

A sombra de Kant e Goethe
MARCIO SUZUKI
"Nossas filosofias estavam pouco distantes uma da outra, e somente nossas crenças nos separavam". Jacobi
um jovem pastor da cidade de Riga, que em breve figuraria entre os principais expoentes literários de sua época, traçou certa vez um pequeno perfil de um de seus mestres dos tempos de estudo universitário: o referido professor, a quem também estaria reservada uma condição ímpar no cenário filosófico, era "um observador da sociedade, um filósofo cultivado, (...) um filósofo do sublime e do belo da humanidade! e, nessa filosofia humana, um Shaftesbury da Alemanha".
É sempre com estranhamento que se lê essa caracterização que Johann Gottfried Herder (1744-1803) faz do filósofo Immanuel Kant, ressaltando-lhe um refinamento social e estético que contradiz a imagem austera pela qual foi não menos celebrizado. E, no entanto, a descrição pode ser instrutiva não só por aquilo que pretende dizer do autor das "Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime", mas também por aquilo que efetivamente diz dos encontros e desencontros que pontuaram a trajetória intelectual de mestre e discípulo. Neste sentido, a evocação de Shaftesbury -e, por extensão, dos moralistas e críticos ingleses- é emblemática. Em sua aparente inocência, contém uma indicação reveladora no que diz respeito à de outro modo quase inexplicável coincidência de temas em Herder e Kant (ainda que aos poucos fossem se tornando cada vez mais evidentes as diferenças de tratamento desses temas, num processo de afastamento que os levaria à ruptura definitiva).
Finalismo na observação da natureza e da história, paralelismo entre obra de arte e organismo, gênio, sublime, sem esquecer, obviamente, a religião: é com os olhos voltados para essas questões, que não por acaso também estão no centro das preocupações do criticismo, que se poderá ler ou voltar a ler, com renovado interesse, o primeiro ensaio de Herder sobre a filosofia da história, agora acessível ao leitor de língua portuguesa em tradução, elegante e precisa, de José M. Justo.
Assim como em Rousseau, muito da incompreensão e dos mal-entendidos em relação às idéias de Herder se deve à imagem que o associa a um vago anseio de volta à natureza e ao passado, a uma crítica irracionalista da cultura e do presente. Ora, o próprio título do livro de 1774 já contém um desmentido dessa interpretação: a filosofia da história de Herder é, e tem consciência de ser, somente mais uma (daí o "também", "auch", do nome) entre tantas outras que surgiram e continuariam a surgir no século das Luzes. Mas, por outro lado, também se sabe diferente das outras tentativas: sua originalidade reside justamente em conceber o desenvolvimento histórico, não como progresso nem como ciclicidade (as duas principais variantes da historiografia, otimista ou pessimista, entre os filósofos ilustrados), mas como um organismo em crescimento, como um processo de formação da humanidade.
É a partir dessa diferença que, segundo Herder, se torna possível compreender melhor a ilusão de que é vítima a filosofia iluminista, ao tentar explicar a história como se esta tivesse como causa final a própria instauração das Luzes na Europa. Estando de fato num momento crucial da história -como que no extremo mais alto da copa de uma árvore-, os filósofos ilustrados ou interpretam o estado atual como o fim de um ciclo, ou como o ponto máximo a que se pode chegar, sem todavia se dar conta de que forças imperceptíveis podem ter plantado ou ainda poderão plantar mudas dessa velha árvore num solo fértil, cuja profundidade não é visível aos homens do presente: o progresso do espírito humano, diz Herder, "pouco mais é do que um fantasma de nossas cabeças e nunca se confundirá com o caminho de Deus na natureza! Uma semente cai à terra! Ali fica, entorpecida. Mas chega o sol e acorda-a. A semente rompe. A cápsula abre-se violentamente. A planta irrompe do solo..."
A argumentação é, pelo que se vê, mais sutil do que uma mera crítica ao Iluminismo, e mais complexa do que uma simples oposição entre providência divina e interesses humanos. Sem dúvida, a história do mundo tem de ser concebida segundo um plano que dê conta de toda a sua articulação -é o que também pensa Kant ao mostrar, já no escrito sobre o belo e o sublime, que a diferença de interesses contribui para a realização de um mesmo fim-, mas o erro está em projetar uma finalidade particular, um fim finito, como princípio de explicação do sentido da história. Sem forçar a comparação talvez se possa dizer que, construindo um finalismo imaginário, os filósofos das Luzes cometem, para Herder, um equívoco semelhante ao antropomorfismo dos teístas, que, para poder explicar teleologicamente a criação e a ordem do universo, imaginam uma vontade e um entendimento divinos: num caso como noutro, trata-se de atribuir a Deus ou à natureza aquilo que só é verdadeiro do ponto de vista de seus modos finitos.
Mas Herder crê ser possível escapar desse mau finalismo pela noção de um organismo que se reproduz infinitamente, de uma natureza entendida "sub specie aeternitatis", que se prolonga na história como formação da humanidade, como forma formans (na expressão felicíssima que o tradutor utiliza para explicar a palavra "Bildung" no posfácio) e não apenas como forma formata. Deste modo, Herder pode reformular a idéia de ciência intuitiva espinosana, estetizando de certo modo o terceiro gênero de conhecimento: a compreensão da atividade incessante da forma em toda a história da humanidade não requer somente um "espectador" que, diante do drama dos homens, "se situe na perspectiva correta" (como a mônada leibniziana), mas depende também daqueles momentos privilegiados em que isso se torna perfeitamente visível, daqueles instantes em que brilha o gênio.
É assim, por exemplo, que Shakespeare, inventando planos consistentes para tragédias aparentemente confusas, poderá ser considerado um verdadeiro "deus dramático". Essa analogia entre a disposição orgânica da obra do gênio e o plano coerentemente articulado da história também está presente no jovem Goethe: "O teatro de Shakespeare é uma bela caixa de relíquias em que a história do mundo passa diante de nossos olhos, presa ao fio invisível do tempo. Seus planos, para falar no estilo vulgar, não são planos, mas suas peças giram todas em torno do ponto secreto (que nenhum filósofo até agora viu e determinou) em que o que é próprio de nosso eu, a pretensa liberdade de nossa vontade, colide com o curso necessário do todo".
Não é certamente casual que Kant sempre atacará o ex-discípulo justamente nesses dois temas, a história e o gênio, que ele também explica a partir de uma intenção oculta e de uma atividade inconsciente, insondável, da natureza, ambas entendidas porém como meros princípios heurísticos da reflexão. Apesar das tentativas do discípulo de responder ao ex-mestre, a partida já estava decidida: depois de viajar pela Itália e de ler a "Crítica do Juízo", o próprio Goethe se afastará, não sem pesar, das idéias de Herder. Ou não será antes o caso de dizer, invertendo as palavras de Jacobi sobre Lessing: nossas crenças estavam próximas uma da outra, e somente nossas filosofias nos separavam.