

O livro divulga a correspondência entre Joaquim Nabuco e a British and Foreign Anti-Slavery Society (BFASS) e sustenta que houve uma coligação entre ambos, envolvendo ainda uma terceira parte: o jornal Rio News, escrito em inglês, editado e publicado no Rio de Janeiro por Andrew Jackson Lamourieux, que circulava entre estrangeiros ali residentes e no exterior. Na aliança com Nabuco, nomeado correspondente da organização, a BFASS via uma maneira de justificar sua atuação e existência em um momento em que a luta contra a escravidão já não despertava tanta atenção e apoio junto à opinião pública britânica. “Para Joaquim Nabuco, ligar-se à BFASS representava antes de tudo ganhar projeção internacional para consolidar sua carreira como político profissional abolicionista”, segundo Penalves.
Abolicionismo limitado
Ao contrário do que sugerem a maioria dos seus biógrafos, a começar pela filha, Nabuco seria um “abolicionista para inglês ver”. Seu abolicionismo era limitado, dirigido aos senhores e aos “ricos”, e não aos escravos. Ou, mais precisamente, ao mandarinato imperial. Assim, em artigo publicado em O País em 1886, ele considerava que, “entre nós não existe povo nem opinião pública”, tudo girando em torno do Imperador. Daí que o partido liberal deveria entrar “no terreno das reformas sociais, que afetam massas inconscientes do povo”. E como o Imperador aderia aos preconceitos conservadores, os liberais só tinham uma alternativa: “por certo não temos povo, politicamente falando, mas é preciso supor que ele existe. A agitação acaba por fazer nascer a consciência. Nós não podemos resignar-nos a que o Partido Liberal se converta ao absolutismo”.
Lançando mão de uma passagem de Minha formação, obra escrita 14 anos mais tarde, depois de sua guinada conservadora, que visava enaltecer a monarquia e seu papel na Abolição, Penalves conclui que a intenção de reorganizar o partido liberal “jamais saiu do papel. De qualquer maneira, uma coisa é indiscutível: a campanha abolicionista de Joaquim Nabuco ficou circunscrita aos ‘ricos’ e ao ‘absolutismo’”.
São conhecidas as passagens em cartas, discursos, panfletos e livros em que Nabuco diz que a propaganda e a ação abolicionista não deveriam se dirigir ao escravo, que a abolição deveria ser decidida no parlamento etc. Isso levou alguns estudiosos a interpretar seu abolicionismo como conservador, oposto a outro abolicionismo mais autêntico, radical e consequente. Penalves não apenas concorda com essa avaliação, como questiona que Nabuco tivesse desempenhado papel relevante, ainda que conservador, no abolicionismo. Seu principal argumento é que a atuação de Nabuco na imprensa, nas conferências etc., se dirigia a um público restrito, tanto por opção sua, como porque “muito pouca gente ouvia os seus discursos ou lia seus artigos num Brasil rural, cuja população era predominantemente analfabeta”.
Meetings e comícios
O fato, porém, é que Joaquim Nabuco participava de meetings e comícios de rua da campanha abolicionista. Por notícias da imprensa, discursos parlamentares, relatórios policiais e outros, memórias, cartas privadas, diários e outras fontes disponíveis e já em larga medida trabalhadas, sabemos que a campanha abolicionista incendiou diversas cidades do Império: a Corte, Campos dos Goytacazes, Santos, Salvador, Recife, Fortaleza, Porto Alegre e outras tantas.
A palavra escrita, mesmo em ambiente iletrado, era ampliada e retransmitida por uma cadeia de jornaleiros, agitadores, transeuntes que perambulavam pelas ruas, reuniam-se em quiosques, cafés, tabernas, tascas. Os acontecimentos eram comentados através de uma rede informal que era alimentada e alimentava o circuito formal de discursos, notícias etc. As sedes dos jornais eram pontos de encontro onde se sabiam dos acontecimentos em primeira mão, faziam-se discursos, espalhavam-se boatos ou fatos verdadeiros, e onde pequenas multidões se aglomeravam.
Pode-se argumentar, no entanto, que o fator predominante para a abolição não estava nas cidades, mas no campo, onde a ação direta de abolicionistas, agitando as senzalas, e as fugas e levantes em massa de escravos foram decisivos. Mas foi a agitação abolicionista urbana, na qual Nabuco se destacou, que acendeu a fagulha e incendiou os campos. Se Nabuco não foi participante direto desse incêndio, nunca deixou de posicionar-se a favor do abolicionismo radical. Só mais tarde, suas cartas e seus posicionamentos deixam entrever que considerou a abolição, da forma como fora feita, uma precipitação. Mas isso é outra história.
Finalmente, cabe avaliar o conteúdo e o sentido do abolicionismo de Joaquim Nabuco.O que pode ser feito através de seu livro O abolicionismo, de 1883, uma tentativa de entender, teorizar e prognosticar sobre o que acontecia e o que deveria acontecer no país. Defendia a abolição imediata e sem indenizações, principal bandeira dos abolicionistas. Ia além. A escravidão no Brasil era diferente daquela que havia sido experimentada no Sul dos EUA e nas colônias européias do Caribe. Aqui a escravidão era um fato nacional e não era restrito a uma parte do país. Por isso, ela dizia respeito ao conjunto da nação e do povo. Os escravos e libertos – entendidos por Nabuco como todos aqueles direta ou indiretamente descendentes de escravos no Brasil - compunham a maioria do povo, que, entretanto, a escravidão excluía da vida nacional.
A abolição, nessas condições, representaria a constituição política do povo. É esse o sentido da idéia de que inexistia “povo, politicamente falando” e de que a agitação acabaria “por fazer nascer a consciência”. No entanto, não se tratava meramente de agitação. A abolição implicava na necessidade de realizar três outras tarefas: 1) taxação do latifúndio e implantação da pequena propriedade para os libertos; 2) democratização do Estado, que se transformara numa máquina de empregos; 3) promoção da instrução no seio da população em geral e dos libertos em particular. A maior parte dessas idéias era encampada pelo movimento abolicionista. O abolicionismo é a mais completa formulação do que se poderia, com alguma liberdade, chamar de um “programa do movimento abolicionista”.