


Maria Isaura Pereira de Queiroz dispensa maiores apresentações, parece evidente. Professora aposentada de sociologia da USP, pesquisadora de temas brasileiros e fundadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU), Maria Isaura teve atuação destacada na docência e na pesquisa, no Brasil e no exterior. Mas, se é verdade que o seu nome e sua obra são familiares para os que circulam pelas ciências sociais, sobretudo em seara paulista, curiosamente ela não tem sido personagem destacada nos já numerosos balanços e histórias da universidade entre nós. Suas reflexões tampouco mereceram atenção detida dos estudiosos até o momento. Esse é sem dúvida o mérito maior do volume organizado por Ethel Kominsky. Ao reunir ensaios sobre aspectos variados da ampla produção da socióloga, o livro permite dimensionar sua importância, situando a autora ao lado de nossos maiores intérpretes.
Uma apreciação da obra de Maria Isaura, sobretudo a da década de 50, impõe a compreensão dos caminhos trilhados pelas primeiras gerações de sociólogos da Universidade de São Paulo, adverte Maria Arminda do Nascimento Arruda em seu ensaio. O novo feitio das investigações -desenhadas no compasso dos recortes precisos, da pesquisa empírica, das opções teórico-metodológicas claramente explicitadas, do trânsito entre as disciplinas e da forma monográfica preferencialmente utilizada- aproxima os primeiros trabalhos sociológicos produzidos no âmbito da universidade.
Do ponto de vista temático, verificam-se novas confluências: os camponeses, os índios, os negros, os imigrantes, os pobres do campo e das cidades. Esses diferentes temas, por sua vez, encontram-se alinhavados pela análise da mudança social, pela compreensão dos problemas decorrentes da urbanização e da modernização da sociedade brasileira em curso, pela discussão da crise do universo agrário tradicional.
Formada em 1949, Maria Isaura iniciou-se como pesquisadora no bojo do convênio firmado entre a Universidade de Columbia (EUA) e o governo da Bahia para a realização de pesquisas em comunidades típicas de várias regiões do Estado. O trabalho de campo realizado nesse período dá origem ao livro sobre a dança de São Gonçalo (1958), em que exercita o instrumental sociológico diante do material folclórico, na esteira das incursões anteriores de Florestan Fernandes, de quem foi assistente na cadeira de sociologia. Mas, nesse caso específico, as análises do folclore se integram às preocupações da pesquisadora com os fenômenos religiosos, já envolvida que estava com a interpretação dos movimentos messiânicos, e particularmente com o estudo do Contestado, que lhe valeu o doutoramento na Sorbonne, em 1956 ("A Guerra Santa no Brasil: O Movimento Messiânico do Contestado").
Observa-se nessa primeira produção de Maria Isaura a interconexão de temas e problemáticas (o universo rural, a cultura popular e o folclore, o messianismo e a religião), aos quais vão progressivamente se agregando outros (o coronelismo e o cangaço, as relações raciais, os espaços urbanos, o Carnaval). Ao repertório variado integram-se perspectivas metodológicas diversas, ancoradas em fontes díspares: depoimentos, histórias de vida, textos literários, folhetos de cordel, entre outros, que ela experimentou e sobre as quais refletiu, como indicam os artigos de Ethel Kominsky, Miriam M. Leite e Achim Schrader. As múltiplas direções apontadas por uma obra que percorre diferentes domínios da investigação sociológica -sociologia da religião, sociologia política, sociologia rural, sociologia da cultura, sociologia do conhecimento, entre outros- driblam permanentemente os esforços de classificação e periodização, como mostram os comentadores.
Não é difícil perceber, com o auxílio dos ensaios reunidos neste volume, como os contornos básicos da produção da socióloga trazem consigo as marcas da convivência intelectual com Roger Bastide, professor na USP entre 1938 e 1954, e referência fundamental para várias gerações de cientistas sociais formados em universidades de São Paulo. Maria Isaura, aluna de Bastide no Brasil e sua orientanda na França, aprendeu com o mestre, entre outras coisas, a exercitar as potencialidades do instrumental sociológico quando utilizado sem preconceitos teóricos de nenhuma espécie. E aí reside, seguramente, uma de suas grandes virtudes. A liberdade no trato do material empírico e na manipulação das ferramentas teórico-metodológicas -inseparável do rigor científico, vale lembrar- permitiram a ambos um mergulho profundo na cultura e na sociedade brasileiras. As diversas faces do país foram percorridas por Bastide e Maria Isaura com o auxílio de um ponto de vista interdisciplinar, sensível à complexidade das dinâmicas societárias, às tramas do simbólico e ao imaginário.
Os artigos sobre a sociologia de Maria Isaura Pereira de Queiroz que integram este "Agruras e Prazeres de uma Pesquisadora" destacam a grandeza de sua produção e funcionam também como uma espécie de introdução ao pensamento da autora: daí sua importância. Justamente por oferecer um material precioso para futuros estudiosos, seria preciso, numa segunda edição, além de uma revisão cuidadosa dos textos, uma organização adequada da bibliografia, que se supõe deva ser mais que uma mera listagem de títulos. Se classificada segundo algum critério -cronologicamente ou por séries temáticas-, com o cuidado de distinguir artigos de livros, originais de traduções, a bibliografia pode fornecer um excelente guia para o mapeamento da produção e do percurso dessa que é um dos maiores expoentes das ciências sociais no país.
Fernanda Peixoto é professora de antropologia na Universidade Estadual Paulista.