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Renato Mezan - 63 - Junho de 2000
a voz da razão
A psicanálise inserida num contexto político
Foto da capa do livro Por que a psicanálise?
Por que a psicanálise?
Autor: Elizabeth Roudinesco
Tradução: Vera Ribeiro
Editora: Jorge Zahar Editor - 164 páginas
Foto do(a) autor(a) Renato Mezan

Já conhecida no Brasil por sua "História da Psicanálise na França", pela biografia de Lacan e, mais recentemente, pelo "Dicionário de Psicanálise" que redigiu com Michel Plon, a historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco enfrenta em seu novo livro uma questão crucial: a psicanálise ainda tem razão de ser? Pode parecer bombástico dizer que esta questão é crucial, pois nestes tempos sombrios tantas outras parecem mais relevantes; mas ela o é porque, em sua aparente limitação, convoca todo um debate acerca da sociedade em que vivemos.

O livro de Roudinesco está longe de ser a defesa panfletária de uma prática por muitos considerada "elitista" ou "ultrapassada". Sua originalidade, diante de outros que se ocupam do mesmo tema, reside em inscrever a psicanálise e seus críticos num contexto político, mostrando que, como terapia e teoria, ela faz parte do social e das representações, inclusive científicas, que este social forja sobre si mesmo e sobre a natureza. Pois a ciência nada tem de algo desencarnado ou etéreo; ela é uma instituição e, como tal, mergulha suas raízes na sociedade e na história.
Extremamente informativa, a obra situa em primeiro lugar o debate sobre a validade da psicanálise no contexto propriamente científico. A disciplina freudiana é atualmente atacada pelos partidários dos tratamentos químicos, que assentam sua posição na tese de que o sofrimento psíquico tem causas unicamente orgânicas. Sem cair no obscurantismo de pretender que os medicamentos sejam inúteis ou nocivos, a autora mostra que eles não podem abolir a subjetividade, as paixões e os conflitos que tornam psíquico o padecimento psíquico. E essa subjetividade, duramente conquistada ao longo da história, é um fato tão importante para o ser humano quanto seu corpo ou sua pertinência a uma determinada cultura. Por isso, são equivocadas as pretensões de a reduzir ao funcionamento químico do cérebro, como mostra Georges Canguilhem -a quem não se pode acusar de simpatias pela psicologia- numa conferência comentada por Roudinesco numa passagem central do livro.
Alicerçada num sólido conhecimento da história social e política, bem como da história das ciências e da própria psicanálise, a tese da autora afirma que a invenção freudiana é um "avanço da civilização sobre a barbárie", porque concebe o homem como dotado de razão e de liberdade -no que é herdeira do Iluminismo e de seu ideal emancipatório- e simultaneamente como sujeito às paixões, à sexualidade e à loucura. Mas estas não são algo inumano, como pretenderia o puritanismo travestido de ciência: pertencem à própria essência do humano, pois, na bela fórmula da autora, "a razão vacila no interior de si mesma".
É isto que a teoria freudiana tenta explicar, fundamentando sua prática clínica -que, antes de mais nada, dá a palavra ao sujeito: a aposta consiste em que, expondo-se ao contato com o outro nas condições codificadas da situação analítica, desvelem-se os determinantes que fazem desta pessoa "esta" e não outra, com estas e não outras "soluções" para os conflitos em que a lançam suas emoções, fantasias e ideais.
Roudinesco examina então as críticas mais frequentes à solidez da teoria psicanalítica e à eficácia da terapia que nela se baseia, mostrando como justamente aqueles cientistas que aderem aos cânones da ciência "pura e dura" são os que têm do psíquico as opiniões mais extravagantes e equivocadas. Descreve o impacto que tiveram sobre a teoria e a prática da psicanálise movimentos sociais como o declínio da autoridade patriarcal e a emancipação da mulher e, num gesto de audácia, sugere que o mito freudiano de "Totem e Tabu" contém uma teoria democrática do poder, baseada no respeito à lei e no pacto exogâmico firmado pelos irmãos.

Abolir o humano
Na análise das condições sociais e ideológicas que favorecem o surgimento dos argumentos pseudocientíficos contra a psicanálise, Roudinesco privilegia os fatores que, em sua opinião, tornam a sociedade atual produtora de depressão em escala macroscópica. Entre eles, destacam-se a crença na possibilidade de "abolir o humano" (Francis Fukuyama, por exemplo, expressa esta expectativa num livro recente) e a idéia aberrante de que a liberdade, a autonomia e a responsabilidade são valores superados pela globalização da economia e pelos progressos inegáveis da medicina.
O próprio Freud, aliás, já havia encontrado críticas parecidas, e não se lhe pode negar uma dose de razão quando constata que "a psicanálise só extrai desvantagens de sua posição intermediária entre a medicina e a filosofia. O médico considera-a um sistema especulativo e se recusa a crer que se baseie numa paciente e trabalhosa elaboração de fatos procedentes do mundo da percepção, como qualquer outra ciência natural; o filósofo, que a mede com o metro dos seus próprios sistemas artificiosamente construídos, considera que ela parte de premissas inaceitáveis e critica-lhe o fato de que seus conceitos principais -ainda em pleno desenvolvimento- careçam de clareza e de precisão".
Ainda hoje essas palavras soam verdadeiras: por um lado, temos críticos que consideram inaceitável o sistema conceptual da psicanálise, supostamente frágil (por exemplo, Adolf Grünbaum), verberando Freud por ter sido incapaz de rever suas idéias e curvar-se à prova da experiência; por outro, os modernos representantes das ciências naturais descartam a psicanálise por ser pouco "empírica", assentando suas teorias em bases impossíveis de serem quer comprovadas, quer refutadas.
É um mérito de Roudinesco ter apresentado e discutido com cuidado inúmeras dessas críticas, dos dois lados do Atlântico -pois os EUA, depois de terem sido fanaticamente favoráveis ao que julgaram ser a doutrina freudiana, hoje são o principal reduto de onde partem os ataques a ela.
O livro é, por outro lado, crítico em relação às instituições psicanalíticas, que se defrontam hoje com desafios aos quais nem sempre sabem responder. Um deles é o de preservar as conquistas realizadas pela psicanálise ao longo do século 20 e, ao mesmo tempo, renovar-se sem ceder ao canto de sereia de uma pós-modernidade frequentemente reacionária, irracional e no fundo pré-moderna. Pois esta é a grande virtude do argumento que a autora vai tecendo: não se deixar embair pelo existente e, por meio da crítica às vezes contundente das aberrações que nele proliferam, justificar uma posição progressista, consciente das dificuldades e dos impasses, mas serenamente confiante nas possibilidades da razão. Como, aliás, o próprio Freud, que escrevia em "O Futuro de uma Ilusão" (1930): "A voz do intelecto é suave, mas termina por se fazer ouvir".


Renato Mezan é psicanalista, professor da Pontifícia Universidade Católica (SP) e autor de, entre outros livros, "Figuras da Teoria Psicanalítica" (Escuta/Edusp) e "Escrever a Clínica" (Casa do Psicólogo).

Renato Mezan é psicanalista.
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