Rochefoucauld, Locke, Malebranche e Condillac, além dos que se envolveram na querela do luxo". Realmente, encontramos em todo o livro apenas três menções a Freud, sendo que duas em notas de pé de página. No entanto... No entanto, a psicanálise está presente em toda a exposição e de variadas maneiras. Além dos comparecimentos explícitos, poucos mas significativos, há uma presença difusa da psicanálise. A questão de como a subjetividade se constitui em torno de algo -o desejo-, que se apóia no biológico -a necessidade-, para daí se desviar, criando o campo do especificamente humano, é central no pensamento freudiano. Das necessidades aos desejos, dos instintos às pulsões, há sempre os movimentos de apoio e desvio que começaram a ser pressentidos pelos filósofos dos séculos 17 e 18 e encontraram uma primeira formulação completa em Condillac.
Há, porém, ainda uma outra forma de a psicanálise estar presente. A atenção flutuante da escuta psicanalítica comporta, numa certa medida, ouvir uma coisa pensando em outra". Neste descentramento da escuta em relação a si mesma é que se abrem alguns espaços privilegiados de audição. Da mesma forma, pode ser muito proveitoso ler uma coisa pensando em outra", desde que o leitor não se perca em pueris associações de idéias". Ora, o texto de Monzani parece ter sido escrito com o que eu me atreveria a chamar de técnica do discurso bifocal": escreve-se com grande propriedade e fluência acerca da filosofia, dá-se ao leitor o testemunho de um exercício exegético rigoroso, efetuado segundo os melhores modelos e com o maior respeito aos textos e, no entanto, há para além daquilo que as lentes de ver perto alcançam, a sombra das figuras psicanalíticas se desenhando com mais nitidez que nunca. Deste bifocalismo saem ganhando psicanalistas e filósofos.
O professor Monzani, após belos serviços prestados à psicanálise (Freud - O Movimento de Um Pensamento", Ed. Unicamp, 1989), anunciou que se afastaria dos estudos psicanalíticos. Gostaria de encerrar, dizendo que tudo indica que ele estava mentindo e que a psicanálise, sem dúvida alguma, agradece.

LUIS CLÁUDIO FIGUEIREDO é livre-docente em psicologia geral na USP, professor da pós-graduação em psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP); é autor de A Invenção do Psicológico - Quatro Séculos de Subjetivação" (Escuta/Educ) e Modos de Subjetivação no Brasil" (Escuta/Educ) 

Luis Claudio Figueiredo professor de psicologia clínica da PUC-USP
Top