

A utopia antropofágica
Ensaios lançam um olhar estrangeiro sobre a vanguarda brasileira
ANNATERESA FABRIS
"A Penúltima Visão do Paraíso" é uma coletânea de cinco ensaios, cujo epicentro é a antropofagia, sintetizada nas contribuições de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Os eixos determinantes da discussão que interessa a Subirats já são definidos no primeiro ensaio, no qual a problemática da razão moderna é sucessivamente tematizada por meio de Hoffmann, do surrealismo, da propaganda política como linguagem total e da utopia eletrônica global de McLuhan, cuja realização mais acabada seria a Guerra do Golfo.
O percurso proposto não é casual: se em Hoffmann é possível encontrar uma resposta de tipo irracional e extraordinária à racionalidade trazida pela Revolução Industrial, a Guerra do Golfo, concebida como encenação eletrônica, representa "a perfeita liquidação da realidade como experiência e a produção em massa de uma consciência integralmente manufaturada".
Hoffmann e as mídias eletrônicas colocam igualmente em xeque a noção de realidade pelo recurso ao simulacro. Se o simulacro do escritor alemão era um autômato, tomado por uma mulher sublime pelo protagonista do conto, o simulacro contemporâneo eleva esse superrealismo à enésima potência, pois é passível de transformar-se em "princípio de ação e de poder, realidade objetiva e efetiva, verdade globalmente consensual". Entre o simulacro como contrafação e o simulacro como simulação insere-se a revolução estética das vanguardas, considerada o verdadeiro princípio fomentador da utopia eletrônica de McLuhan. Sem estabelecer qualquer tipo de diferença entre as vanguardas da "ordem" e as vanguardas da "desordem", o autor localiza uma série de pontos em comum entre a arte moderna e o atual regime midiático: abolição da experiência estética; destruição das linguagens cotidianas; criação de um novo sistema linguístico e de uma nova universalidade; produção industrial de uma realidade "tecnicamente definida como sistema racional de normas formais ou como universo sistemático e irracional de simulacros".
A redução extrema à qual Subirats sujeita os alcances das vanguardas européias no primeiro ensaio é uma constante no livro, evidenciando-se sobretudo numa visão eivada de preconceitos em relação ao surrealismo e ao futurismo. A problemática das vanguardas não é abordada de modo unitário nos vários capítulos, mas sua avaliação geral pode ser considerada negativa, embora o autor não deixe de reconhecer o sentido emancipador que tiveram em determinados contextos culturais.
As oscilações registradas em relação às vanguardas voltam a ocorrer quando o assunto é a antropofagia. Deslumbrado com o empreendimento brasileiro, Subirats o define no quarto capítulo como "o ritual artístico da criação a partir da memória e da regeneração das comunidades históricas através dela" e lhe atribui um sentido emancipador diante dos simulacros e da globalização. No pós-escrito ao terceiro capítulo, o tom, entretanto, é outro. O autor reconhece que a utopia antropofágica "sucumbiu aos rituais canibalescos do autoconsumo mercantil e da destruição pós-industrial em nossa sociedade do espetáculo".
A visão negativa das vanguardas que perpassa "A Penúltima Visão do Paraíso" é congenial aos objetivos de Subirats, interessado em defender a originalidade originária da antropofagia contra toda tentativa de aproximação entre a proposta brasileira e as vanguardas européias. Por isso o autor não hesita em usar um tom dogmático, colocando sob o signo da paródia as interpretações da antropofagia que divergem da sua, sem atentar para as motivações que constituem o pano de fundo de cada leitura. Além de comportar-se como dono da verdade, esquecido de que o olhar que um estrangeiro lança sobre a cultura brasileira é diferente daquele dos intelectuais nacionais, Subirats não menciona os autores dos quais discorda, limitando-se a refutar sumariamente seus argumentos e a rotular sua atitude de "academicismo pouco sério" e "inescusável provincianismo, em seu afã de querer ser internacional, à força de ignorar a sua experiência cultural".
Afinal qual a contribuição do autor à fortuna crítica da antropofagia? Não me parece que, num primeiro momento, Subirats vá muito além da leitura de Benedito Nunes, que propõe analisar a antropofagia pelo prisma da metáfora (tudo o que deveria ser repudiado, assimilado e superado para a conquista da independência intelectual), do diagnóstico (uma sociedade traumatizada pela colonização e pela repressão das práticas ancestrais) e da terapêutica (uso do instinto antropofágico, finalmente liberto do tabu, para propiciar uma catarse imaginária do espírito nacional). A análise da relação da antropofagia com as vanguardas é nuclear nas considerações de Nunes e também nas de Haroldo de Campos -não incluídos no rol dos parodistas- e para ela o autor contribui sobretudo com a diferenciação entre a proposta brasileira e o canibalismo surrealista (integração revolucionária entre técnica e tradição versus choque como forma de ruptura com o passado) e a atualização da metáfora devoradora como possibilidade de instauração de um "projeto humanizado de conhecimento e poder tecnológico".
Se o objetivo final é este, Subirats poderia ter oferecido uma visão mais dinâmica das vanguardas, que se valeram da dupla racionalização/destruição da memória, enquanto metáfora, numa situação sociocultural profundamente complexa (apenas tangenciada no livro) e que viram seu projeto de transformação da realidade ser derrotado, do mesmo modo que a utopia antropofágica, que não conseguiu inverter a lógica cultural ainda hoje dominante.
Annateresa Fabris é historiadora, crítica de arte e autora, entre outros, de "Fragmentos Urbanos" (Studio Nobel).
A Penúltima Visão do Paraíso
Eduardo Subirats
Tradução: Eduardo Brandão
Studio Nobel (Tel. 0/xx/11/257-7599)
166 págs., R$ 28,00