

Arestas da ironia
ENEIDA LEAL CUNHA
Embora Linda Hutcheon ressalte em sua introdução que não escreveu "mais um livro sobre o pós-modernismo", "Teoria e Política da Ironia" pode ser lido como uma instigante reflexão sobre impulsos e impasses da contemporaneidade cultural.
Desde 1978, as publicações da autora têm linhas de força que poderiam ser indicadas na série "paródia", "ironia", "pós-modernidade". Se o foco desta mais recente tradução se fecha sobre as "cenas da ironia", para a construção teórico-crítica e a abordagem política que o livro empreende são indispensáveis as colaborações de pelo menos dois eixos de problemas que geralmente se nos apresentam com a partícula "pós", apreciemos ou não as palavras "pós-estruturalismo" e "pós-modernidade". Ou, como afirma, são inevitáveis as "semelhanças de família" com os trabalhos anteriores: dialogismo bakhtiniano, teoria dos atos de fala, análise pragmática e "toda uma gama de achados pós-estruturalistas e feministas".
A vasta tradição ocidental dos estudos da ironia é convocada sem parcimônia, embora com critérios claros de adesão e recusa. Interessa aos sete capítulos que compõem o livro todo o aparato teórico-descritivo que favoreça o deslocamento da problemática da ironia dos limites do tropo retórico, da simples substituição antifrásica do dito pelo não-dito, como a conceberam as abordagens mais tradicionais; ou da generalidade da chave poética, formulada pela "poderosa tradição moderna" -diz ela- do "new criticism". Especialmente importa à autora marcar a sua discordância de toda abordagem da ironia que amenize as suas arestas críticas ou os juízos de valor que encenam, obliterando as relações de poder que estão em jogo no acontecimento irônico.
Trabalhando a ironia como "prática ou estratégia discursiva" política e culturalmente contextualizada, o estudo apresenta formulações desviantes ou reversivas de concepções firmadas; daí o relevo do papel do "interpretador", que a autora sobrepõe com veemência à intenção do ironista. A ironia aconteceria mais por uma atribuição de sentido (irônico) do que por uma intencionalidade corretamente percebida. Embora não sejam irrelevantes o "enquadramento" ou os "marcadores" contextuais, textuais e intertextuais da ironia, aos quais se dedica com um provocativo intertítulo: "O(s) Sinal(is) da Besta".
Ainda na contramão, argumenta-se que as ironias não criam uma comunidade entre ironista e interpretador; a existência prévia de uma "comunidade discursiva" é dada como condição indispensável ao pleno acontecimento da ironia, mesmo que nada de muito estável e seguro possa ser concebido contemporaneamente em termos de limites e consistência dessas "comunidades", discursivas ou de interesses.
A revisão mais sistemática da tradição ocorre quando está em pauta o valor da ironia, seja do ponto de vista da sua utilização, seja do ponto de vista da avaliação dessa estratégia discursiva que "nas culturas ocidentais sempre fascinou igualmente teóricos, críticos e artistas". Este é o tópico insistentemente explorado, as "arestas da ironia", título original do livro, tratadas de dois ângulos: a "atitude avaliadora", a distinguir a ironia de outros tropos que lidam com um dito e um não-dito; e a "natureza transideológica da ironia" -palavra estranha, usada para dar conta das ambiguidades, das diferenciadas apropriações e das contrastantes construções de sentido que a ironia permite ou muitas vezes estimula.
Faz-se nas páginas de "Teoria e Política da Ironia" um trânsito intenso entre teorização e apreciação crítica de objetos da cultura contemporânea, privilegiando filmes, espetáculos musicais -montagens atuais de óperas wagnerianas, quase sempre-, e exposições de artes visuais, lugares onde é possível flagrar a recepção pública da ironia, ou objetos aos quais é possível, num gesto interpretativo, atribuir ironia.
Os exemplos escolhidos reforçam a "teoria geral da ironia" que Hutcheon intenta construir: se a aresta crítica pode "cortar de vários lados" é porque a ironia acontece no espaço entre o dito e o não-dito, igualmente ativos e em fricção. Por isso a ironia seria a estratégia discursiva de oposição eleita, em nossos dias, por aqueles que precisam enfrentar o que não se pode apagar ou não se deseja recalcar, como o anti-semitismo e outras discriminações raciais, sexuais, de classe ou de gênero; ou -em circunstâncias de eficácia menos segura, pois abarca comunidades não tão afinadas-, para minar o peso de uma memória histórica, estética e cultural opressiva. Nesse âmbito largo pode ser providencial o que na ironia -como nos simulacros- é significação suplementar, crítica, desconstrutora de significações estabilizadas. Ou pode não ser.
As leituras de Hutcheon tanto focalizam acontecimentos irônicos bem-sucedidos (como os trabalhos de artistas afro-americanos), quanto os que suscitaram o debate público sobre a viabilidade da desconstrução irônica.
Da diversidade de exemplos ou objetos de análise emerge a questão mais provocativa do livro: o êxito ou o malogro da política da ironia. Emerge também a face mais incerta desta nossa contemporaneidade, que já não convive bem com a autoridade pedagógica das formulações unívocas e detém-se no questionamento dos valores -no caso, o valor político da ironia-, mas nem sempre pode ou quer aceitar qualquer margem de ambiguidade. O livro de Linda Hutcheon vale ainda por expor onde e quando a ambiguidade -os dois gumes da faca- é politicamente intolerável.
Eneida Leal Cunha é professora de literatura brasileira da Universidade Federal da Bahia.
Teoria e Política da Ironia
Linda Hutcheon
Tradução: Julio Jeha
Editora UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4650)
359 págs., R$ 34,00