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Nélio Bizzo - 106 - Junho de 2016
Amor e ódio à natureza
A associação das espécies na marcha evolutiva
Foto do(a) autor(a) Nélio Bizzo

NELIO BIZZO

Amor e ódio na natureza

A associação das espécies na marcha evolutiva

 

 

O TAPETE DE PENÉLOPE. O RELACIONAMENTO ENTRE AS ESPÉCIES E A EVOLUÇÃO ORGÂNICA

Walter A. Boeger

EDITORA UNESP

108 p., 15,00

 

Este livro focaliza um alvo interessantíssimo, pouco explorado pela literatura de divulgação científica. Ele se dirige ao público que não é especializado em biologia e que, portanto não reconhece o que venha a ser um acantocéfalo à primeira vista. É mais comum nesse gênero de literatura termos exemplos de uma espécie em particular ou mesmo de um grupo de espécies intimamente aparentadas, e sua história evolutiva. Mas, como artrópodos e protistas, de maneira ampla, podem ter enfrentado os percalços evolutivos de maneira associada? Este é exatamente o foco desse livro, que busca corajosamente enfrentar um tema complexo, dirigindo-se a um público leigo e fazendo uso de uma erudição que exige algo do leitor, a começar pelo próprio título.

A empreitada corajosa é, em certa medida, alcançada, ao remeter o leitor a um grande leque de contextos biológicos que nos expõem os limites entre os relacionamentos de amor e ódio na natureza. É surpreendente ler, na escrita de um especialista em parasitologia, como a linha divisória entre o bem e o mal no mundo biológico é tênue. Até mesmo um biólogo se surpreenderá ao ver como o conceito de parasita comporta diferentes interpretações, que nem mesmo na Grécia Antiga – de onde o conceito foi originalmente tomado – seria possível imaginar.

 

Refinamento mecânico

 

Uma lombriga é, certamente, um parasita indiscutível, mas Walter Boerger nos faz pensar como ela conseguiu ir parar em nosso intestino, com o sucesso adaptativo que isso representa – para ela, pelo menos. As pré-adaptações foram passos indispensáveis, sem dúvida, pois sem uma capa protetora seria impossível suportar a alquimia dos processos digestivos que ela e os demais membros de seu grupo devem enfrentar nos intestinos que frequentam. Estes, por sua vez, podem ter sido subprodutos de um refinamento mecânico que evitava os dentes e garras da natureza.

Mas, para além de lombrigas, o livro nos remete a todas as células dos animais e vegetais. Nesse mundo não teríamos nem lombrigas, nem humanos, se não houvesse a possibilidade de associação intracelular que permite aproveitar a glicose de maneira eficiente, com auxílio do oxigênio. Essa possibilidade está disponível há relativamente pouco tempo, no escopo evolutivo dos seres vivos, e tudo leva a crer que a associação entre diversos seres vivos tenha proporcionado essa possibilidade original há algo como 1,6 bilhão de anos. A própria existência de gás oxigênio foi resultado de outra série de associações entre diferentes organismos. Mas o fato é que essas associações, de tão eficientes, deixaram marcas que podem ser reconhecidas até hoje, desde a folha de alface até nosso dedo, ou mesmo as células de uma lombriga.

Não se trata de assunto fácil, e o livro adverte sobre isso. A começar pela menção aos acantocéfalos, que aparece já à p. 20, em um esquema, o leitor se obriga a buscar uma conexão à internet para esclarecimentos, desde os esquemas que aparecem no livro até a terminologia específica que é utilizada, por vezes de maneira inadvertida. O leitor vai encontrar frases como “os apicomplexos apresentam um plastídeo não funcional que expõe seu passado fotossintetizante!”, na qual a exclamação, para ser entendida, deverá ser fruto de pesquisa adicional. O glossário do próprio livro é tímido a ponto de nada dizer dos acantocéfalos e pouco auxilia na compreensão de certas exclamações ou mesmo certas aspas.

O livro se detém em certos exemplos e em alguns formalismos que a publicação não deveria buscar, já que se pretende voltada para um público não especializado. Por exemplo, o texto afirma que o termo técnico utilizado para descrever certo tipo de relação entre parasita e hospedeiro é “especialização”. Poucas linhas adiante, diz que, em parasitologia, a especialização é, na verdade, designada pela expressão “especificidade parasitária”. A especificidade léxica diz pouco ao público alvo da coleção, que precisaria apenas entender melhor de que maneira parasita e hospedeiro podem desenvolver relações tão íntimas, a ponto de lembrar certos casais apaixonados.

 

A salamandra e o predador

 

Em contrapartida, quando se trata de exemplos, inclusive de casos com vasta literatura e muito divulgados, a abordagem é excessivamente resumida e genérica. É o caso da salamandra norte-americana altamente tóxica e de seu predador, uma serpente que tem resistência à sua toxina. Nem mesmo se diz onde essa salamandra e seu predador ocorrem, havendo apenas a menção a seus nomes científicos (Taricha granulosa e Thamnophis sirtalis), o que certamente significa pouco para o público leitor. O mais interessante não é dito no livro: a resistência à toxina prejudica a mobilidade da serpente; assim, quanto mais resistente ao veneno, mais vulnerável aos seus próprios predadores ela fica. Portanto, não se trata apenas de um equilíbrio entre a salamandra e da serpente, mas também dos predadores da serpente. Em síntese, o exemplo é excelente para o tema do livro, mas passa quase desapercebido. O tapete de Penélope poderia ter uma tessitura mais complexa, para benefício do argumento do próprio livro.

Encontramos nesse pequeno livro um tema interessante e assuntos que poderão abrir horizontes muito amplos, mas certamente demandará leituras de apoio e explicações adicionais que possam mostrar ao leitor como um assunto complexo pode ser entendido com certa profundidade mesmo por um público que não costuma falar de acantocéfalos e pogonóforos com naturalidade. Tratar assuntos complexos com simplicidade não é fácil e O Tapete de Penélope é um exemplo disso.

 

 

Nélio Bizzo professor de ciências biológicas da USP.
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