

Aristóteles entre nós
ROBERTO BOLZANI
muito da riqueza e vivacidade da ética aristotélica se percebe neste número da revista "Analytica", que nos apresenta cinco artigos sob o título geral "A Ética de Aristóteles e o Destino da Ontologia". Resultam de um colóquio ocorrido em 95, em Porto Alegre -talvez o mais significativo evento sobre Aristóteles realizado entre nós-, e são elaborados por especialistas nacionais e internacionais. Sem pretender resumir satisfatoriamente os textos (para tanto, veja-se a rápida, mas eficaz, introdução) e correndo o risco da redução grosseira, um balanço do conjunto permite recortar algumas idéias gerais que poderão ser úteis ao leitor de Aristóteles (o número finaliza com um estudo de grande fôlego, "Dois Destinos Possíveis da Ontologia", de F. Wolff; não é possível aqui dedicar-lhe a atenção devida, mas recomendo sua leitura a quem se interessa pelo tema, de Parmênides aos estóicos e Epicuro).
Uma completa compreensão da ética implica mobilizar conceitos apenas aparentemente externos à problemática da ação e que frequentam também a doutrina metafísica da natureza. Dá-nos um exemplo T. Irwin ("A Ética como uma Ciência Inexata") em sua crítica à chamada interpretação "particularista". Enfocando a delicada idéia de "generalização usual", defende-a na ética com mesma função e sentido que possui na ciência da natureza. Assim, porque a noção de ciência é mais ampla do que possa parecer e engloba tais regularidades, para além da necessidade "stricto sensu" típica da "theoría", a ética pode reivindicar seu lugar, e suas generalizações operam com mais força do que propõe o particularismo.
Indispensável a essa análise parece ser a tese de que, se os domínios da "physis" e da "práxis" comportam tratamento epistêmico semelhante -e a apreensão da concepção aristotélica de ciência exigirá, doravante, que se considerem os textos "práticos"-, é porque as diferenças entre evento natural e ação humana não são, por assim dizer, de essência.
Tese que alicerça também o estudo de C. Natali ("A Base Metafísica da Teoria Aristotélica da Ação"), que evoca o movimento ("kínesis") como componente fundamental para a compreensão da ação, distinto da atividade ("enérgeia") propriamente dita. Também aqui, a aquisição da virtude se dá por processo semelhante ao que resulta no conhecimento do universal teórico -em última instância, porque o homem é um ser natural ao mesmo tempo voltado à contemplação, marca do divino. A ação humana reflete essa situação "antropológica", é complexa.
Movimento e atividade são tematizados também por B. Besnier em sua análise da distinção entre "ação" ("práxis") e "produção" ("poíesis"), mas para criticar a idéia tradicional de que a primeira se diferencia da segunda por possuir finalidade e função imanentes -tese, ao que parece, defendida no texto de Natali. O estudo de Besnier pode mesmo, em linhas gerais, ser lido em confronto com o de Natali: dado o estatuto "intermediário" do humano, somente à "theoría" cabe imanência dos fins, e a "práxis" estará mais próxima da "poíesis", que poderá, inclusive, exibir conteúdo ético.
A afirmação aristotélica de que a política é a "ciência arquitetônica" da prática necessita ser matizada e não deve significar uma redução que furtaria a uma ética do indivíduo seu espaço próprio. É o que o texto de J. A. Giannotti ("O Amigo e o Benfeitor") sobre a amizade nos convida a considerar: em suas formas mais puras -"beneficência" e "grandeza da alma"-, a amizade, sem subverter as diferenças ditadas pela cidade, permite a possibilidade de transcendê-las, de "querer que o outro exista como um outro eu".
Segue caminho semelhante o estudo de Zingano ("Particularismo e Universalismo na Ética Aristotélica"), mas vai mais longe. Aqui, a crítica ao particularismo, embora se alinhe à de Irwin na análise da idéia de regularidade, afirma uma "indeterminação ontológica da ação" que só se resolve por uma deliberação estritamente racional e, portanto, necessária e autônoma -a ponto de a "pólis" ceder terreno ao "cosmopolitismo estóico" ou ao "ser racional da modernidade". É cabível, em suma, pensar uma razão prática em Aristóteles que permite aproximá-lo de Kant -aproximação, bem o sabe o autor, que desafia certa tendência contemporânea a ver na ética aristotélica uma alternativa mais arejada ao rigorismo kantiano.
Por fim, é preciso destacar o fato animador e provavelmente inédito: uma revista nacional especializada publica um número inteiramente voltado à filosofia grega. Aqueles que dedicam seus esforços de pesquisa aos antigos, enfrentando dificuldades variadas, sabem o que isso significa e se sentem recompensados, agradecidos e motivados.