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Francisco Alembert - 14 - Maio de 1996
A vontade de ruptura
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A vontade de ruptura

 

FRANCISCO ALAMBERT

as histórias em torno dos livros de história frequentemente dariam outros bons livros. Algumas vezes elas são mesmo imprescindíveis para esclarecer os significados do exercício historiográfico. É o caso das circunstâncias da publicação do primeiro livro de Carlos Guilherme Mota (fruto de sua dissertação de mestrado de 1967), autor do já clássico "Ideologia da Cultura Brasileira" (Ática) e fundador do Instituto de Estudos Avançados da USP.
Ainda em 1967 saía a primeira edição do livro, em tiragem universitária limitada e com o mesmo título atual. "Limitada", porque um estudo marxista sobre os princípios da idéia de revolução no Brasil (ainda que tratando das revoluções coloniais) era tudo o que o regime "revolucionário" do momento não queria. Vicissitudes políticas e acadêmicas levaram o historiador a Portugal onde, graças ao empenho de Vitorino M. Godinho, uma editora portuguesa interessou-se pela obra. Mas Portugal sob Salazar também não poderia admitir o estudo sobre o pensamento revolucionário em sua ex-colônia.
O título alternativo pensado pelo autor, "O Viver em Colônias", agradava menos ainda nesses tempos de guerras coloniais africanas. Por fim, a primeira edição comercial apareceu em Portugal em 1970 com eufemístico título "Atitudes de Inovação no Brasil (1879-1801)". Entre nós, "Idéia de Revolução no Brasil" faria sua primeira aparição pública apenas em 1979, durante a anistia e a abertura política. Títulos, e obras, radicais também podem ser exilados. Esta edição apresenta, além de uma nova introdução, textos do autor sobre o processo de descolonização portuguesa e sobre a historiografia brasileira.
Na ex-colônia e na ex-metrópole, ambas sob regimes autoritários, o livro gerava um compreensível mal-estar. Estudando as configurações históricas de conceitos políticos como "revolução", "autonomia", "nacionalidade", a obra indicava os caminhos e impasses dos processos de dependência e independência; revelava como se estruturavam os discursos de oposição e sua práxis; mostrava os limites do liberalismo na sua raiz colonial e denunciava as formas de pensamento "ajustadas ao sistema".
Acima de tudo, mostrava como o poder se organizava contra as "misteriosas palavras" de um poeta sedicioso como Cláudio Manuel da Costa, palavras que podiam orientar o desejo de independência. Carlos Guilherme, ao estudar a "projeção da revolução no mundo das palavras", revelava como os poderes coloniais foram cultivando o horror pelas ambiguidades e pelo duplo sentido, um horror que se projetava desde as minas rebeladas em 1789, passando pelas revoltas no Rio de Janeiro (1794), Bahia (1798), Pernambuco (1801) até o ano em que o título de seu livro teria de ser expurgado. Note-se que a obra aparecia pouco antes do AI-5, no mesmo ano em que Glauber Rocha filmava "Terra em Transe", outro retrato implacável da crise da palavra perseguida.
A orientação do estudo, verdadeira novidade na historiografia brasileira, é explicar como as consciências iam aos poucos se pensando em termos de "grupo social", formando-se pelas tensões diante dos fluxos e refluxos da condição colonial: povoamento e despovoamento, favorecimentos e exclusões, tensões entre interesses locais e metropolitanos. O desajustamento diante de uma sociedade que na mesma proporção em que toma forma vai acumulando contradições, marca o início da consciência sediciosa e vai aos poucos fundamentando, sob a inspiração recente das revoluções francesa e americana, o imaginário dos revolucionários da periferia colonial.
No olho do furacão dos anos 60, o estudo dialogava com a recente historiografia marxista uspiana, cujo objetivo era então entender o Brasil nos quadros da crise mais ampla, não de uma "civilização luso-tropical" (como queriam os ideólogos do "caráter nacional", que Carlos Guilherme sempre combateu), mas de um sistema colonial que se desintegrava diante das transformações mais amplas do capitalismo, do qual era a parte fraca. Se a Fernando Novais, uma das grandes influências do autor, interessava explicar, na linha aberta por Caio Prado Jr., as dinâmicas estruturais da crise do antigo sistema colonial, a Carlos Guilherme coube explorar as contradições desse processo "também no nível das consciências", ou melhor: dentro de um sistema estruturalmente em crise, perguntava o historiador, como se processam as "tomadas de consciência", a vontade de ruptura?
Com esse mote de ordem política, Carlos Guilherme Mota inaugurava a bem dizer entre nós uma vertente da história das mentalidades da qual, ainda hoje, podem-se tirar grandes consequências, pois "não há história da mentalidade válida que não seja, ao mesmo tempo, história social" (pág. 19). É uma lição de 30 anos atrás que os historiadores de hoje poderiam muito bem revisitar. 

Francisco Alembert é professor do departamento de história da USP.
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