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Rubens Figueiredo - 64 - Julho de 2000
A voz do futuro
Foto do(a) autor(a) Rubens Figueiredo

A voz do futuro

RUBENS FIGUEIREDO

Em uma entrevista, João Cabral declarou que, quando jovem, não gostava da idéia de ser poeta, pois parecia coisa de afeminados. Por sua vez, o russo Óssip Mandelstam (1891-1938) afirmou que "poesia é poder" e disse também que "só em nosso país se fuzila um homem por causa de um verso".
Se no Brasil a literatura costuma ter uma reputação ornamental e retórica, na Rússia a situação era bem diferente. Tanto no czarismo quanto no socialismo, os escritores eram tidos como líderes morais, porta-vozes de tendências profundas do espírito nacional. A ninguém pareceu um despropósito a ambição de Gógol, que almejava regenerar moralmente a Rússia czarista com o romance "Almas Mortas". Assim também não soa um disparate a crença de que os livros de Akhmatova, Pasternak, Brodsky, Soljenitzin ou Óssip Mandelstam hajam tido um peso considerável na corrosão e derrubada do regime soviético.
Se pensarmos na tradicional carreira no serviço público que caracterizou a vida dos escritores brasileiros, a biografia dos autores russos mencionados acima estabelece um contraste cujo sentido não se pode ignorar. Todos tiveram um destino trágico, fruto de perseguições implacáveis. Mandelstam não foi exatamente fuzilado por causa de um verso. Leu para uns poucos amigos um poema em que dizia, entre outras coisas, que o bigode de Stálin parecia uma barata. Preso duas vezes e deportado para a Sibéria, morreu de fome e esgotamento, depois de semi-enlouquecido, em um campo de prisioneiros. Os médicos acompanharam, dia-a-dia, como seu corpo definhava. Morto, tiraram suas impressões digitais, amarraram em seu tornozelo uma tabuleta com seu número, jogaram o cadáver em uma carroça, onde já estavam outros corpos. Todos foram levados para fora do campo e lançados em uma vala comum.
Só se soube disso há poucos anos, quando os arquivos da polícia política foram parcialmente abertos aos pesquisadores. A história, portanto, veio dar um sentido irônico a uma afirmação que Mandelstam deixou em "O Rumor do Tempo": "Não quero falar de mim, mas seguir de perto o século. (...) Minha memória é hostil a tudo o que é pessoal". Pois tornou-se impossível ler a obra de Mandelstam sem ter em mente a sua vida. Ao escrever esse livro de memórias, o impulso do poeta era justamente o oposto: "Minha memória não é amorosa, mas hostil, e não trabalha a reprodução, mas o descarte do passado". Talvez à sua revelia, encarnou tão bem o seu século que a sua poesia se tornou prisioneira da sua biografia.
Da mesma forma que aspirava a rechaçar o passado, Mandelstam queria também se desvencilhar de suas origens judaicas. O judaísmo "não era pátria, nem casa, nem lar, mas precisamente o caos, um desconhecido mundo uterino de onde eu havia saído, que me dava medo, do qual eu tinha uma vaga suspeita -e fugia, sempre fugia". Mandelstam escreve suas memórias como quem deseja cancelar o passado para interferir no futuro. Por isso, em "Viagem à Armênia", que a editora 34 publica no mesmo volume, ele diz que o homem, "essa salamandra pensante, adivinha o clima de amanhã com o único fim de ele mesmo lhe definir o colorido".
O rumor do tempo, para o poeta, é a voz que vem do futuro. São esses os sinais que ele tenta depreender das circunstâncias e das pessoas que conheceu na infância e na juventude. "Os apitos dos navios e dos trens se misturavam à patriótica cacofonia da abertura de 1812 e um cheiro especial se espalhava pela imensa estação onde reinavam Tchaikóvski e Rubinstein." A música e os sons da cidade se fundem em algo que o poeta interpreta como o "espírito da intranquilidade civil". Assim, na estréia de uma composição de Scriabin, as pessoas "chegavam ao furor, ao delírio. Não se tratava de melomania, mas algo temível e até perigoso erguia-se de grande profundidade, como se uma sede de agir, uma surda intranquilidade pré-histórica estivesse corroendo a Petersburgo de então".
O prenúncio de uma grande transformação, é verdade, assinala boa parte da poesia simbolista russa. O célebre poema "Os Doze", de Blok, tem um óbvio teor profético. É sabido que o espírito revolucionário se integrou naturalmente ao misticismo russo e o próprio Mandelstam diz que suas "primeiras vivências religiosas" são inseparáveis do seu envolvimento com a doutrina marxista.
Mas Mandelstam se contrapunha ao simbolismo. Em lugar do sentido nebuloso da poesia simbolista, ele preconizava o rigor da construção, a materialidade da palavra, o amor ao mundo sensível. Os presságios que suas memórias desentranham do passado não provêm dos efeitos acústicos da poesia simbolista: "Com a vivacidade do ouvido atento à longínqua debulhadeira no campo, eu escutava não como a cevada inchava e ganhava peso nas espigas, não como inchava e ganhava peso a maçã do norte, mas como o mundo, o mundo capitalista inchava para cair!".
Para Mandelstam, poesia é poder. Suas memórias querem abolir o passado e interferir no futuro. O mundo capitalista caiu, mas nada correu como ele desejava. O destino de Mandelstam -assim como a prosa desconcertante de "O Rumor do Tempo"- deixa claro que o poder da poesia é concorrente de outros poderes, que a aniquilam, se não conseguem controlá-la. Os intelectuais russos se caracterizaram por levar suas idéias às últimas consequências e não fazer nenhum segredo disso. A história não se fez de surda e lhes pagou na mesma moeda.


Rubens Figueiredo é escritor e tradutor, autor de "As Palavras Secretas" (Cia. das Letras).

Rubens Figueiredo é escritor e tradutor.
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