

A ruptura heróica do cinema brasileiro
FERNÃO RAMOS
Cinema de Invenção
Jairo Ferreira
Limiar (Tel. 0/xx/11/3086-2604)
256 págs., R$ 29,00
Esta nova edição, revista, de "Cinema de Invenção" mostra a força de uma certa tradição no cinema brasileiro. A forma cinematográfica sobre a qual o livro se debruça está, ainda hoje, presente nas preocupações e no discurso dominante de jovens cineastas. As narrativas experimentais (no cinema ou em outros campo artísticos) há muito deixaram de possuir o estigma da exclusão, passando ocupar o veio central da mídia cultural. A questão agora é saber lidar com a demanda social que os cadernos de cultura criam em torno de valores como ruptura, "novo", arte radical, "coragem" de inventar etc. Vivemos numa época que institucionalizou (diluiu) os reclames heróicos das primeiras vanguardas modernas, reciclados nos anos 60 e 70. A ruptura e a exclusão viraram um verniz valioso que muitos demandam, mas encontram um espaço estreito para se concretizar.
"Cinema de Invenção" é um livro escrito dentro do clima de antanho, que marca a ruptura ainda heróica, e aí está seu maior charme. Jairo Ferreira é uma figura particular no cinema brasileiro. O estilo e o conteúdo do livro absorvem esse carisma pessoal que, em seu caso, confere o tempero histórico, necessário para o interesse dos textos. Mesmo sendo um cineasta/autor consistente, Jairo optou por uma espécie de trabalho nas sombras que lhe permitiu circular com agilidade nos diversos meios experimentais do cinema brasileiro. A proximidade maior delineia-se com a vanguarda cinematográfica paulista dos anos 60 e 70, em particular dentro de sua vertente "boca-do-lixo".
Os textos sobre Carlos Reichenbach, Júlio Calasso, João Callegaro, Ozualdo Candeias, Mojica, Andrea Tonacci, o Sganzerla de "O Bandido da Luz Vermelha" e "Mulher de Todos", são marcados pela impressão digital de quem viveu de perto o momento histórico que descreve. Mas também no capítulo sobre Glauber, ou no sobre Bressane, sentimos, junto à atividade crítica, a parcela da experiência pessoal. Uma das dificuldades do livro é encontrar um estilo para situar -e valorar- a produção e a participação do autor dentro do universo que descreve. Na divisão das favas da criatividade é sempre difícil saber a parte que nos cabe.
O panorama sobre cinema de vanguarda brasileiro é estabelecido de modo generoso (o autor admite "ter pautado o livro pelo prazer e não pela irritação") e isso é uma qualidade. Não há a preocupação em marcar posição pela crítica azeda, de modo a destacar aquele que critica. Jairo gosta do que descreve. O ponto forte do livro é mostrar, de dentro, o momento histórico em que a tradição da arte de vanguarda ocupou o centro do cenário cultural brasileiro. Ao tentar expandir horizontalmente o campo do "cinema de invenção", o recorte da abordagem já não oferece tanta consistência. Um solitário capítulo sobre "Limite" situa a "invenção" nos anos 20; algumas fotografias, sem texto, mostram a "invenção" nos anos 90.
No final do século, a tradição cinematográfica experimental conhece outro momento privilegiado, explorando o suporte vídeo digital, e também o da película, com o trabalho de autores como Joel Pizzini, Carlos Adriano, Sandra Kogut, Lucas Bambozzi, entre outros. Um panorama realmente atualizado das narrativas "de invenção" deveria contemplar a produção de autores que se situam nessas novas perspectivas e formas de produção imagética/sonora. O livro é, antes de tudo, o retrato de uma geração e da produção experimental que deita suas raízes (seguindo periodização do autor na filmografia) entre 1967 e 1971.
O recorte do experimental é, certamente, motivo de polêmicas, e o próprio Jairo comenta no livro as críticas recebidas na primeira edição. Algumas parecem ter sido aceitas, e Walter Hugo Khouri deixou de figurar no panteão da "invenção", colocação que parece ter causado escândalo entre os pares. Entram na nova edição, com capítulos próprios, André Luiz Oliveira, Elyseu Visconti, Sylvio Lanna, o que reforça a visão do experimental a partir da ruptura vanguardista que se seguiu à eclosão da contracultura no Brasil dos anos 60.
O livro é dividido em um primeiro capítulo geral, que nos apresenta um panorama histórico do cinema de "invenção", dentro de uma perspectiva internacional. Lang, Epstein, Mauro, Grierson, Lindsay Anderson, Mclaren, Brakhage, cineastas de tradições narrativas e figurativas bastante diversas, são incluídos no liquidificador da invenção. A coloração semiótica tentada no capítulo "Paideuma" surge um pouco deslocada. Os capítulos seguintes apresentam maior acuidade, com textos escritos sobre diversos diretores brasileiros, divididos em "existenciais", "visionários", e "intergalácticos".
Mesmo se as razões da divisão não ficam claras, é nesses capítulos que Jairo se solta mais e deixa correr sua visão pessoal de diretores como Luiz Rosemberg, Neville d'Almeida, Carlos Ebert, José Celso, Ivan Cardoso, Peixoto e outros. As posições são claras: o trabalho cinematográfico de Zé Celso não convence; a guinada de Neville para o cinemão não é deixada em branco; Mojica é a grande luz na "invenção" brasileira; o Glauber experimental resultou em "Câncer", um filme menor; Bressane fez "A Família do Barulho", que é o filme; Rogério, Julinho e Glauber deveriam "reconhecer influências mútuas e deixar de mistificação"; Carlos Reichenbach tem em "O Império do Desejo" um momento-chave da cinematografia nacional. Polêmicas ou não, essas e outras opiniões estão fundamentadas na visão coerente de uma tradição narrativa e figurativa que percorreu nosso cinema com intensidade na segunda metade do século.
Sob qualquer perspectiva, "Cinema de Invenção" é um livro-chave para conhecer o cinema brasileiro. Seu foco central é a produção cinematográfica que, mantendo uma proposta de vanguarda, passa ao largo do grupo cinemanovista. Praticamente contemporâneos de geração, ambos os grupos tiveram destinos bem distintos na distribuição das oportunidades proporcionada pelo Estado brasileiro. E até hoje, quando o cinema contemporâneo da "retomada" vai em busca de seus "pais fundadores", costuma esquecer essa produção de "invenção", que levou ao extremo opções estilísticas que outros apenas afloraram.
Fernão Ramos é autor, entre outros livros, de "Cinema Marginal (1968-1973) - A Representação em Seu Limite" (Brasiliense).