


Pós-História de Vilém Flusser: gênese-anatomia-desdobramentos de Rodrigo Duarte é uma obra inaugural, e não apenas no Brasil, sobre o filósofo, professor de Estética e sobrevivente do Holocausto. Alternadamente tcheco, brasileiro e francês, o pensamento de Flusser se constitui no âmbito das novas perspectivas culturais da modernidade, da mundialização ao pós-colonialismo, da Guerra-Fria às ditaduras da América Latina dos anos setenta. Rodrigo Duarte reconstrói as categorias epistemológicas que fundamentam as representações do mundo de Flusser e sua crítica iconoclasta da reversão visual contemporânea, consagradas no conceito de pós-história. Da História do Diabo à Liberdade dos Migrantes: em oposição ao Nacionalismo, da Fenomenologia do brasileiro: em busca do novo homem ao Universo das imagens técnicas, Flusser opera uma transformação no quadro pós-hegeliano do “Fim da Arte” e “Fim da História”, a pós-história contendo a tensão entre a necessidade divina e a contingência demoníaca, a eternidade de um e a transitoriedade do outro. Na linguagem dos “pecados capitais” da ira e da luxúria, a estratégica do Diabo face à intransigência divina revela seu solo comum, a crença na existência da realidade objetiva: “A luxúria é puro desejo, enquanto a ira é pura vontade. Enquanto aquela não admite a existência de leis, já que nem sequer um objeto definido possui, e intui a transitoriedade e a ausência de necessidade de tudo no mundo, a ira, ao erigir este último em seu objeto, o faz postulando a existência de leis inexoráveis, apenas diante das quais pode se colocar a questão da liberdade” (p. 40). Liberdade com risco, nos mostra Rodrigo Duarte, porque um hedonismo pós-histórico ancora-se na entropia e no retorno do informe arcaico celebrado como libertação, que o mito, a magia e a lógica se esforçaram por dominar. Com efeito, o mito cria a imagem e a representação do mundo do illo tempore, a escrita produz a visão histórica do antes e do depois, e a imagem mecânica ou fotográfica constitui a pós-história, composição de pós-ciência e pós-progresso, mas também de não tecnologia e a-história.
Imagem fotográfica
Dando continuidade a suas próprias reflexões sobre a teoria crítica e a indústria cultural, Rodrigo Duarte analisa a maneira pela qual a imagem fotográfica no pensamento de Flusser não é pós-visual mas pós-histórica. Ela não é a transformação da imagem mítica, um modo retrógrado de oposição ao universo mágico, mas sim a mutação da escrita, não um remake tecnológico da imagem pré-histórica, mas o que embaralha os limites entre o signo e o mundo, excluindo o Sujeito de seu funcionamento. Por isso a fotografia é um “escândalo” e um “perigo”: “as imagens técnicas não são janelas para ver o mundo, mas superfícies em que são transcodificados processos em cenas e que, embora sejam geradas por meios muito distantes das imagens tradicionais, têm o mesmo efeito de magicização que essas possuem, mas, diferentemente delas, não ritualizam mitos[...]. A maior complexidade das imagens técnicas[...] gera um poder de alienação inédito, já que sua qualidade visível é responsável pela ilusão de que elas sejam ‘objetivas’ e que tenham um valor equivalente ao do que pode ser visto com os próprios olhos, não mediado pelo processo de simbolização, que é evidente – pelo menos para a consciência histórica – nas imagens tradicionais.” (p. 121-122). Considerando seus efeitos radicais sobre a cultura, a fotografia como paradigma constitutivo da pós-história é a mecanização que rompe com a historicidade humana, porque os aparelhos automáticos são programados e programadores. Tão somente a arte poderia restabelecer a consciência subjetiva do pesquisador e o caráter concreto do real. Eis por que Rodrigo enfatiza o sentido da compreensão flusseriana da Arte como uma “poderosíssima droga”, pois, semelhante aos agentes narcotizantes, ela desarticula o funcionamento mecânico da vida, por ser uma “mediação não mediada”, maleável, da realidade.
Aprendizado no Brasil
Essa relação com o mundo social e histórico, Flusser a encontra em seus anos de aprendizado do Brasil que marcaram seu pensamento, com oscilações entre o entusiasmo e a descrença na emancipação do país com respeito a seus problemas. À concepção edênica da natureza brasileira, Flusser opõe o que nela há de hostil e fatalizador, a que se acrescenta a situação política do país nos anos setenta: “A preocupação de Flusser com o contexto brasileiro não se resume, entretanto, aos graves danos psíquicos que a cultura de massas pode ocasionar nas pessoas, mas adquire contornos dramáticos quando leva em conta o quadro sociopolítico no período da ditadura militar.”(p. 112).
Essa percepção de uma natureza madrasta e desoladora contribuiu para que o filósofo se aproximasse da cultura brasileira, enaltecida nas figuras de Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Haroldo de Campos e da poesia concreta, no barroco mineiro e no Modernismo. Reconciliando-se com o Brasil, Rodrigo observa que o filósofo reconhece no país a possibilidade de uma “síntese” entre os progressos técnicos e as “defasagens históricas” quanto à ciência, à técnica, à política e à cultura formal, o que permitiria evitar as catástrofes do “mundo histórico”. Neste sentido, a pós-história é histórica e não histórica, a a-história tem a sua dignidade: “o futuro do Brasil poderia vir a corresponder aos aspectos potencialmente liberadores da pós-história”(p. 273). Constatando a “crise da ciência” e sua “loucura objetivante progredindo na direção da abstração total”, o Brasil em desvantagem científica com o Ocidente tecnológico tem a virtude da Imaginação e participa de um nomadismo moderno, nem o da pré-história, tampouco o das Cruzadas, mas aquele que assimila as novas tecnologias em proveito da ampliação do campo perceptivo no entorno multimídia.
Face à necessidade acidental da morte, o pensamento de Flusser procura novas perspectivas culturais, conferindo um sentido superlativo à estética, não segundo uma renovação da Arte pela Ciência, mas o contrário. A Arte, observa Rodrigo Duarte, dimensão essencial do “pós”, é fundamental para a Política. Razão pela qual esta Filosofia libera diversos telos, pois se trata de um processo em que “estaria implícita a transformação do homo faber da civilização industrial no homo ludens do raiar pós-histórico”. Utopia do presente, a Arte pode realizar um tipo de emancipação inédito: “ ‘esta a nossa liberdade – opormos ao concreto estúpido do nada da morte a rede frágil e imaginária da liberdade.’”(p. 347).